Capítulo 93: Tio Liu Hua
Yang Zhen dava grande importância ao seu primeiro encontro formal com a família Ye e, por isso, vestiu um terno, deixando de lado os trajes descolados e extravagantes de outrora. No entanto, por azar, Ye Jianwen e Ye Qingling, pai e filha, não estavam em casa; coube a Lu Chen e Liu Ya receberem o visitante.
Diante da futura sogra, Liu Ya, Yang Zhen fez questão de mostrar-se humilde, com um sorriso largo no rosto e palavras carregadas de deferência. Quanto a Lu Chen, sentado ao lado, foi completamente ignorado por Yang Zhen.
Lu Chen tampouco se importava em dar atenção ao sujeito; imaginava que o outro ainda guardava rancor por ter atrapalhado seus planos na última vez que se encontraram.
Liu Ya, alheia à história entre os três, acreditava que Lu Chen e Yang Zhen não se conheciam e logo tratou de apresentá-los formalmente.
Ambos os homens vestiram sorrisos falsos, comportando-se como se realmente se vissem pela primeira vez; entre apertos de mão e conversas superficiais, não deixaram transparecer nada. Foi então que, de repente, a campainha soou.
— Lu Chen, vá abrir a porta, veja se é o seu tio que chegou — pediu Liu Ya, casualmente, ao ouvir o toque.
Lu Chen assentiu e, sob o olhar sarcástico de Yang Zhen, levantou-se do sofá e foi até a porta.
Do lado de fora estava um homem de meia-idade, na casa dos quarenta, corpo já volumoso e aparência um tanto oleosa; os traços, embora um pouco deformados, ainda guardavam alguma semelhança com os de Liu Ya.
— Tio — cumprimentou Lu Chen com um sorriso.
Mas o recém-chegado sequer o respondeu; soltou apenas um resmungo pelo nariz e o empurrou para o lado, entrando sozinho na sala de estar.
Lu Chen franziu a testa diante da cena, mas nada disse. Quanto ao irmão de sua sogra, já estava mais do que acostumado àquela postura.
O nome do irmão de Liu Ya era Liu Hua, cerca de dez anos mais novo que ela. Desde pequeno, criado sob os mimos dos pais e da irmã, transformou-se num inútil. Embora Lu Chen fosse casado com Ye Qingling há menos de dois anos, já conhecia de cor as façanhas do cunhado.
Por exemplo, após a morte dos pais de Liu Hua e Liu Ya, temendo que o filho ficasse desamparado, eles deixaram toda a herança para Liu Hua, com o consentimento de Liu Ya. Porém, em menos de dois anos, Liu Hua perdeu tudo jogando e ainda contraiu uma dívida de mais de dois milhões.
Ao perceber que havia perdido tudo, Liu Hua não teve coragem de contar à irmã e fingiu que nada havia acontecido, levando a vida normalmente.
Foi só quando os cobradores bateram à porta que a verdade veio à tona. Sem dinheiro para pagar a dívida, a casa foi tomada pela empresa de empréstimos. Por conta disso, a esposa de Liu Hua não hesitou: pediu o divórcio imediatamente.
Sem casa, sem esposa, e com poucos trocados no bolso, Liu Hua não teve outra saída a não ser instalar-se na casa dos Ye, onde ficou por três ou quatro meses. Mesmo Liu Ya, por mais ingênua que fosse, percebeu que algo estava errado. Após uma rigorosa inquirição, Liu Hua contou-lhe tudo, deixando Liu Ya à beira de um colapso.
No fim, coube a Liu Ya e Ye Jianwu arcar com a dívida do irmão, resgatar a casa tomada e quitar o empréstimo. No total, Ye Jianwen desembolsou quase cinco milhões, mas, de temperamento afável, fez tudo conforme a vontade da esposa, mesmo detestando Liu Hua.
O motivo da desavença entre Lu Chen e Liu Hua era simples: Liu Hua queria apresentar a sobrinha Ye Qingling a um jovem rico, esperando, assim, arrancar algum dinheiro do rapaz.
Jamais imaginou que Ye Qingling optaria por casar-se às pressas com Lu Chen, frustrando todos os seus planos cuidadosamente traçados.
O jovem rico, por sua vez, já havia investido centenas de milhares de yuans e, ao perder a noiva, quis reaver o dinheiro com Liu Hua.
Como diz o ditado, “o rio muda de curso, mas a natureza não se altera”. Liu Hua, viciado em jogos, já havia torrado tudo no submundo das apostas. Quando a cobrança chegou aos ouvidos de Ye Jianwen, este, temendo que a esposa adoecesse de tanta raiva, ainda pagou a dívida às escondidas.
Liu Hua, do começo ao fim, jamais agradeceu ao cunhado; achava que era obrigação dele pagar suas dívidas, afinal, os pais haviam confiado sua vida à irmã e ao cunhado.
E foi justamente por causa do episódio com o jovem rico que Liu Hua passou a guardar rancor de Lu Chen.
Na cabeça de Liu Hua, se não fosse a intervenção de Lu Chen, sua sobrinha teria se casado com o rapaz abastado, e ele, com o apoio do novo parente, jamais passaria aperto financeiro.
Lu Chen retornou calmamente à sala, onde Liu Ya e Yang Zhen já conversavam animadamente. Liu Hua, sentado ao lado, tentava sondar a família de Yang Zhen.
Ao saber que Yang Zhen vinha de família abastada, filho de um magnata dos negócios, Liu Hua mudou de atitude num segundo: o rosto pesado e fechado se iluminou com um sorriso, e o olhar dirigido a Yang Zhen era mais afetuoso do que o que lançava ao próprio pai.
Com o apoio entusiasmado de Liu Hua, Liu Ya e Yang Zhen engataram uma conversa cada vez mais agradável, criando simpatia e quase aprovando o pretendente da filha mais nova.
Quanto a Lu Chen, era como um móvel na sala: não tinha espaço para participar da conversa, nem desejava, permanecendo sozinho no outro extremo do sofá, de olhos fechados, absorto em seus pensamentos.
Esse cenário permaneceu inalterado até a hora do jantar. Durante toda a refeição, só se ouvia Liu Ya, Liu Hua e Yang Zhen, que alternavam diálogos sobre família, negócios e vida universitária.
Aproveitando-se de um momento em que Liu Ya foi à cozinha, Liu Hua lançou um olhar ao silencioso Lu Chen e comentou, com tom indiferente:
— Lu Chen, está aí parado por quê? Sirva logo vinho ao convidado! Não sabe nem o mínimo de boas maneiras?
— Ora, tio, não precisa se preocupar, não ouso incomodar meu cunhado — retrucou Yang Zhen, rindo e lançando um olhar de escárnio a Lu Chen, em tom sarcástico.
— Que nada! Ele aqui é apenas um genro agregado! Antigamente seria tratado como animal de carga; hoje, deixá-lo à mesa com convidados já é favor demais — disse Liu Hua, zombando.
Yang Zhen fingiu surpresa:
— Ah, então o cunhado é genro agregado? Hoje em dia, poucos homens aceitam essa condição.
— Quem sabe o que se passa na cabeça dele? Sabe que, nessas condições, os filhos levam o sobrenome da mãe; não sei se isso não é o mesmo que cortar a própria linhagem — continuou Liu Hua, com desprezo, após um gole de aguardente.
— Pronto, vocês dois, chega de conversa — interveio Ye Qingyun, que já não suportava a cena. Apesar de não simpatizar muito com Lu Chen, lembrava-se do auxílio que ele prestara na noite no Clube Ziye, e por isso lhe era grata.