Volume Um Capítulo 98 Não Haverá Justiça
— Neste mundo, jamais existiu justiça, e tampouco haverá igualdade...
Depois disso, Er completou:
— Por isso, só nos resta levar a vida como der, assim a dor será menor.
— Eis o destino humano...
Os olhos de Sun Boyong tornaram-se lentamente vermelhos de sangue. Envolto por uma luz amarela pálida e infinita, ele retirou uma seringa repleta de um líquido negro como breu.
A voz de Er soou subitamente em sua mente:
— Sun Boyong, não seja imprudente. Depois de injetar isso...
Antes que Er terminasse, Sun Boyong usou sua força mental para bloquear todos os sons.
— Viver se arrastando, conformar-se... tudo isso é besteira — murmurou Sun Boyong, tomado pela loucura. De repente, rasgou o terno já em farrapos e expôs o tórax largo e musculoso.
A pele bronzeada transbordava vigor masculino; seus abdominais, perfeitamente delineados, mais pareciam uma obra de arte.
Contudo, sobre o lado esquerdo do peito, uma rede densa de vasos capilares saltava à vista, como se envolvesse seu coração sob uma teia de sangue.
Tum... tum...
Em meio ao silêncio, ainda se podia ouvir o pulsar pesado do coração.
Sun Boyong virou a mão, apontando a ponta ensanguentada da lança para o músculo peitoral esquerdo, que batia lentamente.
Então, cravou-a de súbito!
A ponta penetrou meia polegada na carne; o sangue jorrou como uma fonte, tingindo de vermelho o solo rochoso e árido.
Quando abriu no peito esquerdo um corte de uns dez centímetros, Sun Boyong enfiou os dedos na ferida e, lentamente, afastou a carne, expondo as costelas e... o coração ainda pulsando!
Seu rosto belo e másculo encheu-se de um fervor insano. Apertando com força a seringa de líquido negro, cravou-a no coração protegido pelas costelas.
Um som cortante ecoou ao rasgar o órgão, causando arrepios em qualquer ouvinte.
Mas, para Sun Boyong, era a melodia mais fascinante do mundo.
Seu rosto se contorceu de dor extrema, mas a mão direita não hesitou em pressionar o êmbolo.
O líquido negro foi lentamente injetado no coração; os vasos e o sangue bombeado escureceram até a cor da tinta.
— Aaah... — Um urro de agonia, quase inumano, perdeu-se no estrondo causado pelo canhão de trilho eletromagnético.
...
Do lado de fora da luz, Kong Yi jazia com metade do corpo pendendo para dentro do desfiladeiro, o braço direito caído, sem forças, ao lado do corpo.
— Huff... huff... — O som de sua respiração pesada assemelhava-se ao de um fole velho, surgindo com dificuldade.
Tentou apoiar-se com a mão direita, mas a dor, profunda até os ossos, explodiu de imediato.
Seu rosto se retorceu, feroz; gotas de suor brotaram de sua testa como grãos de arroz.
Só depois de alguns segundos conseguiu recompor-se, erguendo-se com esforço, apoiando a cabeça no chão.
Então, fitou a luz ofuscante ao longe.
Seu olhar percorreu o solo repleto de pedras quebradas, detendo-se principalmente onde estava o Rei Cadáver.
A camada de rocha, com três centímetros de espessura, fora reduzida a pó pelo disparo do canhão.
Ao menor sopro do vento, a poeira se erguia em nuvens sussurrantes.
A luz amarela pálida foi se dissipando; Kong Yi fixou o olhar à frente, o visor que cobria o olho esquerdo ajustou o foco rapidamente.
Entre sombras, uma figura seca e decrépita deu dois passos trôpegos e caiu ao chão.
Porém, não demorou até levantar-se de novo e continuar a caminhar, saindo do mar de luz.
O som desordenado de seus passos sobre as pedras quebrou o silêncio e se espalhou aos quatro ventos.
— Hehe, se não fosse... o Preceito de Evitar Perigos, este corpo... este corpo teria sido destruído por você de fato.
As pupilas de Kong Yi se contraíram; ele prendeu o olhar na figura, enquanto a dor no braço direito quase o sufocava.
Após um longo momento, o Rei Cadáver emergiu, caminhando lentamente, o lado esquerdo do corpo quase todo destruído.
O coração apodrecido e escurecido, junto ao pulmão, estavam completamente expostos ao ar, movendo-se vagarosamente.
A carne palpitava a olhos vistos; o peito esquerdo do Rei Cadáver ostentava uma abertura do tamanho de uma tigela, feita pelo canhão, e o ombro esquerdo estava quase pulverizado.
Os ossos brancos e afiados perfuravam os músculos, as costelas estavam ausentes, mas pulmão e coração permaneciam intactos, pulsando ritmados.
Os ossos partidos envolviam os vasos sanguíneos; todo o lado esquerdo do corpo estava sem pelos, o rosto manchado e disforme, com dentes e maxilar à mostra.
— Preceito de Evitar Perigos... — Kong Yi inspirou fundo, a dor aguda no braço fazia o suor frio escorrer, o rosto contorcido em espasmos.
A armadura eletromagnética do braço estava encharcada de sangue, tingida de vermelho intenso. Kong Yi encarava o Rei Cadáver em alerta, a expressão carregada de tensão.
O Rei Cadáver era uma criatura mutante de categoria G, do tipo morto-vivo, com poderosíssima capacidade de regeneração.
Apesar do estado deplorável, tais ferimentos afetavam apenas parte de seu poder de combate — não eram fatais.
Mesmo que o corpo fosse destruído, com mais de duzentos pontos de força mental, o Rei Cadáver poderia sobreviver em forma de espírito primordial.
Enquanto o núcleo do corpo não fosse destruído, sob certo aspecto, o Rei Cadáver era imortal.
Cada criatura possui seu próprio modo de sobrevivência, e seus pontos fracos variam.
No passado, durante a catástrofe, por desconhecimento dessas características, a humanidade foi surpreendida e massacrada.
Tomemos por exemplo os zumbis: segundo os velhos filmes ocidentais, bastaria destruir a cabeça para eliminá-los.
Mas, nos zumbis da catástrofe, o órgão fatal era o núcleo atrás da cabeça. Mesmo que a parte superior do crânio fosse esmagada, isso não os afetava.
No máximo, ficavam com a visão prejudicada, tornando-se moscas sem cabeça.
O Rei Cadáver, com o lado esquerdo do corpo carbonizado, mancou para fora do mar de luz amarela diluída.
De repente, parou bruscamente, todos os movimentos cessando de uma vez.
As pupilas de Kong Yi se contraíram — no instante seguinte, o Rei Cadáver já estava à sua frente.
Com o punho esquerdo, reduzido a ossos, apertado, a energia vital do corpo convergiu em pontos luminosos, reunindo-se no punho, que então desceu violentamente sobre Kong Yi.
Ele tentou bloquear com o braço, mas a dor lancinante o fez hesitar; nesse momento, o punho do Rei Cadáver já o atingira.
BAM!
Kong Yi voou para trás como uma bala de canhão, sendo lançado no meio da horda de zumbis.
Só parou após destruir dezenas deles, deslizando pelo chão até parar de raspão.
Choveu sangue em torrentes, as vísceras formavam montanhas de matéria pegajosa.
— Venha, espada! — bradou o Rei Cadáver, mas, com as cordas vocais gravemente danificadas, sua voz soou rouca e sem vigor.
Kong Yi, em pensamento, ainda conseguiu fazer uma piada amarga, enquanto, suportando a dor, retirava a armadura eletromagnética do braço direito.
— Huff... huff... — A dor desumana era tamanha que apenas remover a armadura quase esgotou suas forças.
Ao mesmo tempo, o Rei Cadáver ergueu a mão esquelética no ar; a carne e o sangue empilhados no chão explodiram em pó, misturando-se e formando uma espada carmesim, que flutuou no ar.
Ele avançou rapidamente em três longos passos, como um relâmpago cortando o céu noturno, disparando direto na direção de Kong Yi.
No caminho, agarrou a espada de sangue, arrastando faíscas pelo solo rochoso, e a cravou violentamente contra Kong Yi, que ainda removia a armadura.
— Com o coração, comando a espada; corto tudo que existe... — Uma voz suave soou, e uma energia azulada em forma de espada surgiu no ar, bloqueando a lâmina rubra do Rei Cadáver.