Capítulo Oitenta e Sete: Quem é o Algoz, Quem é a Vítima?
Três embarcações de madeira deixaram a ilha-base, passaram pela névoa e seguiram cada uma em sua direção designada.
Entre as ilhas, havia áreas em que a névoa se dissipava. Embora todos detestassem a névoa, sua ausência expunha por completo seus movimentos sobre o mar aberto.
No convés da escuna de dois mastros, dezenas de piratas subiram apressados, olhando na direção indicada pela capitã pirata.
E lá estava: no meio da névoa, três barquinhos avançavam lentamente, cada um seguindo por um caminho diferente.
Os piratas vibraram de alegria.
Pelas regras, eles não podiam entrar na névoa. Mas, se os tolos resolvessem sair por conta própria, não havia quem pudesse culpá-los pelo destino.
Como aqueles dois infelizes capturados, que poderiam render um bom preço quando fossem levados de volta.
Abaixo do mastro, dois jogadores humanos estavam amarrados, apavorados, os corpos cobertos de feridas.
Tinham esgotado as tentativas de deslocar sua ilha-base e, sem conseguir recursos para sobreviver, decidiram arriscar-se no mar em busca de socorro.
Quando avistaram o navio grande, se encheram de esperança, achando que enfim seriam salvos.
Mal sabiam eles que o verdadeiro suplício estava apenas começando.
Acostumados à vida tranquila, já haviam perdido o senso de perigo.
O capitão pirata, com o rosto coberto por uma densa barba, repousava numa larga cadeira de balanço, abraçando uma jovem humana. Suas mãos calejadas exploravam sem pudor o corpo da garota.
A roupa íntima dela já estava em farrapos. A pele alva, marcada por hematomas e, em certas áreas, inchada e avermelhada.
— Nada se compara à maciez de uma mulher humana! — exclamou o capitão, exibindo os dentes amarelos e podres num sorriso repugnante.
A menina, de olhos inchados de tanto chorar, não ousava emitir um som, temendo que ele a matasse sem piedade.
Cansado da brincadeira, o capitão a empurrou no convés e gritou:
— Mexam-se! Agarrem todos aqueles jogadores humanos!
— Os obedientes serão vendidos como escravos. Os rebeldes, matem sem dó. Já as jovens bonitas, tragam todas para o depósito!
Os piratas aclamaram a ordem do capitão em uníssono.
Os marinheiros ajustaram as velas e a escuna de dois mastros disparou em direção ao local onde os barquinhos haviam surgido.
Enquanto isso, na ilha-base.
A águia de visão aguçada de Meng Hao continuava a patrulhar as ilhas ao redor. Só quando teve certeza de que não havia perigo, decidiu chamá-la de volta.
Foi então que, por acaso, avistou ao longe uma embarcação com proa de caveira rumando velozmente em direção à sua ilha-base.
Ao presenciar tal cena, Meng Hao ficou pálido.
— Péssimo! Eles nos descobriram!
Aquela escuna de dois mastros já era conhecida por Meng Hao desde que obtivera a visão da águia. Na ocasião, o navio estava parado no mar, sem qualquer atividade suspeita.
Agora, porém, avançava claramente em sua direção, provavelmente por ter avistado as três embarcações exploratórias.
— O que fazer? — Meng Hao franziu o cenho, os olhos se tornando afiados.
Pelas regras do jogo, ainda estavam sob o período de proteção para iniciantes; ameaças externas à névoa não poderiam ferir os jogadores por ora.
Ou seja, se as embarcações regressassem à zona de névoa, os piratas ficariam impotentes para atacá-los.
— Como avisar os grupos? — Os três times já haviam desembarcado e, sem nenhum equipamento de comunicação, Meng Hao era incapaz de alertá-los.
Diante disso, só restava lutar!
Seus olhos gelaram, uma altivez brotando em seu peito.
Ele era, naquele momento, o maior poder de combate entre os jogadores humanos. Se até ele temesse os piratas das ilhas selvagens, os humanos estariam fadados ao abate.
Meng Hao lutaria não por si, mas por toda a humanidade!
— Primeira Guarda Armada, reúna todos aqui! — ordenou Meng Hao, com voz fria, fitando o fundo da névoa.
Ao ouvir, o Primeiro Guarda estacou por um momento, logo compreendendo a gravidade do chamado, partindo imediatamente para cumprir a ordem.
Três minutos depois, na área do cais, os Guardas Goblins, Guardas Armados, Arqueiros, Lobos Terrestres e Cavaleiros Lupinos formaram fileiras impecáveis.
Todos os guerreiros estavam equipados e exalavam uma aura letal.
Ao longe, Rao Xiaofan, ocupado em suas tarefas, estremeceu de medo.
— O que será que vai acontecer?
— Será guerra no mar?
— Melhor não me meter, vou continuar trabalhando!
No cais, Meng Hao fitou as dezenas de embarcações de madeira atracadas e não pôde deixar de franzir o cenho.
Os barcos eram pequenos demais!
Comparados ao navio inimigo, mais pareciam brinquedos.
Mas havia vantagens: eram ágeis e, em número suficiente, poderiam cercar a embarcação maior.
Os Guardas Goblins não podiam deixar a ilha-base. Cabia a eles proteger a linha costeira, cada um armado com lanças em abundância.
Quando o navio inimigo se aproximasse, lançariam suas lanças para causar grandes danos.
Além dos três grupos já fora em missão, restavam na ilha-base catorze Guardas Armados e quinze Arqueiros.
Havia ainda quatorze Cavaleiros Lupinos e quatorze Lobos Terrestres.
Cavaleiros e lobos não eram aptos ao combate naval; a linha de frente contra os piratas ficaria a cargo dos Guardas Armados e dos Arqueiros.
Meng Hao dividiu suas forças em seis grupos, cada um preparado com cordas e ganchos de ferro.
Assim que se aproximassem do navio inimigo, os guerreiros escalariam a bordo usando os equipamentos.
Dessa vez, Meng Hao planejava entrar pessoalmente em combate.
Tinha várias cartas na manga. Caso percebesse que uma luta direta não seria possível, destruiria tudo sem hesitar.
Primeiro, testaria a força do inimigo num ataque frontal; se não funcionasse, usaria foguetes para afundar o navio rival.
— Se o foguete não for suficiente, o acréscimo da runa de impacto deve resolver!
O foguete tinha poder de ataque mil, o bastante para explodir o casco de madeira do adversário.
Se o casco fosse mais resistente, com a runa de impacto o dano dobraria para dois mil — garantia de sucesso.
Meng Hao jamais entrava em batalhas sem confiança na vitória. Quando agia, era para vencer de primeira!
— Vamos no mesmo barco! — disse Meng Hao às suas companheiras, a Patrulheira Sombria e a Patrulheira Luminosa.
A Patrulheira Sombria assentiu em silêncio, cheia de ânimo guerreiro, os olhos brilhando em vermelho intenso.
Inteligente como era, já deduzira pelo comportamento de Meng Hao o que se avizinhava.
Sua missão: proteger o mestre e aniquilar todos os invasores.
A Patrulheira Luminosa, com as sobrancelhas franzidas, perguntou em tom grave:
— Estamos sob ataque inimigo?
Meng Hao confirmou com um leve aceno.
— Sim, mas não se preocupe. Nossa força não é inferior à deles.
A Patrulheira Luminosa olhou-o com compaixão e perguntou:
— Se vencermos, podemos poupar as vidas deles?
Meng Hao ficou surpreso e seu olhar tornou-se sombrio.
— Se fossem eles a vencer, poupariam nossas vidas? — retrucou.
A Patrulheira Luminosa silenciou.
Não gostava de guerras.
Onde há guerra, há sacrifícios — e ela não queria ver ninguém sangrar.
Mas, por mais que todos desejem paz, a guerra nunca cessa.
Os Lobos Terrestres permaneceriam, os Cavaleiros Lupinos remariam, os Arqueiros dariam cobertura à distância e os Guardas Armados liderariam o embarque.
Cada grupo sabia sua função, aguardando, em silêncio, o momento decisivo.
No vasto mar, uma horda de piratas avançava em meio a gritos eufóricos, navegando velozmente rumo ao alvo.
Ignoravam que, naquele instante, os jogadores humanos, antes vistos como cordeiros, os observavam com olhos de predador.
O tigre pode ferir, mas o homem sabe caçar o tigre.
Quem será o algoz e quem será a vítima? Em breve, tudo será revelado!