Volume Um, Capítulo 37: O Acerto
Um baque surdo de algo pesado caindo ao chão interrompeu abruptamente a música do bar.
Os pensamentos de Kong Yi foram dispersos e ele suspirou; pretendia sair dali para continuar investigando sobre os Sem Coração. No entanto, uma voz familiar surgiu de repente, fazendo-o congelar no lugar.
— Zhao Ninghe, você acha mesmo que eu gosto de você? Se não fosse porque você é um cachorro lambe-botas e gasta dinheiro sem pensar, quem iria querer te dar atenção?
Era a voz de Fang Shiqing...
Kong Yi virou-se e viu Zhao Ninghe, coberto de hematomas, caído no chão não muito distante, completamente indefeso. Alguns marginais logo o cercaram, brandindo tacos de beisebol e espancando-o sem piedade.
Fang Shiqing, por sua vez, aninhava-se nos braços de outro homem, observando a cena de cima, com um ar de superioridade. Para provocar Zhao Ninghe ainda mais, o homem apertou descaradamente o traseiro de Fang Shiqing.
— Ai, o que você está fazendo? — Apesar do tom de censura, seus olhos já brilhavam de satisfação.
Kong Yi respirou fundo, a fúria latejando nos olhos, levantou-se de súbito e correu em direção à confusão.
Ao chegar, chutou um dos agressores, afastando-o de Zhao Ninghe, e puxou o rapaz para trás de si. Depois, avançou dois passos e, quando o marginal tentou se levantar, Kong Yi pisou com força sobre sua mão.
— Foi com esta mão que você bateu nele? — perguntou Kong Yi.
O marginal, tomado de fúria, praguejou:
— Seu idiota, ainda vou usar essa mão para arrancar tua cabeça!
Os olhos de Kong Yi se estreitaram e ele aumentou a pressão do pé.
Um estalo seco ecoou; a pele ao redor da mão do marginal se abriu, jorrando sangue em todas as direções como uma fonte.
Ao mesmo tempo, Kong Yi sorriu de leve:
— Pois então, não precisa mais desta mão.
O homem ao lado de Fang Yuyao não demonstrou surpresa; pelo contrário, um leve sorriso surgiu em seus lábios, enquanto murmurava:
— Kong Yi, estava aguardando há muito tempo...
Os outros marginais, ao verem Kong Yi atacar, hesitaram por um instante, mas logo a raiva tomou conta.
— Desgraçado, quer morrer? — O marginal que havia sido derrubado por Kong Yi apanhou o taco de beisebol caído ao lado e investiu contra ele.
Após as aplicações dos medicamentos genéticos, a pele outrora morena de Kong Yi tornara-se alva como porcelana, mais delicada que a de muitas mulheres. Seu porte, um tanto esguio, dava a impressão de fragilidade, incapaz de ferir uma mosca.
Tal aparência foi o estopim da fúria do marginal: ser derrubado por alguém que julgava afeminado, ainda que por surpresa, era humilhante demais para suportar.
— Sistema, escanear.
— Ding... — Soou o alerta, exibindo os dados físicos de todos ao redor.
Os dados dos marginais oscilavam em torno de dez pontos, raramente chegando a vinte. Para Kong Yi, eram como insetos diante de seus olhos.
No entanto, o homem ao lado de Fang Shiqing apresentava números quase equivalentes ao antigo ACE-627: força trinta e nove, agilidade quarenta e dois.
Kong Yi lançou-lhe um olhar cauteloso, sem conseguir decifrar exatamente quem era.
Alguém da Hua Qing?
Nesse momento, o marginal atacou; o taco de beisebol cortou o ar, mirando o pescoço de Kong Yi.
Como se só então percebesse o golpe, Kong Yi desviou com um passo lateral, agarrou o pulso do agressor e torceu com força para baixo.
O estalo dos ossos partindo foi ouvido por todos.
A multidão de curiosos engoliu em seco, involuntariamente.
Aquele rapaz de rosto amigável era, afinal, impiedoso.
Mais atrás, alguns, ao perceberem a força de Kong Yi, voltaram-se para Zhao Ninghe. Os dados físicos de Zhao Ninghe mal se igualavam aos dos marginais; cercado por tantos de força equivalente, já estava completamente exaurido.
Um deles tentou surpreendê-lo por trás, desferindo o taco de beisebol contra a nuca de Zhao Ninghe.
Os tacos pareciam ser especialmente confeccionados, de liga de alumínio, quase todos maciços. Com a força desses marginais, superiores à de pessoas comuns, um golpe daqueles poderia facilmente quebrar o crânio ou causar morte instantânea.
Kong Yi afastou um marginal com um tapa e correu até Zhao Ninghe, interceptando o taco com as mãos nuas. Tomado de ira, apertou o bastão até entortá-lo.
— Isso... — O marginal gelou. Aquilo era mesmo um ser humano?
Entortar um bastão de alumínio maciço com as próprias mãos... era força sobre-humana.
Kong Yi arremessou o taco, atingindo e desacordando o marginal à sua frente, depois, num movimento preciso, acertou o queixo de outro, fazendo-o desmaiar.
Em poucos instantes, mais de dez marginais estavam todos ou desacordados ou gravemente feridos.
Restou apenas Fang Shiqing, pálida como a morte, parada no mesmo lugar.
Zhao Ninghe lançou-lhe um olhar, como se quisesse dizer algo, mas Kong Yi o impediu.
Kong Yi suspirou e perguntou:
— Se hoje eu não tivesse vindo, onde acha que eles iriam esta noite?
— Ainda se lembra... de Zhou Yijing?
Ao ouvir o nome, Zhao Ninghe tremeu e, abatido, a luz de seus olhos se apagou.
— Sim...
Dessa vez, Zhao Ninghe não hesitou mais e virou-se, indo embora.
Após a partida dos dois, Fang Shiqing permaneceu atônita, só recobrando os sentidos depois de algum tempo.
Seu rosto passou do pálido ao rubro; talvez pelo tempo em que conteve as emoções, agarrou o homem ao lado e gritou, fora de si:
— Sun Boyong, por que você não fez nada? E seus capangas, onde estão?
Fang Shiqing parecia à beira da loucura. Criada em meio à pobreza, largara Zhao Ninghe e escolhera Sun Boyong na esperança de ascender socialmente e poder se orgulhar diante de todos.
Por isso, não conseguia aceitar que, aos seus olhos, o inútil Zhao Ninghe tivesse conseguido humilhar Sun Boyong.
Sun Boyong observou os dois partirem, depois voltou calmamente para a cabine nos fundos, sem lançar um olhar sequer a Fang Shiqing.
A indiferença dele quase a levou ao desespero.
Ela correu atrás, mudando o tom de voz:
— Me desculpe, Boyong, eu só estava nervosa agora há pouco...
Sun Boyong lançou-lhe um olhar frio e disse:
— Volte pra casa. Depois entro em contato com você.
Fang Shiqing hesitou:
— E o casamento...?
Sun Boyong soltou uma risada sarcástica:
— O que você está pensando? Você acha que está à altura?
— Seu desgraçado! — A voz dela tremia, tomada pela raiva, e rapidamente levou a mão à cintura de Sun Boyong.
Nesse instante, todos viram que ela empunhava uma pistola.
Os presentes se assustaram: aquele homem andava armado?
Sun Boyong sorriu de olhos semicerrados:
— Nem segurar uma arma direito você consegue, inútil.
Um estampido ressoou. Surpreendentemente, Fang Shiqing, dominada pela vergonha e raiva, atirou.
Mas o inesperado foi que Sun Boyong não tentou se esquivar; ao contrário, lançou-se contra a mulher armada.
A bala cortou o ar, atingiu seu ombro, jorrando sangue, mas Sun Boyong não diminuiu o passo; em dois movimentos, estava diante de Fang Shiqing.
E então, desferiu-lhe um tapa.
O estalo seco ecoou pelo bar; sangue escorreu do nariz e da boca de Fang Shiqing, que quase desmaiou.
Nesse momento, dois homens corpulentos, usando máscaras, saíram da cabine nos fundos.
Sun Boyong ordenou, impassível:
— Levem-na e entreguem ao laboratório da classe HGP.
Sem dizer palavra, os dois arrastaram Fang Shiqing.
Sun Boyong, por sua vez, após vê-los sair, voltou sozinho para a cabine dos fundos.