Volume I - Capítulo 15: Mais do que suficiente
Aproveitando a escuridão como cobertura, Deodato Sun aproximou-se lentamente de Yi Kong; ele estava acostumado a viver naquele ambiente e, embora não pudesse distinguir claramente os objetos ao redor, conseguia ao menos perceber a direção de Yi Kong.
Assim que encontrou o local onde Yi Kong estava, levantou abruptamente a faca afiada e a golpeou.
Clang!
O som de metal colidindo ecoou e Deodato Sun ficou surpreso por um instante.
Logo depois, sentiu algo afiado passar por sua mão, forçando-o a soltar a faca enquanto uma dor aguda o atingia; então ele se virou e correu para fora.
Neste momento, Yi Kong avançou com um passo ágil, derrubou Deodato Sun de uma vez, pisou em sua mão armada e falou friamente:
— Se quiser viver, diga a verdade.
O que surpreendeu Yi Kong foi que, diante da morte iminente, Deodato Sun não demonstrou medo; ao contrário, gritou furiosamente:
— Seu miserável, faça logo! Prefiro morrer a ir para aquele seu maldito lugar!
— Maldição! Não quero acabar como Sha Ding, tornando-me uma aberração, nem humano, nem fantasma...
Ao ouvir isso, Yi Kong percebeu de repente que Deodato Sun... provavelmente não estava mentindo.
Será que Sha Ding estava mesmo morto? E o que seria essa coisa entre humano e fantasma de que ele falava?
Yi Kong refletiu por alguns segundos, então parou de conter Deodato Sun e foi até a varanda, abrindo a cortina.
A luz do sol atravessou a janela, iluminando o quarto desordenado; baratas escondidas entre o lixo espalhado pareciam incomodadas com a claridade, correndo apressadas em busca de abrigo.
Yi Kong sentou-se na cama ali ao lado e sorriu:
— Você entendeu errado. Somos caçadores de recompensas, pessoas que recebem pagamento por capturar fugitivos. Viemos apenas investigar o paradeiro de Sha Ding.
Deodato Sun, exausto, desabou no chão. Depois de um tempo, levantou-se cambaleante, foi até sua cama, virou o travesseiro e pegou uma caixa de cigarros amassada.
Tirou um cigarro, colocou-o na boca, ficou ali sentado, imóvel, e não chegou a acendê-lo, mesmo após um longo tempo.
Yi Kong reparou que seus lábios tremiam levemente.
Após alguns segundos de silêncio, Deodato Sun segurou o cigarro entre os dedos e, com voz rouca, perguntou:
— Vocês acreditam em fantasmas...?
Yi Kong hesitou, mas acabou respondendo:
— Não acredito.
— Heh...
Nos olhos de Deodato Sun, vermelhos de cansaço, surgiu uma centelha de loucura. Ele riu de modo estranho e continuou:
— No começo, eu também não acreditava nessas baboseiras de fantasmas e deuses.
— Até o mês passado, quando houve um acidente na fábrica. Sha Ding foi retirado de lá, coberto de sangue, e levado a um hospital particular próximo.
— Por causa das regras da fábrica, quem tirasse folga teria o salário descontado pela metade, então ninguém foi ao hospital. Só eu fiquei esperando do lado de fora da UTI.
— Eu vi com meus próprios olhos: Sha Ding passou do coma ao estado grave, até ser levado para a cirurgia de emergência.
A voz de Deodato Sun tremia intensamente:
— Fui eu mesmo quem assinou o aviso de risco de morte... e o atestado de óbito!
Como era possível...? Se Sha Ding estava morto, então como explicar o comunicado da polícia?
Yi Kong sentou-se pensativo; depois de tantos rodeios, acabaria sem receber a recompensa.
Tanto faz, se o sujeito já está morto, não adianta insistir.
Ao lado, Yao Fangyu ficou em silêncio por um instante e então franziu a testa, perguntando:
— Em que dia do mês passado aconteceu o acidente?
— No dia 9.
Com a lembrança, Yi Kong se deu conta de que a primeira vítima do caso de Sha Ding morreu no dia 13.
— Espere...
Se Sha Ding morreu dia 9, quem foi o assassino do dia 13?
Um calafrio percorreu as costas de Yi Kong; então era por isso que o título daquele arquivo era... "Os mortos falam".
— Sistema, faça uma varredura facial em Deodato Sun.
— Plim...
— Deodato Sun está com o corpo inclinado para a frente, sudorese acelerada, diâmetro das pupilas dentro do normal, taxa de mentira: 0,06%.
Esses dados mostravam que Deodato Sun dizia a verdade.
Soltando um suspiro, Deodato Sun disse:
— Depois de confirmada a morte, o hospital pediu que a família levasse o corpo, mas Sha Ding não tinha ninguém nesta cidade. Ninguém sabia onde morava, nem quem eram seus parentes. No fim, o caso ficou por isso mesmo.
Dessa vez, parecendo finalmente tomar coragem, ele acendeu o cigarro, tragou duas vezes de olhos semicerrados e continuou:
— Depois disso, as notícias começaram a falar que Sha Ding era autor de vários assassinatos interestaduais.
— Mas naquele dia, no hospital, eu vi claramente que ele já estava morto.
— Por isso, nesse tempo todo, fingi estar louco ou perdido, só de medo daquele desgraçado voltar.
Havia muitas contradições em suas palavras, mas Deodato Sun definitivamente não estava mentindo. Esse contraste estranho tornou o ambiente do quarto ainda mais pesado.
Yi Kong franziu a testa e perguntou:
— Esse "lugar maldito" de que você fala, e o medo de acabar como Sha Ding, virando uma aberração... O que você quis dizer com isso?
Deodato Sun cuspiu no chão:
— Isso é o que importa. Eu suspeito que o caso do Sha Ding tem dedo daquela quadrilha.
— Uma vez, tirei folga e fui beber com Sha Ding. Quando voltamos para o alojamento, vimos que haviam colocado uns panfletos de publicidade por debaixo da porta, mas nem demos importância.
— Quem diria que, ao ver o anúncio, Sha Ding insistiu para que eu fosse junto, dizendo que pagavam bem e o trabalho era fácil.
Revirando o colchão por um momento, Deodato Sun pegou um panfleto amarelecido e o entregou a Yi Kong.
— O lugar fica na divisa entre a Cidade Vermelha e a Cidade Passagem, rodeado de fábricas e terrenos baldios, mas aquele prédio deles é luxuoso demais...
Enquanto ouvia o relato, Yi Kong olhou para o panfleto em suas mãos.
O anúncio era de péssima qualidade, com apenas uma frase simples: "Laboratório Hua Qing recruta voluntários para experimentos, 2.000 por dia."
Nem eles, nem mesmo Yi Kong, conseguiam resistir à tentação.
Na pequena Cidade Vermelha, onde o salário mensal gira em torno de dois mil, ganhar um mês em um dia era tentador demais.
Mas, analisando bem, parecia falso demais.
— No começo, eu e Sha Ding fomos só para arriscar. Quem diria que ao chegar lá, já havia uma fila enorme; só conseguimos entrar no prédio ao anoitecer.
— Lá dentro, além dos recrutados, todos usavam trajes grossos de proteção. E o mais estranho: do laboratório onde faziam as entrevistas, por vezes vinham rugidos baixos, como de feras.
— Que tipo de gente faz barulho assim? Nessas horas, fiquei desconfiado; inventei uma desculpa e escapei de volta para a fábrica. Sha Ding voltou só na manhã seguinte.
Ao dizer isso, Deodato Sun demonstrou arrependimento:
— Ai... Depois disso, Sha Ding passou a viver sonolento, chegando do trabalho ia direto para cama, nem comia, e a febre era absurda.
— Se eu soubesse, teria impedido ele. Dinheiro nenhum vale mais que a vida.
Yi Kong olhou para o endereço no canto do panfleto; era provável que o caso de Sha Ding estivesse diretamente ligado ao Laboratório Hua Qing.
Uma tecnologia obscura capaz de trazer mortos de volta à vida, semelhante ao vírus zumbi dos contos de catástrofe.
Mantém as funções motoras e parte da consciência humana, mas o que resta por completo é o instinto de se alimentar.
Além disso, zumbis têm olfato apurado, capazes de sentir cheiro de sangue a quilômetros.
Ah... Pena não ter trazido um girassol caçador de cadáveres; com ele, tudo seria mais fácil.
Mas com a chance batendo à porta, que venham os zumbis; com sua força atual, Yi Kong podia enfrentar quantos corpos irracionais aparecessem.