Volume I Capítulo 89 O Rosto Pálido
— Venha, como se eu tivesse medo de você.
Para surpresa de todos, ao ver a adaga ser sacada, Zhou Yixin ficou pálida e correu para agarrar o braço de Kong Yi.
— Irmão, ela não vai me bater, vai?
— Sua namorada é terrível.
— Não como eu, que todos os dias compartilho suas preocupações... Só sei cuidar de você.
Não havia falsidade ali, apenas uma boa irmã preocupada com o irmão. Kong Yi lançou um olhar para o volume generoso que se apoiava em seu braço, mas por dentro não sentiu nada.
Guerreira, não use seus atributos como armas.
Ele voltou-se para Zhong Tanfa, que permanecia calado; após ouvir tudo aquilo, o jovem monge parecia pesaroso.
— Mestre... Mestre... — chamou Kong Yi duas vezes, até que finalmente o jovem retornou do transe.
Tem coisa aí... pensou Kong Yi, mas não deixou transparecer. Sorrindo, perguntou:
— Mestre, como as escrituras taoistas descrevem essa divindade?
Zhong Tanfa refletiu por um instante antes de responder:
— Segundo os registros, a divindade surgiu do nada, oculta em um local onde a luz não chega, e só virá ao mundo quando os corações humanos estiverem corrompidos e a ordem se perder.
Kong Yi ponderou sobre essas palavras, mas não conseguiu relacioná-las a nenhum personagem da mitologia antiga. Diferente da família Zhou, afinal, uma criatura com corpo humano e cauda de serpente é algo conhecido por todos.
Surgiu do nada, esconde-se na escuridão... Entre as possibilidades, os dez reis do submundo poderiam se encaixar.
Contudo, havia pequenas diferenças em relação à descrição taoista.
— Irmão Kong... — hesitou Zhong Tanfa, antes de prosseguir — Dezenove anos atrás, um homem de manto negro visitou o retiro dos taoistas e falou sobre essa divindade.
— Eu era só um garoto promissor, servindo chá aos visitantes, mas ouvi um pouco da conversa.
Os olhos de Kong Yi brilharam e ele apressou-se:
— Por favor, continue, mestre.
Zhao Ning pediu uma porção de batatas fritas a Yi, pois nada combina tanto com fofoca quanto um bom petisco.
Lang Xing e seus dois companheiros também escutavam atentos, mesmo sem entender muito bem, já planejando usar o assunto para se gabar depois.
Chu Fan e o velho Zhao disputaram por um punhado de frutas secas e pedaços de carne seca.
— Eu era jovem e muito do que ouvi entre meu mestre e o homem de negro era difícil de compreender. Agora só lembro de partes.
Organizando os pensamentos, Zhong Tanfa franziu a testa:
— As escrituras taoistas falam apenas das características da calamidade, mas não indicam quando ela ocorreria.
— Porém, há dezenove anos, aquele homem de negro previu com precisão quando a calamidade chegaria.
Kong Yi não se impressionou. Ele, as famílias de artes antigas e a Hua Qing já sabiam disso, então não era tão raro assim.
Zhong Tanfa olhou para ele e acrescentou, sorrindo:
— O homem de negro sabia que a calamidade chegaria antes do previsto.
— Além disso, segundo a data que ele indicou, o desastre ocorrerá amanhã.
Kong Yi engoliu em seco, forçando um sorriso:
— Ele só chutou...
Nem ele, que já vivenciara a calamidade em sua vida anterior, imaginava que ela pudesse se antecipar.
Se o desastre realmente vier amanhã, aquele homem de negro é realmente assustador.
Aproveitando-se do espanto de todos, Zhong Tanfa continuou, sorridente:
— Depois de revelar a data exata, o homem de negro disse que a divindade escolheria seguidores e pediu ao meu mestre que levasse nossa linhagem ao templo.
— Ele afirmou que o templo era a terra da bem-aventurança e que, quando a divindade purificasse os pecados humanos, nós seríamos os novos reis deste mundo.
Kong Yi franziu a testa; aquilo soava muito como um discurso de seita.
Dezenove anos atrás era o início do milênio, e Wan Sihua só entrou na companhia aérea de Huacheng em 2007. Ou seja, aquele homem de negro não era de Hua Qing.
Seria uma nova força oculta?
Kong Yi conhecia três grandes forças: o Taoísmo, as famílias de artes marciais antigas e Hua Qing.
Cada uma tinha uma visão diferente sobre a calamidade e formas distintas de reagir.
— Quem sabe se essa força misteriosa é inimiga ou aliada... — suspirou Kong Yi, parando abruptamente.
Levantou o olhar: diante deles, fora da floresta densa, estendia-se um abismo profundo com vários quilômetros de largura.
Do fundo do desfiladeiro, erguia-se um pilar de luz que perfurava os céus, tingindo o céu local de vermelho com sua aura sanguinolenta.
O ar ali parecia impregnado de cheiro de sangue; no interior sombrio do abismo, uma aura aterradora se espalhava.
Tum... tum...
O som pesado de batidas de coração ecoou, ressoando no silêncio absoluto da paisagem.
Os corações dos presentes passaram a pulsar no mesmo ritmo.
Ao mesmo tempo, uma voz rouca, como se esculpida pelo vento e pela areia, ecoou do abismo.
— Então você veio, afinal...
As pupilas de Kong Yi se contraíram; um calafrio lhe percorreu a espinha.
Virou-se abruptamente para Zhou Yixin, pensando que o Rei dos Mortos falava com ela.
Mas ela também olhava para Kong Yi, e por um instante ambos ficaram atônitos.
Nesse momento, a voz clara de Zhong Tanfa soou nos ouvidos de todos:
— Sim, faz muito tempo, tio-mestre...
— Tio-mestre?! — Kong Yi levou um choque, como se tivesse ouvido um trovão; seu corpo se arrepiou.
A sensação era tão assustadora quanto levantar de madrugada para ir ao banheiro e dar de cara com Sadako ao lado da pia.
Absurdo e inacreditável.
— Mas que... — Chu Fan foi ainda mais direto, boquiaberto:
— Mestre, o Rei dos Mortos é seu tio-mestre?
— Então você também é um zumbi?
A pergunta parecia brincadeira, mas não era impossível. Líderes zumbis, próximos de evoluir, podiam ser indistinguíveis de humanos.
Todos recuaram imediatamente; Zhou Yixin sacudiu as mangas e empunhou duas adagas negras.
Zhong Tanfa, segurando sua antiga espada, saiu calmamente da floresta, explicando:
— Falo do que ele era antes de se tornar um morto-vivo.
Todos respiraram aliviados e avançaram para enfrentar os zumbis que saíam do abismo.
Kong Yi foi até Chu Fan e deu-lhe um tapa na nuca, xingando:
— Droga, para de criar pânico à toa.
Ainda assim, Kong Yi manteve-se atento, pois achou a explicação de Zhong Tanfa um tanto vaga.
O que realmente aconteceu ali, ele só descobriria após caçarem o Rei dos Mortos.
Inspirou fundo e avançou correndo para o meio dos mortos-vivos.
Mesmo vendo o abismo, ainda estavam a cerca de um quilômetro de distância.
Do abismo, saíam hordas de zumbis, densos como sombras que rastejavam lentamente.
— Sistema, escaneie! — Ao ver tal quantidade de mortos, Kong Yi sussurrou mentalmente.
— Ding... — segundos depois, soou o alerta.
Diferente das vezes anteriores, desta vez o sistema exibiu os dados dos zumbis em proporção.
— Tipo: zumbi. Gênero: indefinido. Mutante classe H do tipo morto-vivo.
— 80% dos zumbis: força acima de 50, agilidade acima de 40
10% dos zumbis: força acima de 60, agilidade acima de 50
6% dos zumbis: força acima de 60, agilidade acima de 60
4% dos zumbis: força acima de 75, agilidade acima de 60...
Nada mal... Os números não eram altos demais, e não havia nenhum líder zumbi ali.
Esse mar de mortos nem sequer era digno de ser chamado de desafio.