Volume Um Capítulo 67 Setenta Por Cento da Força de Combate
— Lembro-me de que ontem a senhorita Zhou mencionou saber um pouco de medicina e até te convidou para ir ao quarto tratar de feridas externas.
As pálpebras de Kong Yi estremeceram de maneira nervosa; ele mal começara a explicar quando ouviu Zhou Yixin, com voz tímida, dizer:
— Senhorita Fang, não é como você imagina...
Aquele gesto de hesitação, de querer falar e calar, fez Kong Yi cair em desespero imediato. Olhou para Zhong Tanfa, o olhar cheio de mágoa.
Mestre, você não é conhecido por seus conselhos sábios e discretos? Por que não me ajuda?
Zhong Tanfa, impassível, concentrava-se em comandar a energia da espada azulada para exterminar as aranhas, aparentando não perceber o olhar de Kong Yi.
Os três, Zhao Ninghe e os irmãos Lang, também mantinham uma postura indiferente, como se aquilo não lhes dissesse respeito.
O desespero se espalhou no íntimo de Kong Yi, que soltou um suspiro e tentou explicar:
— Yunyao, não pense besteira. Ontem à noite, eu estava treinando nos campos atrás do acampamento. Deve haver câmeras no hotel; quando descermos, você pode verificar.
Por tratar-se do Corpo Imortal dos Milênios, Kong Yi foi econômico nas explicações.
— É verdade? — Fang Yunyao perguntou, desconfiada, embora a fúria em seus olhos já tivesse se dissipado um pouco.
— Sim... — Kong Yi assentiu prontamente, com postura conciliadora.
Zhou Yixin ainda encenava dramaticamente; seus olhos de primavera brilhavam com lágrimas, cobertos por uma névoa sutil.
— Yi, como pode ser tão cruel? E os votos que fizemos sob o mar e as montanhas ontem à noite...
Antes que terminasse, Zhong Tanfa interrompeu, com voz grave:
— Espere...
Nesse momento, a bússola presa ao cinto do jovem sacerdote vibrava intensamente, como se fosse dotada de vida.
Ao ver isso, Kong Yi contraiu as pupilas, erguendo o olhar assustado, mas não avistou outro feixe de energia límpida.
Zhong Tanfa retirou a bússola do cinto; no centro de seu disco de bronze, a agulha girava com frenesi.
Ele olhou além do dossel das árvores, na direção do feixe de energia, e tocou ritmicamente os dedos.
Por fim, ergueu o rosto, a expressão tomada de incredulidade.
— Como pode ser... Isso é impossível... — A voz de Zhong Tanfa tornou-se aguda.
Sem se importar com Kong Yi e os demais, lançou-se à frente, os passos apressados e trôpegos.
Os outros hesitaram, mas reagiram logo e seguiram o ritmo de Zhong Tanfa.
Correram quilômetros até que o jovem sacerdote parou, com Kong Yi chegando quase ao mesmo tempo.
Depois vieram Yi, Zhou Yixin, Fang Yunyao e os irmãos Lang...
Quando Zhao Ninghe finalmente chegou, já ofegava exausto, enxugando o suor da testa, com as roupas encharcadas.
— Vocês não podiam ao menos pensar em mim antes de sair correndo por trilhas? — resmungou internamente.
Atravessando a fresta entre as árvores, sob a luz tênue das estrelas, viu o solo cinzento do lado de fora e um pequeno prédio de cinco andares.
Uma brisa fria passou pela roupa molhada de suor, e Zhao Ninghe estremeceu.
— Isso... isso é...
Kong Yi prendeu a respiração, os olhos tomados por emoções indecifráveis.
Amargura, confusão... Com voz áspera, disse:
— Sim, voltamos.
— Aqui é... o acampamento!
Ao ver aquele lugar tão familiar, todos foram tomados por uma sensação de absurdo.
— Por quê? — Zhou Yixin, pálida, com os olhos cheios de terror.
Ela se lembrava que, após saírem do Parque de Xishan, seguiram sempre na mesma direção.
Mas agora, o acampamento estava diante deles, como um anel de Möbius, onde se encontravam presos num ciclo sem fim.
Kong Yi caminhou em silêncio para fora da floresta; eram apenas algumas centenas de metros, mas pareciam infinitos.
O terreno em frente ao acampamento ainda estava manchado de sangue, seco e escurecido.
— Isso... — Kong Yi hesitou, virando-se abruptamente para olhar o campo e o pátio atrás do hotel.
Ele lembrava claramente que, ao acordar pela manhã, os caçadores de mortos-vivos recolheram os corpos destruídos e os empilharam nas fossas ao redor do acampamento.
O plano era, ao fim da jornada pelo Xishan, levar os corpos para um enterro digno.
Mas agora, todos os corpos, de caçadores e mortos-vivos, haviam desaparecido sem deixar vestígios.
Deixando Zhong Tanfa e os outros, correu sozinho até a fossa.
— Como eu temia... — Kong Yi contraiu as pupilas ao ver o buraco vazio, o ar impregnado de um leve cheiro de sangue.
Olhou de volta para o acampamento, observando as frestas entre as lajotas e os degraus, sem sinal de qualquer resto de carne.
Até as manchas de sangue no chão pareciam ter se desvanecido.
O horror tomou conta de Kong Yi; suor frio escorria da testa e a pele se cobriu de arrepios.
Algo não está certo... Nem mesmo animais selvagens ou criaturas mutantes seriam capazes de devorar quase cem corpos por completo.
E nem um pequeno pedaço foi deixado.
Ele voltou-se para os demais, que já haviam chegado, e falou sério:
— Por favor, verifiquem o hotel e as lojas. Procurem por corpos de mortos-vivos ou caçadores.
— Certo... — Apesar de não entenderem o motivo, o olhar de Kong Yi bastava para perceber que algo grave havia ocorrido.
Meia hora depois, todos retornaram.
Pelas informações que trouxeram, o acampamento parecia um túmulo vazio; os corpos, quase cem, haviam evaporado sem alarde.
— Kong, por que nos fez investigar tudo isso? — Zhao Ninghe, ainda sem entender, perguntou, confuso.
Zhong Tanfa lançou um olhar sombrio para a fossa; já compreendia o que Kong Yi pensava.
Após alguns instantes, perguntou:
— Animais selvagens... criaturas mutantes? Ou alguém veio remover os corpos?
Kong Yi balançou a cabeça, indicando que nenhuma das opções era válida.
Os outros, diante do enigma, perceberam que havia algo mais.
— Kong... se não há jeito, vamos descer a montanha — Zhao Ninghe estava pálido, engoliu em seco, o medo transbordando no olhar.
— Ai... — Por fim, Kong Yi suspirou, sorrindo amargamente — Mesmo que descermos, é provável que voltemos aqui.
Naquele instante, recordou o presságio de Zhong Tanfa: grande desgraça, morte certa.
Com a atmosfera cada vez mais sufocante, Zhong Tanfa ergueu a antiga espada e, em silêncio, gravou caracteres obscuros no chão com a energia da lâmina.
— Kong, daqui a pouco vou projetar meu espírito para observar a disposição do Xishan e o relevo do alto.
Ele parou por um momento, o rosto severo:
— Mas há riscos. E minha energia será reduzida; na próxima batalha, só poderei usar setenta por cento do meu poder.
Kong Yi olhou para ele e perguntou:
— Qual o pior cenário que você prevê?
Zhong Tanfa voltou ao tom habitual, desenhando o círculo mágico com indiferença:
— Fragmentação do espírito, perda da razão; no pior caso, tornar-me um morto-vivo.
Kong Yi quis dissuadi-lo, mas a solução proposta era a única viável.
Talvez percebendo a preocupação, o jovem sacerdote sorriu levemente, sentando-se entre os caracteres, rodeado por energia límpida e intensa.