Capítulo 102: Conselho Estudantil
Embora Jiang Younan tivesse sido incluído por Zhang Shili na lista dos responsáveis pela troca, naquela semana inteira ele não participou de nenhuma reunião de preparação; aos seus olhos, aquelas reuniões não passavam de perda de tempo. Se reunião resolvesse tudo, o nosso Império Celestial não estaria sempre com problemas.
Jiang Younan, por não participar, naturalmente não foi chamado; ele nem fazia parte da associação estudantil. Na própria associação, ninguém sequer conhecia aquele gordo que jamais colocava o pé em atividade alguma.
Mas naquela tarde Jiang Younan apareceu mesmo assim. O motivo era simples: os japoneses chegariam naquele dia à província de Tiannan e à Universidade de Tiannan. Se ele não fosse à sala nesse momento, a situação ficaria ainda mais sem explicação.
Aquela sala era chamada pelos alunos de salão principal ou sala de assembleias. Era usada pela diretoria da Universidade de Tiannan para reuniões oficiais ou para a feira anual de recrutamento, com acabamento de alto nível, cheia de equipamentos de projeção e espaçosa o suficiente para receber milhares de pessoas sem esforço.
No alto da parede havia uma faixa de boas-vindas aos convidados japoneses para intercâmbio, mas ali dentro havia poucas pessoas, no máximo duas ou três dezenas; mal se ocupava um décimo do espaço.
— Ei, irmão, como foi a preparação desses dias? — Jiang Younan perguntou do fundo da sala, sentado na segunda fileira, já que a primeira ficava em frente ao palco.
— Pode me chamar de Wu Desheng — respondeu o rapaz, tão gordo quanto ele. — Reunião é aquela mesma: falar um pouco sobre o caráter dos japoneses e cuidados com eles. Que outro problema haveria?
— Ah, e o que mais? Me diz.
— Você é novo por aqui? — Wu Desheng, ao ouvir isso, percebeu enfim que havia um “novo” entre o pessoal.
— Sou, sim, sou novo — confirmou Jiang Younan. — A escola, com medo de vocês não terem experiência, mandou eu vir pra ficar de olho.
— Vai, para. Se vai se gabar, escolhe alguém que todo mundo conheça! Quem aqui não sabe que os responsáveis são o presidente da associação estudantil, Yang Weinan, e a vice-presidente, a bela Zheng Ying? — Wu Desheng apontou para o palco e falou com desdém.
O par que ele mostrou era de combinar. O rapaz era bonito, a moça, ainda mais; “beleza e talento” é elogio que ainda cabe. E embora o rapaz estivesse no lugar principal, por voz e expressão parecia só querer agradar a moça. Ele queria muito ser notado, mas ela, de fato, nem o olhava.
— Olha só! — Jiang Younan acompanhou o dedo de Wu Desheng e viu a moça no palco. Tinha um rosto frio, distante, como se mantivesse qualquer um a quilômetros de distância, e, no entanto, não era desagradável; dava a sensação de frieza bela e nobre.
— Não é ela, né? Zheng Ying é a nossa “imperatriz” estudantil! — disse Wu Desheng, vendo a reação de Jiang. — Tem a postura dela, tem a linhagem dela, merece cada elogio. — Ele soltou uma risada curta. — Pra falar a verdade, eu venho a essas reuniões todo dia só para vê-la.
— Ah, somos da mesma espécie então — Jiang estendeu a mão. — Prazer em conhecê-lo. Não sabe por acaso se ela me daria o telefone?
— Como uma garotinha como eu iria ter esse número? — ironizou Wu Desheng, num tom misterioso. — Nem perca tempo. Dizem que Zheng Ying é filha de alguém importante. — Mesmo assim, ele continuou a explicar, com entusiasmo, o conteúdo das reuniões.
Depois de ouvir tudo, Jiang se deu por satisfeito por não ter ido antes:
— Essas reuniões da semana foram só lavagem cerebral dos pseudo-exércitos deixados pelo governo japonês para fazer todo mundo obedecer ao Exército Imperial!
“E…”, tossiu a garganta um homem ao lado de Zheng Ying — aquele chamado Yang, o Impotente, um nome tão estranho que Jiang não tinha como esquecer; mais estranho até que “Menino da Soja”.
— Todos já sabem: em breve chegam os nossos estimados amigos do Japão — disse Yang Weinan, sentado na posição central do palco. — Quando vierem, recebam-nos com o coração mais sincero. Não importa o que quiserem, daremos; não importa o que nos pedirem, cumpriremos cem ou duzentos por cento. A ideia é uma só: que eles se sintam como em casa!
— Se o que vocês fizerem não agradar aos japoneses, não digam depois que fui eu quem falei! — ele completou.
— Isso não é dobrar a cabeça para os japoneses? — Jiang Younan não aguentou. — Isso aqui mais parece reunião de um gabinete de gente disposta a vender o país! O que é entregar tudo o que pedirem? O que é obedecer cegamente ao que decidirem? Se amanhã eles quiserem ilhas do Mar Oriental, vamos entregar também? Não vou concordar com isso. Sou chinês da grande pátria: sou hospitaleiro, sou generoso, mas jamais aceito vender interesses nacionais e étnicos como desculpa.
E além disso... — acrescentou ele, endurecendo ainda mais — vim aqui para ser o amo deles, não o escravo deles!
O salão caiu em silêncio de imediato. Todos os olhos se voltaram para Jiang.
— Você... quem é você! — ouviu-se de Yang Weinan, que ficou visivelmente ofendido. No meio da associação estudantil ninguém ousava afrontar sua autoridade — e agora era um desconhecido que o fazia.
— Estamos em reunião, então, por favor, saia daqui.
— Em reunião? Vim justamente para reunião. Só que não para uma assembleia de traição.
— Eu não te conheço!
— Claro. Também não sou eu que pego dinheiro no chão da rua para te mostrar. Além disso, eu também não te conheço.
As palavras de Jiang faziam parecer totalmente natural que ele não conhecesse Yang Weinan.
Yang Weinan bateu na mesa e apontou para ele:
— Sou Yang Weinan, presidente da Associação Estudantil da Universidade de Tiannan!
— Ah, isso eu já sei — respondeu Jiang, em tom de conselho, ergueu o dedo em “shh” e falou baixo. — Não precisa berrar assim; e, sinceramente, para um homem chamado Yang, o Impotente, isso nem é motivo de orgulho.
Logo várias pessoas no salão perceberam o trocadilho e caíram na risada. Até mesmo a fria e bela Zheng Ying, que até então mal falava, sorriu sem querer.
Ao ver aquele sorriso, Jiang murmurou consigo:
— Esse sorriso deve ser mais belo que o de Bao Si.
Zheng Ying pareceu ter sentido algo e dirigiu o olhar para Jiang; quando os olhos deles se encontraram, ela logo retomou a máscara de gelo.
— Sai para fora! — vendo a reação do público, principalmente a da “deusa” ao lado, Yang Weinan levantou-se de um tranco e mandou: — Saia logo daqui!
— Por que eu sairia? Que direito você tem pra me expulsar? — disse Jiang, batendo na mesa e levantando-se também. Com esse tipo de pessoa, ele não cedia.
Jiang Younan era medroso, era mesquinho, era de pouca firmeza: diante das dificuldades recuava, diante de perigo fugia, diante de força superior implorava. Mas, no fundo, quando o assunto era interesse nacional, ele tinha sua linha: “não”. Quando estava em jogo a sobrevivência do povo, ele também se erguia sem medo.
Yang Weinan, de 1,75 metro, bonito, elegante e impecável no traje de marca, tinha a presença de quem foi feito para comandar. Jiang Younan, com 1,60 e cento e sessenta quilos, vestia peça de feira de rua numa vermelhidão berrante, calça preta e marrom embaixo e, entre os dois, expunha pernas claras. Uma mistura de cores que parecia feita só para provocar.
Ele parecia, de cara, o papel do vilão.
— Seu gordo! Yang Weinan mandou você sair. Saia logo! — ergueu-se uma aluna magra e morena, sentado no palco, e indicou Jiang.
Jiang já tinha notado aquela moça antes: quando olhava para Yang Weinan, parecia uma apaixonada declarada. Dava para perceber que ele lhe inspirava, e agora ela enfim tinha o momento de mostrar isso.
— Isso mesmo! Você está atrasando a recepção dos japoneses! Vai levar essa responsabilidade nas costas!
— O que vocês chamam de recepção é uma coisa; o meu papel não entra nisso? — respondeu Jiang seco. — Eu também sou um dos encarregados da recepção!
— Você também? Então por que eu não te vi antes?
— Porque você conhece muita gente? — ele respondeu de imediato, com um rosto de quem vai brincar. — Você vai querer dar nome e rosto a todo ser que aparece? Com esse visual você assusta até criança! A não ser que seja tão fofa quanto eu.
(continua)