Capítulo 4: Cinco Vícios e Três Deficiências
Às duas e meia da tarde, quando terminaram de gravar o depoimento e saíram da delegacia, o olhar de Ye Qingling para Lu Chen já estava bem mais suave, sem o traço de frieza de antes.
— Lu Chen, você acha que o dinheiro da irmã Ma, aqueles quarenta mil, ainda podem ser recuperados?
Depois de um breve silêncio, Ye Qingling tomou a iniciativa de puxar conversa.
— Os golpistas certamente serão presos, mas quanto ao dinheiro, acho que já era, foi pelo ralo.
Lu Chen balançou levemente a cabeça. Pela fisionomia que vira em Ma Ling, ela certamente estava fadada a perdas e infortúnios. Além disso, o trio de golpistas era experiente, agia rápido e com precisão. Quando a polícia os encontrasse, provavelmente os quarenta mil já teriam sido gastos há muito tempo.
Ye Qingling suspirou suavemente e perguntou de novo:
— Ah, amanhã é o aniversário de setenta anos do vovô. O que você acha que devemos preparar de presente para ele?
Ao ouvir isso, Lu Chen ficou surpreso, quase atônito. Na família Ye, sua posição era tão baixa que raramente alguém lhe pedia opinião. Decisões importantes nunca passavam por ele, nem mesmo a escolha do presente para o patriarca era responsabilidade sua — cabia a Ye Qingling decidir, e ele era apenas um acompanhante, sem direito a voto.
— O velho gosta de antiguidades. Se prepararmos uma peça autêntica, já estará ótimo.
Depois do espanto inicial, ele respondeu com um sorriso tranquilo.
Ye Qingling concordou com a cabeça, mas seu rosto delicado denunciava uma ponta de dificuldade.
— Também sei que ele adora antiguidades, mas não é nada fácil comprar uma peça verdadeira. Naquela rua de antiguidades, está cheio de falsificadores e trapaceiros. E quando aparece uma peça autêntica, o preço é sempre absurdo.
— Qingling, se você confiar em mim, vamos voltar e comprar aquele copo de porcelana que vimos antes.
Lu Chen sugeriu repentinamente.
Ye Qingling o olhou de relance, com certa hesitação no rosto, mas logo assentiu:
— Está bem, eu confio em você.
Dito isso, ela deu partida no carro e, junto com Lu Chen, voltou à rua de antiguidades.
Como o copo de porcelana que Lu Chen escolhera parecia muito simples e desgastado, ninguém se interessara por ele durante toda a manhã, e assim foi fácil para eles comprá-lo. O dono da barraca, grato pela ajuda anterior de Lu Chen, recusou-se a aceitar dinheiro, mas Lu Chen insistiu e deixou mil yuan com ele.
Ye Qingling nunca teve muito interesse por coisas sujas e escurecidas como aquela, porém decidiu confiar em Lu Chen e não comprou mais nada.
No caminho de volta, Lu Chen sentou-se no banco de trás, observando o copo de porcelana escurecido em suas mãos e Ye Qingling, atenta ao volante. Uma onda de emoções tomou conta de seu coração.
Aqueles mil yuan gastos no copo vieram das mãos de Ye Qingling, pois ele, um homem de vinte e oito anos, quase trinta, tinha apenas algumas dezenas no bolso. Não era por mesquinharia da família Ye, mas sim por sua própria recusa em aceitar dinheiro.
A origem de tudo isso remontava ao seu mestre, falecido no ano anterior.
Quando tinha cinco anos, Lu Chen perdeu os pais por doença e foi acolhido pelo mestre, que o criou e lhe ensinou sua arte. O mestre era herdeiro da linhagem Tianming, especialista em leitura de rostos, geomancia, escolha de locais auspiciosos e previsão de sorte e azar.
Normalmente, alguém com tais habilidades viveria cercado de luxo e seria prestigiado por ricos e poderosos. Mas, infelizmente, a linhagem Tianming trazia consigo um fardo: todos os descendentes sofriam do chamado “Cinco Males e Três Faltas”.
Os “Cinco Males” eram viuvez, solidão, isolamento, desgraça e deficiência. As “Três Faltas” significavam ausência de riqueza, longevidade e poder.
O mundo tem suas próprias regras. Quem tenta decifrar os segredos do destino ou alterar seu curso acaba punido. Tudo segue a lei de causa e efeito; interferir no ciclo traz desastres inesperados.
O mestre, ao herdar a linhagem Tianming, acabou sofrendo da falta de longevidade. Viveu honras e glórias, mas morreu aos cinquenta anos.
Antes de ser acolhido pelo mestre, Lu Chen já havia perdido os pais — o que cumpria o “mal da solidão”. Contudo, por ser um “filho do destino”, ao tornar-se discípulo, passou também a carregar a “falta de riqueza”, condenado à pobreza eterna.
Tentou mudar o próprio destino inúmeras vezes, mas nunca teve sucesso. Quanto mais dinheiro possuía, maiores eram as desgraças que enfrentava. Sem alternativas, após a morte do mestre, vendeu todos os bens deixados pelo velho e doou os lucros para a caridade, acumulando virtude para o falecido.
Quanto a si, acabou, por acaso, salvando Ye Jianwen, pai de Ye Qingling, e aceitou se tornar genro da família Ye, atingindo assim seu objetivo de sobreviver sem grandes pretensões.
...
Meia hora depois, Ye Qingling estacionou diante da mansão da família Ye. Quando se preparava para sair do carro, o telefone tocou dentro de sua bolsa. Após atender, ela se desculpou:
— Lu Chen, surgiu uma urgência na empresa. Você pode ir entrando, por favor.
— O trabalho é prioridade, vá tranquila.
Lu Chen já estava acostumado. Parecia que tanto sua esposa quanto o sogro estavam sempre ocupados, embora o desempenho da empresa deixasse a desejar.
Depois de ver o Volkswagen preto de Ye Qingling se afastar, Lu Chen abriu o portão e deparou-se com uma pequena mansão. O imóvel tinha pouco mais de duzentos metros quadrados, dividido em três andares: os sogros moravam no primeiro, Ye Qingling e a irmã, Ye Qingyun, no segundo, e ele ocupava o sótão do terceiro.
Ao procurar a chave para abrir a porta, Lu Chen percebeu, pelo canto do olho, um carro esportivo vermelho estacionado em frente à garagem — uma Ferrari de valor considerável cuja dona era sua cunhada, Ye Qingyun.
Ye Qingyun tinha apenas vinte anos, estudava na Universidade Central do Sul e morava geralmente no dormitório do campus. Nos raros momentos livres, saia para se divertir com os amigos. Em todo o ano de casamento com Ye Qingling, Lu Chen vira a cunhada não mais que uma ou duas vezes por mês.
No entanto, para ele, a presença ou ausência de Ye Qingyun em casa não fazia grande diferença, já que quase não tinham contato.
Aquela moça não se parecia em nada com o sogro, homem gentil, mas sim com a sogra: personalidade forte, temperamentada, nunca aceitava perder e era afiada nas palavras, sem poupar ninguém.
Em seus mais de dois anos de observação, Lu Chen concluiu que, se Ye Qingling era uma montanha de gelo impossível de derreter, Ye Qingyun era uma chama incandescente, que queimava constantemente e podia machucar quem tentasse se aproximar sem cuidado.