Capítulo 79: A Bússola
Os antigos da Terra Central acreditavam que todas as pessoas possuíam um campo energético, mas esse campo não era fixo: era regulado pelo campo de energia do próprio universo. Se o campo energético de uma pessoa estivesse em harmonia com o do universo, então isso era auspicioso; caso contrário, se não houvesse sintonia entre ambos, seria sinal de infortúnio.
Assim, baseando-se em experiência e sabedoria, os antigos reuniram todas as informações que conseguiam captar dos diferentes níveis do universo—como as constelações do céu, os elementos representados pela teoria dos Cinco Movimentos na terra, os troncos celestiais e ramos terrestres—e reuniram tudo isso no instrumento chamado bússola.
Nas mãos de uma pessoa comum, uma bússola não passava de um objeto inerte, sem grande utilidade. Mas, nas mãos de um mestre do feng shui, essa bússola se tornava um instrumento de poder inimaginável.
A maioria dos mestres do feng shui treinava técnicas transmitidas por suas escolas, canalizando sua energia vital para dentro da bússola. Assim, por meio do movimento da agulha magnética, podiam determinar a direção ou o momento mais propício para determinada pessoa ou situação.
Caminhando pelo quarto, Lu Chen analisava as bússolas expostas. Já havia examinado mais de dez, mas nenhuma o agradava.
Uma bússola de qualidade, normalmente, era composta por três partes principais: a primeira era o "lago celestial", também chamado de "fundo do mar", que nada mais era do que a própria agulha magnética; a segunda era o disco interno, um círculo móvel logo ao redor da agulha; a terceira era o disco externo, de formato quadrado, que sustentava o disco interno. Em cada um dos pontos médios das quatro laterais do disco externo havia um pequeno orifício, por onde passava um fio vermelho, formando os chamados "Dez Caminhos do Coração Celestial", utilizados para leitura das informações no disco interno.
Contudo, as bússolas que Lu Chen analisara apresentavam toda sorte de defeitos: ou o lago celestial estava desalinhado, ou as inscrições do disco interno eram confusas, ou o disco externo estava frouxo. Resumindo, eram peças para enganar iniciantes.
— Senhor Yang, por acaso o senhor teria uma bússola de nível mais elevado? Não gostei muito dessas novas, sabe? — perguntou Lu Chen, lançando mais um olhar pelas prateleiras e percebendo que as peças expostas eram todas de baixa qualidade e sem utilidade real.
— Vejo que você entende do assunto, garoto. Infelizmente, as bússolas de melhor qualidade já viraram artigos de colecionador para gente rica. As que chegam ao mercado são raríssimas — suspirou o tio Yang, balançando a cabeça com resignação.
Lu Chen sorriu, compreendendo a situação. As bússolas de alto nível, em geral, eram consagradas por grandes mestres ao longo de muitos anos, adquirindo um campo energético especial, semelhante aos artefatos abençoados por monges budistas, e passavam a ter propriedades de proteção e afastamento do mal.
Essas virtudes transformavam a bússola de um simples instrumento de feng shui em objeto de coleção; útil ou não, muitos preferiam tê-la em casa como símbolo.
— Tio Yang, se não me engano, o senhor tem uma guardada, não tem? Por que não mostra ao senhor Lu? — sugeriu Chen Haoxuan, pouco interessado nos objetos da loja. Afinal, sabia que a maior parte do acervo era destinada a enganar iniciantes, tal como ocorria na loja de seu próprio pai, a Taihexuan.
— O senhor ainda tem mesmo uma bússola guardada, tio Yang? — perguntou Lu Chen, interessado. Considerando que o tio Yang era comerciante especializado em instrumentos de feng shui, era provável que sua peça de coleção fosse, de fato, um artefato de alto nível.
— Não é que eu não queira mostrar, mas aquela bússola tem uma quina quebrada. Está claramente defeituosa, um objeto quase inútil — explicou o tio Yang, abrindo as mãos em gesto de impotência.
Chen Haoxuan, que gostara de Lu Chen, insistiu:
— Mostre para nós, tio! Seria uma ótima oportunidade para nós, mais jovens, aprendermos algo novo.
Diante do pedido dos dois, o tio Yang acabou concordando. Entrou em outro cômodo e retornou com um objeto embrulhado em seda vermelha. Ao remover o tecido, revelou-se uma bússola antiga, de aparência austera.
Ao vê-la, os olhos de Lu Chen brilharam por um instante, mas logo ele retomou a expressão habitual.
A bússola que o tio Yang guardava media cerca de trinta centímetros de lado, com tonalidade levemente amarelada, transmitindo a sensação do tempo acumulado e uma harmonia peculiar. O único defeito era, como dito, a ausência de uma quina, o que lhe dava um aspecto estranho.
— O que acha dessa bússola, Lu Chen? — perguntou Fang Yingling, achando-a velha demais e sem graça, de aparência ultrapassada.
— É um excelente objeto — respondeu Lu Chen, passando a mão pela superfície e dizendo com voz grave: — O material dela parece ser o raro "madeira de osso de tigre", também chamada de "madeira de sabão branca". Por crescer lentamente, muitas árvores dessa espécie eram cortadas para lenha antes de atingirem o tamanho ideal, por isso o povo local a chama de "lenha de osso de tigre". Embora difícil de encontrar, sua textura brilhante, veios retos, estrutura fina, resistência à deformação e à corrosão fazem dela uma madeira preciosa, típica das montanhas Huangshan, considerada o melhor material para fabricar bússolas.
O tio Yang se surpreendeu com a explicação e, após analisar Lu Chen mais atentamente, elogiou:
— Não esperava que você, tão jovem, entendesse tanto do assunto. Posso saber qual é o mestre de feng shui que o instruiu?
— Sou autodidata, aprendi só de ler alguns livros por aí — respondeu Lu Chen com um sorriso modesto.
Tendo negociado por tantos anos, o tio Yang era experiente o bastante para perceber que Lu Chen não queria revelar mais detalhes, e não insistiu.
— Eu gostei desta aqui — disse Fang Yingling, segurando uma bússola que encontrara por ali —, parece feita de madeira de jacarandá. Por que não levamos esta?
— Não serve. As de jacarandá são para enganar principiantes — retrucou Lu Chen, após um rápido olhar.
— Por que não serve? — insistiu Fang Yingling, contrariada. A bússola em suas mãos parecia muito superior, tanto em material quanto em aparência, àquela velha e lascada. Como poderia ser rejeitada por Lu Chen?
Chen Haoxuan, Qi Jun e o senhor Mo também aguardavam, curiosos pela explicação.
Sorrindo, Lu Chen esclareceu:
— O jacarandá não é adequado para fabricar bússolas. O valor da madeira não tem relação com a eficiência do instrumento. O primeiro requisito para o material é isolar radiação, e o jacarandá não é eficiente nisso, o que deixa a agulha instável.
— Geralmente, as bússolas feitas de madeiras caras têm seus caracteres — direções, troncos celestiais e ramos terrestres — gravados, não escritos à mão como nos verdadeiros artefatos. Esculpir à mão ou à máquina é simplesmente uma estratégia comercial, mas prejudica a funcionalidade e, mais importante, elimina o valor de coleção.
— O material ideal para bússolas precisa ser estável, com madeira que combine rigidez e flexibilidade, quanto mais próxima da textura de papel de arroz, melhor. Por exemplo, a madeira de osso de tigre que mencionei. Ao escrever com tinta, a absorção ocorre de cima para baixo. Já madeiras como jacarandá, sândalo, pau-rosa, absorvem lateralmente, ou às vezes nem absorvem; quando se termina de escrever, o caractere já virou só uma mancha preta...