Capítulo 38 - A Estranha Doença
Enquanto Arlindo ainda estava atônito, Lúcio lançou repentinamente um chute certeiro, atingindo-o em cheio no peito e fazendo com que seu corpo inteiro fosse arremessado para longe. Todos que presenciaram a cena arregalaram os olhos, incrédulos.
O corpo robusto de Arlindo, como uma pipa que teve o fio cortado, voou para trás por uns sete ou oito metros, despencando com estrondo sobre o sofá onde Renato Sampaio estivera sentado, reduzindo-o a pedaços e arrancando um grito agudo de Sônia Lin.
— Arlindo, você está bem?
O semblante de Renato Sampaio mudou ligeiramente; o olhar de desdém e desprezo que lançava a Lúcio se tornou, num instante, sério e pesado. É preciso lembrar que Arlindo era seu capanga mais forte; não seria exagero dizer que ele poderia enfrentar vinte homens sozinho com facilidade. No entanto, naquele dia, fora arremessado com um único chute por um sujeito aparentemente insignificante.
— Estou... estou bem...
Arlindo segurava o peito, respirando com dificuldade, sentindo-se como se tivesse sido atropelado por um carro em alta velocidade — seus órgãos pareciam todos fora do lugar. Contudo, graças à sua constituição robusta, bastaria algum tempo de repouso para recuperar-se normalmente.
— Renato, se todos temos assuntos a tratar, por que não sentamos e conversamos calmamente? Não há necessidade de recorrer à violência, não é mesmo? — disse Lúcio, caminhando lentamente à frente e encarando Renato Sampaio com um leve sorriso.
— Vejo que subestimei seu talento, meu amigo. — Renato respirou fundo e, com certa rigidez no rosto, forçou um sorriso.
— Renato, percebo que suas olheiras estão profundas, o centro da testa escurecido, o olhar disperso e sem brilho. Você anda tenso, irritadiço, propenso à raiva... Diga-me, ultimamente tem tido muitos pesadelos?
Após observar Renato por um momento, Lúcio falou de repente.
— Como? — Luciano e Ana Cristina ficaram atônitos com aquelas palavras, olhando para Lúcio cheios de dúvida, sem entender por que dizia coisas tão estranhas naquele momento.
Jéssica Oliveira estava à beira de um ataque de nervos, pensando que, tendo já derrotado o capanga de Renato, aquela era a hora de exigir que fossem liberados, e não de se perder em enigmas. Será que ele estava querendo complicar ainda mais a situação?
Já Marina Sampaio, por outro lado, parecia lembrar de algo e, ao olhar para Lúcio, seus olhos brilharam de expectativa.
Quanto a Sônia Lin, o senhor Chen e os demais capangas, todos olhavam para Lúcio com expressões estranhas, como se estivessem diante de um lunático.
O sorriso foi sumindo do rosto de Renato Sampaio e, quando todos pensaram que ele explodiria, ele murmurou em voz baixa:
— Como você sabe disso?
— Li isso no seu rosto. — Lúcio sorriu suavemente e, apontando para Jéssica, Marina e os demais, continuou: — Renato, que tal deixar essas pessoas irem? Posso ficar e conversar com você a sós.
Renato franziu o cenho e, após lançar um olhar aos presentes e hesitar por um momento, disse:
— Arlindo, acompanhe essas jovens até a saída. Quero ver do que esse rapaz é capaz.
Mesmo sem admitir diretamente, sua atitude deixava claro que havia reconhecido a veracidade das palavras de Lúcio.
Luciano, ao ouvir isso, finalmente relaxou o coração que estivera apertado e, puxando Ana Cristina, preparou-se para sair rapidamente. Não sabia como Lúcio havia conseguido enganar Renato com aquelas palavras, mas se não aproveitassem para ir embora agora, talvez não tivessem outra chance.
Jéssica e Marina, porém, hesitaram em partir, permanecendo imóveis. Lúcio então olhou para o corpo desacordado de Iago Xavier caído no chão e falou baixo:
— Jéssica, Marina, vão na frente. Levem Iago ao hospital.
Assim que todos saíram, Renato Sampaio finalmente perguntou:
— Como devo chamar o senhor?
— Lúcio Chen — respondeu Lúcio, sorrindo levemente ao apresentar-se.
— Imagino que, se percebeu que sou atormentado por pesadelos todas as noites, também saiba como resolver meu problema. Peço, por favor, que compartilhe seu conhecimento. — Renato fitou Lúcio intensamente.
Nas últimas semanas, praticamente todas as noites, ele era atormentado por sonhos terríveis, o que deteriorava cada vez mais a qualidade do seu sono e já prejudicava sua concentração durante o dia.
Lúcio, com serenidade, perguntou:
— Gostaria de saber, Renato, sobre o que costumam ser seus pesadelos?
— Bem... — Renato hesitou brevemente e, então, meio constrangido, respondeu: — Para ser sincero, apesar de saber que tenho pesadelos toda noite, ao acordar pela manhã jamais consigo me lembrar do que sonhei.
— Não consegue se lembrar dos detalhes?
Lúcio franziu levemente a testa, analisou atentamente o rosto de Renato e perguntou:
— Ao acordar, percebe alguma mudança física em alguma parte do corpo?
Renato refletiu um pouco e apontou para o peito:
— Toda manhã, sinto uma dor cada vez mais forte no coração, mas dura apenas uns quinze segundos e depois passa.
— Por favor, tire a camisa para que eu possa examinar seu peito.
— Claro.
Com a ajuda de Arlindo e Sônia Lin, Renato tirou o paletó e a camisa. Apesar da idade, mantinha boa forma graças aos exercícios frequentes na academia. Ao despir-se, revelou um peitoral definido e, tatuada no peito, uma feroz onça descendo do morro.
Lúcio observou rapidamente. Somente pessoas como Renato, com passagens pelo submundo, costumam tatuar uma onça descendo — símbolo de coragem e espírito empreendedor. Para os veteranos do crime, a presença desta tatuagem impõe respeito, desde que não seja em excesso. Porém, esse tipo de tatuagem precisa harmonizar com o destino e a personalidade do portador, caso contrário, pode trazer conflito e azar.
Sob os olhares desconfiados de Arlindo e Sônia Lin, Lúcio estendeu lentamente o dedo e pressionou alguns pontos no centro do peito de Renato. Instantaneamente, surgiu uma mancha roxa e escura, do tamanho de uma palma, no lado esquerdo do peito de Renato.
Arlindo arregalou os olhos e gritou furioso:
— O que você fez com o Renato?
— Fique quieto! — Lúcio ordenou com a testa franzida, pressionando novamente a mancha, fazendo Renato Sampaio gemer de dor.
— Isso, isso! É exatamente essa dor que sinto toda manhã! — Apesar do incômodo, Renato estava visivelmente emocionado e assentiu com vigor.
Lúcio recuou a mão, com o semblante grave, e disse em tom sério:
— Se não me engano, Renato, você foi vítima de um feitiço de aprisionamento onírico...