Volume I Capítulo 8 Pressentimento Sinistro
Com o coração parcialmente aliviado, Kong Yi pegou o copo de vidro e observou a semente mergulhada na cerveja. Já se passara meia hora, e a semente permanecia imóvel, fazendo com que um pressentimento sombrio surgisse em seu peito.
— Sistema, escaneie.
Um som metálico ressoou.
— Tipo: Semente da família das Solanáceas
Nome do cultivo: Batata mutante
Estado: Morta
Causa da morte: Teor alcoólico excessivo no líquido de cultivo.
Kong Yi suspirou, sentindo-se um pouco desanimado. O sistema concedia sementes de plantas aleatórias, e há milhares de tipos de sementes no mundo; a chance de obter uma Dionaea, a famosa armadilha para insetos, era de uma em dez mil, pelo menos. Ainda assim, ele continuou jogando sementes na cerveja, na esperança de que aquela também fosse uma Dionaea. Além disso, queria descobrir se o fato de a Dionaea sobreviver à cerveja gelada era uma coincidência ou algo inevitável.
Agora, ao olhar para a semente de batata morta e fria, encontrou sua resposta. Das duas sementes, uma estava viva, a outra morta; com a catástrofe prestes a chegar e sem entender completamente o sistema de tarefas, ficou claro que lhe faltavam fontes futuras de sementes.
A Dionaea, ainda em sua forma juvenil, já era capaz de secretar veneno capaz de paralisar criaturas mutantes de grau G. Essa semente de batata mutante provavelmente também não era comum; talvez a batata cultivada a partir dela tivesse outros efeitos especiais.
Em tempos de calamidade, apenas três tipos de recursos são verdadeiramente essenciais: remédios, armas e comida. As aparentemente inúteis sementes de plantas aleatórias poderiam, na verdade, resolver facilmente essas três necessidades. Alimentos e ervas medicinais dispensam explicação, mas até mesmo armas poderiam ser obtidas por meio de plantas cultivadas.
Como, por exemplo, a Dionaea. E ainda há outras plantas que podem servir de armas, como a flor carnívora e o cacto, entre tantas outras... Se ao menos pudesse conseguir um pouco de lançador de ervilhas ou nozes, seria como se a guerra das plantas contra os mortos-vivos não fosse apenas um sonho.
Kong Yi riu sozinho.
Depois de um breve devaneio, ele se aproximou de Fang Yuyao e olhou para o termômetro.
— Trinta e seis vírgula cinco. — murmurou Kong Yi, aliviado. — Está basicamente normal.
Se não fosse necessário, ele preferia não ir à delegacia para comer e beber de graça; afinal, o país não estava em bons tempos, e ele não queria tirar proveito do socialismo.
— Escaneie Fang Yuyao...
Outro som metálico ecoou.
— Fang Yuyao, mulher
Força: 46
Agilidade: 49
Vitalidade: 120% (valor máximo: 100%)
...
Anticorpo natural oculto, status: ativado.
Nível do anticorpo: Classe B.
Ao ler o final, Kong Yi ficou completamente atordoado. O que era aquilo?
— Sistema, o que são anticorpos naturais ocultos? — perguntou, fixando o olhar no final da informação.
— O corpo humano possui alguns anticorpos naturais desde o nascimento, como os anticorpos anti-A e anti-B do sistema sanguíneo ABO.
— Os anticorpos naturais ocultos são aqueles presentes nos genes humanos, mas ainda não ativados devido ao estágio evolutivo insuficiente.
Kong Yi compreendeu, mas insistiu:
— E os anticorpos ocultos ativados por Fang Yuyao? Qual é a sua função, e o que significa ser classe B?
O sistema não respondeu por voz, mas organizou as informações em uma tabela que apareceu diante dos olhos de Kong Yi.
— Tipo: Anticorpo genético
Função: Prevenção eficaz e bloqueio do vírus da catástrofe e dos vírus presentes em organismos mutantes. (Imunidade máxima: vírus de criaturas mutantes de classe B)
— Nota: Classe B é o limite máximo de bloqueio viral.
— Isso... — Kong Yi ficou perplexo, tomado pela inveja.
Depois de ser mordida pela Dionaea, Fang Yuyao não apenas saiu ilesa, como ainda ativou um anticorpo natural absurdamente poderoso. Droga, era o famoso “fator de sorte dos deuses”?
Naquele instante, Kong Yi quase teve vontade de estender a mão para a Dionaea e pedir que ela o mordesse também.
O sistema voltou a soar.
— Hospedeiro, de acordo com a análise, quando a Dionaea mordeu Fang Yuyao, o teor alcoólico no corpo dela era de 42%. Isso fez com que a concentração do veneno na planta estivesse no nível mais baixo, ideal para despertar o anticorpo natural de Fang Yuyao.
— Contudo, cada pessoa tolera uma concentração diferente de veneno, e a proporção capaz de despertar anticorpos varia.
— Se a proporção não for correta, podem surgir efeitos colaterais, como redução da sensibilidade de certos nervos.
Kong Yi estremeceu, descartando a ideia de ser mordido.
Suspeitava profundamente que o maldito sistema estivesse dizendo tudo aquilo apenas para impedi-lo de ativar o anticorpo.
— Difamar o sistema: menos 10 pontos de experiência.
— Insultar o sistema: menos 20 pontos de experiência.
Droga, você só pensa nisso!
Kong Yi entrou em desespero. Aquele sistema falhava ao avisar sobre perigos, só reagia depois que o problema surgia, mas era muito eficiente ao descontar pontos de experiência.
Com o coração cheio de indignação, Kong Yi sentou-se no chão, frustrado, e começou a pensar em como obter mais tarefas.
Anteriormente, ele desmontou quase cem celulares, trabalhando até a exaustão, para conseguir míseros 300 pontos de experiência. Comparado a isso, ganhar experiência realizando tarefas parecia ser muito mais simples e direto.
— Ah... Kong Yi, seu canalha!
De repente, uma voz feminina cheia de raiva soou às suas costas, fazendo sua cabeça girar como se tivesse sido atingido.
E então... ele foi lançado para longe.
Atrás dele, Fang Yuyao estava confusa: como sua força de repente se tornara tão assustadora? Ao recobrar a consciência, viu-se com as roupas desarrumadas, a manga erguida até o ombro, e pensou que Kong Yi tinha se aproveitado dela. Furiosa, deu um tapa nas costas dele.
Para sua surpresa, Kong Yi foi arremessado pelo golpe.
— Cof... — Kong Yi rolou pelo chão, quebrando a prateleira na parede, com poeira caindo sobre ele.
— Você realmente não teve dó. — disse ele, entre risos e lágrimas, diante daquela desgraça inesperada.
— De... desculpe. — Fang Yuyao pediu perdão, gaguejando.
Mas, de repente, lembrou-se de que Kong Yi havia tentado se aproveitar dela, e, com o rosto corado, retrucou:
— Canalha! Quem deveria se desculpar é você.
Kong Yi, vendo o jeito tímido dela e o gesto de abraçar o peito, de repente compreendeu o mal-entendido.
Constrangido, aproximou-se, pegou a seringa sobre a mesa e explicou:
— Não me entenda mal, ergui sua manga para aplicar a injeção, só isso.
Fang Yuyao, instintivamente, tocou o braço esquerdo, sentindo ainda um leve incômodo onde fora aplicada a agulha.
Era isso, então. Fang Yuyao suspirou aliviada, olhou para Kong Yi coberto de poeira e para o almoço espalhado ao lado dele, sentindo-se um pouco culpada.
— Você ainda não almoçou? — perguntou em voz baixa.
Kong Yi respondeu mal-humorado:
— Como teria tempo para comer? Passei todo o meio-dia cuidando de você. Quem imaginaria que você iria mexer com a Dionaea?
— Eu estava curiosa... — murmurou Fang Yuyao. — Essa Dionaea é muito estranha, ela ruge e tem raízes longas.
— Chega, não vamos falar disso. É hora de comer.
Os dois deixaram a garagem e seguiram direto para um restaurante fora do condomínio.
Era duas da tarde, muitos restaurantes já haviam fechado; só depois de caminhar duas ruas encontraram um pequeno restaurante aberto numa viela.
Sentados do lado de fora, no meio de águas sujas, Kong Yi devorava o prato de comida. Fang Yuyao, abraçada a um copo de chá com leite, sentou-se de frente; ela já havia almoçado, não estava com fome.
— Kong Yi, que medicamento você usou para me salvar ao meio-dia? Por que melhora a força e as condições físicas?