Capítulo 23: Passeando pela cidade
No ramo das antiguidades, a regra não escrita sempre foi a coexistência entre peças genuínas e falsas; tudo depende do olhar do comprador. Entre areia e ouro, há quem encontre fortuna, mas muitos acabam sendo enganados, perdendo dinheiro e enriquecendo os vendedores.
Por isso, seja aproveitando uma oportunidade ou sendo ludibriado, tudo se resume a um instante de decisão do comprador, tal como apostar em pedras preciosas: o jogo é de percepção e de emoção. Embora a visão de Ye Jianwen estivesse turva de tanto olhar, por várias vezes ele quis arriscar uma compra, mas o acordo prévio com seu genro, Lu Chen, era claro: só compraria se ele consentisse. Depois de uma volta pelo mercado, Ye Jianwen selecionou vários itens, porém o genro não aprovou nenhum, deixando-o momentaneamente frustrado.
Os dois continuaram passeando pela rua, sem nunca entrar nas lojas de antiguidades à margem. Ye Jianwen já tinha sofrido prejuízos nessas lojas, e Lu Chen sempre insistia para evitá-las.
— Pai, não adianta irmos nessas lojas — aconselhou Lu Chen com um sorriso. — Quem consegue manter um estabelecimento é geralmente um comerciante de grande capital, do tipo que passa três anos sem vender, mas quando vende, lucra para três anos. Além disso, noventa e nove por cento do que exibem são falsificações. Proprietários e atendentes adaptam a conversa ao perfil do cliente, e todos sabem como ludibriar. Se insistirmos, ainda se irritam. Melhor procurar oportunidades na rua do que perder tempo lá dentro.
— Está bem, vamos continuar nossa caminhada — concordou Ye Jianwen, recordando os prejuízos que teve em lojas do tipo, experiências que permaneciam vívidas em sua memória.
Mas, ao virarem para recomeçar o passeio, alguém agarrou discretamente a manga de Ye Jianwen, sussurrando:
— Senhor, tenho algo valioso. Não quer dar uma olhada?
Lu Chen virou-se e viu que o homem que abordara seu sogro era jovem, pouco mais de vinte anos, pele escura, corpo magro, e seu sorriso lembrava uma raposa cumprimentando uma galinha, nada confiável.
— Senhor, percebi que o senhor e este cavalheiro estão aqui há bastante tempo, analisando as peças com conhecimento. Imagino que seja um expert. Tem interesse em porcelanas? — O rapaz, com atitude familiar, aproximou-se de Ye Jianwen e continuou baixinho: — Que tal vir comigo? Tenho coisas de qualidade, inclusive uma autêntica cerâmica da dinastia Tang...
Lu Chen permaneceu sorrindo em silêncio. O rapaz, enquanto falava, girava os olhos com sagacidade, claramente astuto. Mas, já que estavam ociosos, não via mal em conferir. Quando o sogro lhe lançou um olhar de consulta, Lu Chen assentiu discretamente.
— Onde fica seu ponto? Se for fora desta rua, não iremos — disse Lu Chen, franzindo levemente o cenho e adotando um tom mais firme.
Naquela rua de antiguidades, havia gente de todo tipo e moral. Da última vez que acompanhou Ye Qingling para comprar um presente de aniversário para o patriarca, Ma Ling foi enganada ali mesmo, prova de que o local era perigoso.
— Fique tranquilo, meu ponto é no final da rua, vocês ainda não chegaram lá — respondeu o jovem, com sorriso lisonjeiro, indicando a extremidade menos movimentada da rua.
Após trocar olhares, Lu Chen e o sogro concordaram e seguiram o rapaz até o local. Durante o trajeto, ele se lamentou, dizendo que o fim da rua tinha pouco movimento, não sabia se por causa do feng shui ou outro motivo, e isso prejudicava os negócios, obrigando-o a buscar clientes no meio da rua.
— Ma, temos clientes! Traga aquela cerâmica Tang que recebemos há pouco, para o senhor e o cavalheiro apreciarem — gritou o rapaz ao se aproximar do ponto, dirigindo-se a um homem de meia-idade à frente.
O ponto do senhor Ma era como os demais: um pedaço de tecido vermelho de dois metros quadrados sobre o chão, exibindo moedas antigas, porcelanas e outros objetos. À primeira vista, pareciam peças antigas, mas Lu Chen não se interessou; eram todas falsificações, como nos outros pontos.
— Liu, já te disse que aquela peça está reservada, não viu que já guardei na caixa? Por que trouxe novos clientes para vê-la? — resmungou o senhor Ma, impaciente ao ver o grupo.
Lu Chen observava atentamente os detalhes: enquanto os dois conversavam, Liu piscava repetidamente, e Ma desviava o olhar para Lu Chen, ambos claramente uma dupla de trapaceiros.
Enquanto faziam sua encenação, três pessoas se aproximaram; um jovem corpulento exclamou:
— Ma, temos clientes! Mostre aquela peça especial para eles!
Lu Chen não pôde evitar um sorriso, pensando: “Ora, dois farsantes se encontraram.”
Liu e Ma ficaram surpresos, assim como o jovem corpulento, que não esperava tamanha coincidência. O clima ficou constrangedor, até que um senhor de mais de sessenta anos do novo grupo falou:
— Jianwen, você também está por aqui? Que coincidência!
— Que acaso, Song! Faz tempo que não nos vemos — respondeu Ye Jianwen, surpreso, ao reconhecer os conhecidos trazidos pelo outro farsante.
Lu Chen também olhou para eles; do outro lado, havia uma dupla semelhante, um idoso e um jovem. O idoso, pouco mais de sessenta, era magro, cabelos ralos e quase calvo. O jovem usava terno, era alto, cabelo bem penteado para trás, óculos de armação dourada, transmitindo uma impressão de inteligência e refinamento.
— Chen, deixe-me apresentar: este é Song Lin, seu tio Song, meu antigo parceiro. Este é Song Chengze, filho de Song Lin, um pouco mais velho que você; pode chamá-lo de irmão — explicou Ye Jianwen após algumas palavras de cortesia.
— Tio Song, irmão Song, prazer em conhecê-los — cumprimentou Lu Chen, educadamente.
— Jianwen, este é...? — perguntou Song Lin, observando Lu Chen com certa dúvida.
— Ele se chama Lu Chen, meu genro. Casou-se com Qingling no ano passado, hoje está me acompanhando no passeio por antiguidades — disse Ye Jianwen, dando um tapinha afetuoso no ombro de Lu Chen, demonstrando harmonia familiar.
Song Lin assentiu, reagindo normalmente, mas Song Chengze, ao lado, mudou repentinamente de expressão: de sorridente, tornou-se sombrio e fechado. Seu olhar para Lu Chen misturava inveja, ciúme, raiva e outros sentimentos complexos.
Lu Chen, sempre atento, percebeu imediatamente o desconforto de Song Chengze. Era a primeira vez que se encontravam, mas sentia como se tivesse se tornado um inimigo pessoal do outro.