Volume Um Capítulo 92 Memórias
Zhao avançava passo a passo, enfrentando cada morto-vivo, lutando com o próprio corpo como arma. O sangue que jorrava de sua boca já tingira de vermelho sua camisa.
Yi estava cercada por uma massa de mortos-vivos, impedindo seu caminho. Sua figura pequena a deixava em desvantagem, e ela se viu temporariamente presa no lugar.
Através das frestas entre os monstros, Yi viu o feixe de luz tornar-se vermelho-sangue; naquele instante, emoções claras explodiram em seus olhos.
Deixavam de ser sentimentos indistintos e indefinidos…
Eram tristeza e fúria.
Entre a horda, Fang Yuyao cambaleou dois passos, seu rosto delicado pálido como a morte. Parecia ter perdido a alma, transformando-se numa marionete sem vida, parada e atônita, olhando fixamente para o feixe rubro.
Deixou-se ser engolida pelos mortos-vivos avassaladores.
Um lampejo cortou o céu noturno; Zhou Yixin, com os dentes cerrados, rasgou a multidão de monstros, protegendo Fang Yuyao atrás de si.
Seu belo rosto, normalmente cativante, estava agora assustadoramente pálido, mas ela não recuou nem um passo para defender aquela garota que tanto desprezava.
— Irmão Kong! — Chu Fan rugiu de raiva, a cicatriz em seu rosto contorcendo-se como um centopeia. Seu semblante era feroz enquanto vociferava: — Maldito! Hoje vou te despedaçar, seu bastardo!
Zhong Tanfa mantinha-se silencioso, o rosto belo e sombrio como água. Dirigia uma onda de energia azul-celeste da espada para o local.
Diferente dos outros, sua força mental era superior, permitindo sentir com clareza que o vigor de Kong Yi estava desaparecendo pouco a pouco.
— Não deveria ser assim… Previ que o irmão Kong era abençoado com muita sorte — murmurava o jovem sacerdote, nervoso, enquanto exterminava monstros.
— Ha… fúria impotente — Sun Boyong pisava sobre o feixe de luz vermelho-sangue, identificando rapidamente a posição da cabeça. Sussurrou: — Neste mundo imundo, somos todos miseráveis. Mas eu quero sobreviver, custe o que custar.
— Seja servindo como cão ou abandonando minha bondade, posso fazer qualquer coisa…
De repente, ele contraiu o braço, uma força aterradora irrompeu, os músculos saltaram sob a pele fina, prestes a rasgar.
— Kong, lembre-se: numa próxima vida, se quiser viver melhor, tem que ser mais sujo do que este mundo…
Ao terminar, Sun Boyong descarregou todo o poder em seu punho e golpeou com força.
— Kong!
— Irmão Kong!
— Kong Yi…
Os rostos de todos ficaram instantaneamente pálidos.
Os olhos de Yi transformaram-se em pupilas vermelhas e verticais, fissuras negras e profundas cobriram novamente seu corpo delicado.
Um frio cortante irrompeu…
Num piscar de olhos, o punho de Sun Boyong rompeu o ar e desceu impiedoso.
O soco atingiu em cheio o feixe de luz, a onda de poder dispersando os mortos-vivos ao redor.
— Rei dos mortos, o corpo de Kong Yi está cheio de vitalidade, um excelente alimento. Vou cobrar o favor depois — Sun Boyong olhou para o distante cânion e sorriu.
— Hehe… — uma risada rouca e desdenhosa ecoou. O Rei dos Mortos, sentado, abriu os olhos lentamente e zombou: — Garoto, para negociar, precisa de força suficiente.
O sorriso de Sun Boyong foi desaparecendo; ele perguntou friamente: — O quê, pretende quebrar o acordo?
O Rei dos Mortos não respondeu, apenas voltou-se para o feixe de luz.
— Nunca imaginei que o poder das estrelas pudesse reaparecer no mundo — murmurou, surpreso. — Jovem, se aceitar se submeter, posso conduzi-lo ao paraíso supremo.
As palavras do Rei dos Mortos congelaram o ambiente.
Chu Fan e os demais ficaram confusos por um momento, mas logo seus olhos brilharam intensamente.
A frieza nos olhos de Sun Boyong também se petrificou; ele olhou para o feixe de luz, punho ainda pousado sobre ele, mas uma força irresistível começou a empurrá-lo para cima.
Ao mesmo tempo, uma voz sarcástica soou nos ouvidos de todos:
— Velho desgraçado, se quer ir ao paraíso, não é difícil. Daqui a pouco eu mesmo te envio para o além.
No instante em que a voz ecoou, o feixe de luz rubro rachou em pedaços, fragmentos brilhantes voaram, cortando a noite.
A silhueta esguia de Kong Yi apareceu; com uma mão, segurava o punho de Sun Boyong, e seu corpo emitia um brilho azul radiante.
— Como é possível? — Sun Boyong exclamou incrédulo, a voz aguda.
Kong Yi não respondeu; apertou o punho, sentindo a força despertar como um vulcão, o poder das estrelas fluindo como um rio interminável.
— Já lutaram bastante. Agora, é minha vez de revidar…
Kong Yi sorriu, dentes brancos reluzindo, olhos com uma leve intenção assassina, mas seu aura era discreta, como um homem comum sem força.
Talvez por isso mesmo Sun Boyong sentiu medo.
Encarando Kong Yi por alguns segundos, Sun Boyong percebeu algo estranho e tentou recuar, mas um sibilo cortante soou atrás dele.
Ao mesmo tempo, a imagem de "Kong Yi" diante de si tornou-se etérea e desapareceu.
— Uma sombra! — Sun Boyong arregalou os olhos.
Antes que pudesse reagir, Kong Yi apareceu atrás dele, o punho carregado com o poder das estrelas e desferiu um golpe explosivo.
Bang!
O som surdo reverberou, causando calafrios.
Sun Boyong foi arremessado como um saco de areia rompido, voando em direção à horda de mortos-vivos ao longe.
No instante seguinte, uma chuva de sangue caiu sobre todos.
— Hahaha… Eu sabia! Irmão Kong nunca morreria tão fácil! — Chu Fan gargalhou, radiante.
Yan Ningzhi, vingando-se dos insultos anteriores, riu: — Você… fala, fala… besteira…
You Wen aproveitou para provocar: — Quando vimos Kong em perigo, foi você quem gritou mais alto.
Desmascarado pelos dois, Chu Fan ficou sem graça; incapaz de enfrentar You Wen, descontou em Yan Ningzhi, despejando insultos no colega gago.
Enquanto ele implicava com os mais quietos, o líder dos Lobos não ficava atrás.
Zhou Yixin, olhos de cerejeira brilhando, o rosto encantador recuperou o espírito. Ela sorriu e provocou: — Yi, como convenceu Fang? Ela quase morreu por você agora há pouco.
— Aff! — Fang Yuyao ficou vermelha, cuspindo palavras de protesto.
— Haha, Kong, você tem sorte com as mulheres. Não só Fang, até Zhou ficou arrasada por você — Zhao Ninghefei comemorava, mas não perdia a chance de se intrometer.
— Zhao!
— Gordo imbecil!
— Uh… — Sentindo os olhares furiosos e envergonhados, Zhao Ninghefei logo se calou para continuar matando monstros.
O jovem sacerdote, enquanto comandava sua espada azul-celeste, soltou um suspiro e riu: — Irmão Kong é mesmo abençoado pelos céus.
Yi, escondida entre o grupo, exalava um frio intenso. Inclinou a cabeça, pensou por um instante, as fissuras em seu corpo sumiram e as pupilas vermelhas voltaram ao normal.
— Ué? Por que estou aqui… — Yi, voltando ao normal, perdeu a intenção assassina e ficou apenas confusa.
Parecia ter perdido parte da memória, franzindo a testa para recordar.
…
Vendo a reação de todos, Kong Yi sentiu-se profundamente tocado.
De repente, lembrou-se de sua vida passada: sozinho, compreendendo a fundo a alma humana e as tramas, dia após dia guardando a cidade subterrânea.
Comparando, preferia esta vida.
Pensando nisso, Kong Yi flexionou as pernas e, num instante, apareceu cem metros adiante.