Volume I Capítulo 3 Sem Qualquer Emoção
A voz do sistema permanecia fria, sem qualquer emoção. Ao ouvir aquelas notificações, Kong Yi respirou fundo, como se estivesse tendo um último lampejo de lucidez.
— Droga, seu maldito, eu me mato de trabalhar pra subir de nível, e você já quer arrumar outro dono antes mesmo de eu morrer?
— Insulto ao sistema, menos vinte pontos de experiência...
Essa foi a última frase que Kong Yi ouviu antes de perder a consciência.
O amanhecer era suave, a luz morna do sol filtrava-se pelas frestas e banhava o escuro do galpão. A mão de Kong Yi tocou o raio de luz, tremendo levemente.
— Eu... não morri? — Ele afastou as peças ao redor, seu rosto marcado pela vida dura, e ergueu-se do chão.
Sua mente estava confusa, sem entender direito: — Sistema, o que aconteceu?
— Ding... — soou o aviso.
— Quando o hospedeiro estava à beira da morte, o valor da força de vontade disparou, desbloqueando o feito “Sobrevivente por um triz”.
— Recompensa do feito: Retorno Temporal / 2 vezes.
— Retorno Temporal: ao usar esta habilidade, o estado físico e a saúde do alvo voltam ao que eram quarenta minutos antes.
— Nota: valores de habilidade, medicamentos e outros benefícios são mantidos.
As pálpebras de Kong Yi pulsaram. Aquela habilidade era praticamente milagrosa.
Retroceder o tempo em quarenta minutos era o mesmo que ter quarenta minutos de invulnerabilidade; não importava a gravidade do ferimento, ele se curaria instantaneamente, como se tivesse uma vida extra.
Só era uma pena desperdiçar uma vez, mas não havia o que fazer.
Kong Yi já havia passado por desastres; após renascer, não se importava mais tanto com a morte.
Naquele momento de pico de força de vontade, ele só queria destruir aquele sistema maldito.
Passava o dia desmontando celulares, tinha acabado de comer meia lata de macarrão antes de desmaiar, e agora estava com fome de verdade, o estômago colado nas costas.
— Sistema, que horas são agora? — Kong Yi pegou o controle remoto da prateleira.
— Dezesseis de julho, manhã, seis e trinta e dois — respondeu o sistema, sempre impassível.
Kong Yi acionou o controle remoto, fazendo o portão subir lentamente.
— Dois dias e uma noite sem comer, preciso de algo decente.
Ele comprara o motorhome em treze de julho, injetara o medicamento genético no dia catorze, agora era dezesseis: estava inconsciente havia dois dias e uma noite.
Ou seja, faltavam dezessete dias para o desastre.
Em dois de agosto, a chuva de meteoros da Lira chegaria, marcando o início da calamidade.
— O homem é ferro, a comida é aço; mesmo que o céu caia, primeiro preciso comer...
O portão subia devagar; ao dar o primeiro passo fora do galpão, Kong Yi percebeu mudanças em seu corpo.
Primeiro, após dois dias sem sair, ele deveria sentir desconforto com a luz, mas seus olhos não sentiam nada de estranho.
Além disso, sua visão estava muito mais ampla; conseguia até distinguir o trajeto de um mosquito a cem metros de distância.
Kong Yi caminhou até o jardim diante do galpão, segurou o tronco de uma pequena árvore e fez força com a mão.
Crac...
O tronco, com dez centímetros de diâmetro, rachou instantaneamente.
Ele ficou surpreso; não achava que tinha usado tanta força, e o tronco já estava partido?
Abriu o painel pessoal; os dados detalhados apareceram diante dele.
— Hospedeiro: Kong Yi
Força: 52
Agilidade: 58
Mecânico: iniciante
Desmontador: intermediário
Seus olhos se arregalaram; os valores estavam altíssimos, um pouco demais. Um humano comum tem valores dez; ele agora era cinco vezes mais forte que uma pessoa normal.
O medicamento genético era mesmo poderoso?
Ele abriu a loja do sistema e, após ler com atenção a descrição do medicamento genético, entendeu porque quase morreu após a injeção.
A substância era usada para criar soldados genéticos, e nos testes clínicos tinha uma taxa de mortalidade de noventa e oito por cento.
Por isso, pessoas comuns precisavam diluir o medicamento em três doses.
Depois de ler tudo, Kong Yi sentiu um calafrio. Aquele sistema era realmente implacável; da próxima vez, leria o manual antes de usar qualquer coisa.
Pensando nisso, Kong Yi já estava na entrada do condomínio.
Ele morava num lugar construído em 2003, um condomínio antigo, sem muito paisagismo na entrada, mas com vários vendedores de café da manhã.
— Chefe, três tigelas de ravióli, dois sanduíches de carne e um prato de carne bovina com molho.
Após pedir, Kong Yi entrou no toldo, aguardando a comida.
Como não tinha nada para fazer, ele abriu o painel do sistema e deu uma olhada nos itens.
— Sistema de missões?
Ao lado do inventário, apareceu uma nova linha: Sistema de missões.
Ao abrir o painel, só havia a missão principal.
— Missão principal: acabar com o desastre, reconstruir o mundo.
Recompensa: Chave do Mundo, trinta bilhões de pontos de experiência, Nave Mobius, Mão de Deus...
As recompensas ocupavam duas páginas; o coração de Kong Yi disparou.
Quem não ficaria tentado? Só os pontos de experiência já eram trinta bilhões.
Mesmo sem fazer mais nada, aqueles pontos bastariam até a próxima vida.
Mas Kong Yi só pôde salivar; reconstruir o mundo? Isso era coisa de deuses.
Com o desastre chegando, o mundo mudaria; ele não achava que poderia salvar alguém, nem que tivesse esse direito.
Só queria sobreviver em paz, acordar todos os dias e ver o sol pela manhã.
— Senhor, sua comida está pronta — o atendente avisou baixinho, vendo Kong Yi distraído.
— Ah, obrigado... pago depois de comer — Kong Yi voltou a si, pegou o sanduíche de carne e começou a devorar.
O atendente voltou para o restaurante, preocupado:
— Chefe, olha só aquele homem, as roupas estão podres, parece um mendigo; será que ele vai pagar?
O dono do restaurante largou a caneta e falou baixo:
— Fique de olho nele; se não pagar, chamamos a polícia.
— Ok...
Kong Yi devorou os sanduíches rapidamente e despejou pimenta no ravióli.
O ar da manhã era fresco; uma tigela de ravióli era perfeita para aquecer o corpo.
Uma jovem estava sentada ao lado dele.
Ela olhou para Kong Yi, comendo de maneira desleixada, como se nunca tivesse comido antes, e franziu a testa, afastando-se um pouco.
O atendente não gostou, aproximou-se de Kong Yi e avisou com desprezo:
— Senhor, por favor, cuide de seus modos; há outros clientes aqui.
Kong Yi sorveu o caldo e respondeu:
— Então, segundo você, pra tomar café da manhã preciso estar de terno? Os modos servem de refeição?
— Você! — O atendente ficou irritado, mas não podia rebater.
Nesse momento, chegaram mais clientes, chamando o atendente.
Os clientes insistiram, o atendente desistiu da discussão e foi atender.
— Porra, você é surdo? Já te chamei mil vezes, por que demorou tanto? — O jovem tatuado insultou.
— Chega, irmão, peça logo.
O atendente viu os dois cheios de tatuagens, corpulentos, e tratou logo de se desculpar.
Após fazer o pedido, o jovem tatuado olhou ao redor e viu a garota sentada no canto.
Ela era de uma beleza pura, olhos brilhantes, sorriso perfeito, cabelos negros como cascata, pele alva como jade.
— Olha só, essa garota é interessante — o rapaz assobiou, sorrindo com atrevimento, e foi até ela.
— Ei, irmãzinha, comer sozinha é tão solitário.
A garota franziu a testa, pousou os talheres e tentou se levantar, mas o amigo do jovem chegou, bloqueando sua saída.
— Não vá embora, ainda nem sei seu nome.
Naquele momento, o restaurante estava quase vazio; a jovem lançou um olhar suplicante para Kong Yi.
Mas ele pareceu não perceber, terminou calmamente a sopa e levantou-se para pagar a conta.