Capítulo Um: Fang Yan
O céu estava sombrio, tingido por um leve tom avermelhado de sangue. Era um espaço criado por um poderoso cultivador. No vale abaixo, centenas de feras demoníacas de segundo e terceiro nível batalhavam furiosamente contra um grupo de jovens inexperientes.
Os gritos de combate e os uivos das feras fundiam-se numa torrente sonora que parecia querer romper os céus. Quando as criaturas estavam prestes a ser aniquiladas, de repente, o jovem que liderava os demais apontou sua longa espada para um rapaz de corpo magro.
"Você..." O rapaz magro, já naturalmente fraco, era claramente o elo mais débil do grupo. Mesmo assim, esforçou-se ao máximo durante o confronto, como evidenciavam as cicatrizes em seu corpo. Mas, num momento de descuido, ao voltar-se para os companheiros, foi surpreendido por um ataque traiçoeiro de quem lutava a seu lado.
Consumido por uma amarga sensação de injustiça, Fang Yan tombou de costas, caindo no lago de sangue.
"Gao Jin, você matou Fang Yan!"
"Estamos perdidos! Fang Yan morreu neste solo proibido... Fang Zhen jamais deixará isso passar impune!", exclamou uma jovem de rosto arredondado, com um ar travesso, dirigindo-se ao alto rapaz à sua frente. Era evidente o brilho de satisfação em seus olhos.
"Bah, ele não passava de um inútil no terceiro estágio do cultivo do Qi. Morreu, morreu, e nada mais. Este é o campo de provação das três grandes famílias da Cidade de Yan. Sendo uma provação, como poderia não haver baixas?", retrucou Gao Jin com desdém.
"Yanran, aquele garoto que vivia atrás de você está morto. Não vai correr para contar ao Fang Zhen, vai?", comentou Gao Jin, lançando um olhar para a belíssima jovem ao seu lado.
Ela tinha a pele alva como neve, de uma beleza exuberante e curvas acentuadas, uma verdadeira tentação. Era Wang Yanran, que, com frieza, respondeu: "Um inútil que até agora só atingiu o terceiro estágio do cultivo do Qi? Sua morte nada tem a ver comigo."
O mundo tingido de sangue parecia uma pintura infernal; o céu avermelhado parecia prestes a sangrar, e no Túmulo das Espadas, montanhas de cadáveres se amontoavam.
Fang Yan, de olhos semicerrados, jazia entre o sangue, o manto azul rasgado e sujo como trapos, uma espada cravada no peito. À sua volta, pilhas de corpos — humanos e bestas demoníacas — formavam montanhas. Alguns jovens conversavam e riam ao vento, destoando completamente da cena sangrenta.
"Vamos. Com Fang Yan morto, fomos todos cúmplices. É hora de sair daqui. Deixemos que as feras devorem o corpo dele. Quando Fang Zhen perguntar, teremos uma desculpa", disse Gao Jin, lançando um último olhar para o cadáver.
"Este túmulo só pode ser acessado a cada três anos. Ainda há muitos segredos esperando por nós."
"Shua! Shua! Shua!" Rajadas de vento anunciaram a partida do grupo, que logo desapareceu do vale.
O Túmulo das Espadas era uma ruína ancestral, controlada pelas três grandes famílias de Yan: Wang, Fang e Gao. A cada três anos, em data marcada, cada família enviava seus jovens para lutar e se aprimorar, na esperança de que enfrentando as feras e explorando as relíquias, pudessem romper seus próprios limites.
Fang Yan, filho único da família Fang, não suportando mais a zombaria dos colegas, entrou às escondidas no túmulo sem avisar seu pai. Apenas cultivadores abaixo do Reino Inato podiam entrar, e os participantes variavam entre o quinto e o nono estágio do cultivo do Qi.
Lá dentro, feras demoníacas dominavam, recursos raros abundavam, e até mesmo manuais de técnicas ancestrais podiam ser encontrados. Sobreviver era sinônimo de sorte grandiosa; o progresso no cultivo depois era fulminante.
As três famílias disputavam o domínio da cidade, cada uma almejando destruir as outras e monopolizar os recursos. Se Fang Yan morresse, a família Fang ficaria sem herdeiros e logo seria engolida pelas rivais.
Assim, com sua morte, seu corpo logo seria devorado pelas feras. Gao Jin e seu grupo, ao saírem, não deixariam provas — nem mesmo Fang Zhen, chefe da família Fang, poderia fazer nada contra eles.
Ao redor, tudo era silêncio. A espada quebrada cravada no peito de Fang Yan balançava ao vento. Logo, os uivos das feras começaram a ecoar, atraídas pelo cheiro do sangue.
"Selecionando hospedeiro..."
"Hospedeiro identificado: Fang Yan. Sistema do Mundo Imortal transferido com sucesso."
...
"Onde estou?" Uma voz rouca soou, quase imperceptível em meio aos gritos das feras. Fang Yan ergueu-se, atordoado diante daquela cena de carnificina.
A longa espada ainda atravessava seu peito, o sangue ao redor já seco. Ao mover-se, uma dor lancinante percorreu todo o corpo.
"Este jogo está realista demais..." Murmurou enquanto, com esforço, puxava a espada do peito e via o sangue fresco começar a escorrer outra vez.
"Bip bip bip..."
"Atenção, atenção, valor de vida caindo rapidamente: menos de dez pontos... nove pontos... Deseja ativar o sistema de reparo?"
Chocado, Fang Yan ouviu um alarme soar em sua mente, seguido por uma voz fria do sistema.
"Ativar sistema de reparo." A vida estava quase no fim; se caísse a zero, seria a morte. Fang Yan respondeu instintivamente.
"Sistema de reparo ativado. Experiência zerada. Reparo iniciado. Vida restaurada para vinte pontos. Nível crítico. Recomenda-se continuar reparo", informou a voz impassível, seguida de novos alertas sonoros.
"Droga, só vinte por cento de vida? Assim vou morrer a qualquer momento, que sistema miserável!", reclamou Fang Yan, revoltado com a frieza do sistema.
Então, fragmentos de memória explodiram em sua mente, formando uma tempestade que se fundiu à sua alma.
Fang Yan era um ávido jogador, mestre no jogo "Mundo Imortal". Passara seis dias e sete noites completamente imerso, enfrentando todo tipo de criatura, ascendendo dos reinos inferiores ao mundo imortal. Quando estava prestes a conquistar o título de Imperador e destronar o soberano, morreu subitamente.
O que não esperava era renascer em outro mundo, ocupando o corpo de um morto — que coincidentemente também se chamava Fang Yan.
...
Os rugidos das feras soavam ao longe. Após o choque inicial, Fang Yan assimilou parte das memórias do novo corpo e compreendeu o perigo do Túmulo das Espadas. Era urgente sair dali se quisesse sobreviver.
Cambaleando, o rosto pálido, mal conseguia caminhar. A ferida no peito havia estancado, mas com apenas vinte pontos de vida, era vulnerável até ao ataque de um animal comum, quanto mais das feras demoníacas do local.
"Maldição, este corpo está fraco demais. Preciso de cem pontos de experiência para restaurar toda a vida." Roendo os dentes, avançou algumas dezenas de passos, apoiando-se exausto a uma árvore.
No "Mundo Imortal", só se ganhava experiência matando monstros ou cumprindo missões. Com a vida em vinte pontos, quem mataria seria ele, não o contrário. E sem força, não conseguiria realizar nenhuma missão do sistema.