Capítulo 73: As Luzes de Cem Lares
“Muito obrigado, mestre taoísta, por salvar nossas vidas. Se não fosse por sua intervenção, temo que hoje todos nesta mansão teriam perecido nas garras do monstro…”
No salão principal, com a retirada da pequena serpente verde, instalou-se um silêncio profundo.
Foi Lu Zhanxiong o primeiro a recobrar a compostura. Com uma reverência profunda, prostrou-se diante de Fang Xian em gesto de sincera gratidão.
Ele pensava que o invasor não passava de um espírito comum. Não que monges eminentes como o Mestre Yuanyuan ou o próprio Zixia, de reputação lendária, não tivessem poder para lidar com aquilo, mas mesmo entre os aventureiros do mundo marcial há quem ocasionalmente mate algum monstro.
Jamais imaginou, porém, que aquela serpente demoníaca tivesse poderes tão formidáveis. Se não fosse por esse jovem mestre, de origem misteriosa e que apareceu ofertando sua ajuda, todos os convivas do banquete de hoje teriam sucumbido!
“Não foi nada”, respondeu Fang Xian, acenando com a mão e sorrindo. “O senhor da casa estaria disposto a compartilhar comigo uma chama de sua morada?”
“Mas é claro! Sem dúvida alguma!” Lu Zhanxiong ordenou imediatamente que trouxessem uma lamparina de bronze, oferecendo-a com ambas as mãos e um gesto de absoluta sinceridade: “Por favor, aceite, mestre!”
“Bem…” Fang Xian recebeu a chama e fez menção de se retirar.
Mas como Lu Zhanxiong poderia permitir que ele se fosse? Suplicou com insistência, lamentando a falta de proteção de sua casa e temendo que, se a serpente retornasse, um destino desolador lhes aguardasse.
Fang Xian, então, demonstrou hesitação: “Minha jornada visa realizar cem boas ações e reunir cem chamas familiares…”
“Isso é simples!” Lu Zhanxiong bateu no peito, decidido. “A família Lu se encarregará de tudo!”
“De forma alguma”, recusou Fang Xian, balançando a cabeça. “Este é o caminho da minha cultivação, não posso delegá-lo a outros.”
Ele viera para conceder favores; se a família Lu reunisse as cem chamas por ele, a dívida estaria quitada. Como, então, poderia ele almejar o domicílio do Dragão de Fogo?
Após vários pedidos de Lu Zhanxiong, Fang Xian enfim cedeu: “Não posso delegar a tarefa, mas posso contar com auxílio. Se me emprestar seus homens, que trabalhem sob minha orientação, arcando eu com todas as despesas.”
Com um leve toque na cabaça à cintura, uma arca repleta de ouro e prata surgiu diante deles.
Para cultivadores, tais riquezas são facilmente obtidas; basta explorar montanhas e mares e logo se descobre uma jazida.
O Ancião da Montanha Negra, um sábio errante do reino dos poderes místicos, podia voar livremente, tornando a busca por tesouros ainda mais simples.
“A família Lu fará tudo ao seu alcance”, respondeu Lu Zhanxiong, maravilhado com a cena e ainda mais invejoso da vida dos cultivadores.
Fang Xian, sorrindo, recusou novamente o convite de permanência e retirou-se rumo ao Templo Zixia, onde ficou hospedado junto ao Mestre Zixia.
…
O Templo Zixia, aninhado no Monte Luoxia, erguia-se às margens da cidade de Wuyang.
Não era um templo grande, mas exalava limpeza e ordem. Havia poucos devotos em comparação aos mosteiros vizinhos, tornando-o um local perfeito para a prática da meditação.
Fang Xian examinou o lugar e, satisfeito, recolheu-se a um dos aposentos reservados.
O Mestre Zixia, por sua vez, encontrava-se inquieto. Mandou chamar dois aprendizes e ordenou: “Garotos, este mestre que nos visita tem antecedentes extraordinários; tratem-no com extremo cuidado. Tragam todo o nosso estoque de grãos espirituais, frutas mágicas e água pura da nascente…”
“Mestre…” Os dois discípulos lamentaram, pesarosos. “Os grãos e a água não importam, mas o Fruto Vermelho era para o Jovem Mestre. O senhor prometeu que, quando ele se tornasse discípulo de uma grande seita, o presentearia, para que tivesse prestígio entre seus irmãos…”
“Ah, é mesmo, Heng’er!”
O Mestre Zixia bateu na própria testa. Era seu sobrinho de sangue, rapaz de quinze anos, dotado de rara inteligência, a quem sempre protegiam, temendo contaminar sua essência com doutrinas inferiores.
Mantinham-no aos pés da montanha, praticando apenas o “Tratado da Percepção Celestial”, um método simples de cultivo básico, destinado a aguçar a sensibilidade para as energias do mundo, sem transmitir-lhe técnicas avançadas.
Refletindo, o mestre decidiu: “Mande Heng’er vir até aqui como ajudante. Ele tem um talento raro e, quem sabe, possa atrair a atenção do mestre visitante e obter orientação verdadeira. Não subestimem o jovem mestre por sua juventude; se não é descendente de uma linhagem poderosa, que eu mesmo perca meus olhos… Um discípulo autêntico, mesmo mostrando apenas uma fração de suas habilidades, pode beneficiar alguém para toda a vida!”
…
Dias depois, Fang Xian desfrutava de grande conforto no Templo Zixia.
Além do serviço dedicado dos monges, a família Lu enviava regularmente servos e suprimentos, suprindo qualquer necessidade de imediato.
Ao mesmo tempo, a vasta família Lu, sob orientação de Fang Xian, dedicava-se às cem boas ações: construindo pontes, reparando estradas, socorrendo necessitados…
A cada boa ação, pedia-se aos beneficiados que doassem uma chama de seu lar.
Essas pequenas luzes, frágeis, eram cuidadosamente preservadas em lamparinas eternas, protegidas do vento, e enviadas rapidamente ao Monte Luoxia, onde Fang Xian as refinava pessoalmente.
Com o auxílio dos habitantes locais, o ritmo de coleta das cem chamas tornou-se muito mais rápido.
Em apenas um mês, a sala reservada para armazenar as chamas já guardava quarenta e nove delas.
Assim que reunisse cem, poderia fundi-las em uma única, criando uma verdadeira chama espiritual.
Na verdade, esse processo poderia ser repetido, aprimorando as cem chamas em mil, dez mil e assim por diante, mas o esforço seria descomunal.
Fang Xian, contemplando as inúmeras luzes, meditava em silêncio:
“Estas cem chamas são excelentes; se combinadas com madeira solar ardente e ferro negro refinado, posso forjar um artefato mágico chamado Lâmpada do Palácio dos Nove Sóis…”
“Meus artefatos ainda são poucos. Tenho apenas o Cavalo das Seis Regências… Estou realmente pobre… Nem presente para meus discípulos posso dar…”
O Espelho do Fogo Celestial é um tesouro, não um mero artefato!
Neste momento, Fang Xian voltou a pensar no Ancião da Montanha Negra.
“Entretanto… talvez seja melhor dedicar-me à cultivação e aumentar meu poder. Não é melhor alcançar a imortalidade?”
Ele sabia, porém, que muitos cultivadores não avançavam por falta de métodos, ou, mesmo possuindo linhagem, esbarravam em limitações de talento e destino, encontrando barreiras intransponíveis.
Nesses casos, refinar artefatos e estudar técnicas secretas eram escolhas sensatas.
A busca pela perfeição é louvável, mas sem métodos de autodefesa, mesmo um imortal pode sucumbir.
Deixando a sala das chamas, deparou-se com um jovem aprendiz à porta, que o saudou: “Mestre, terminaste o retiro?”
“Sim. Tens cuidado das lâmpadas e do óleo com muita dedicação.”
Fang Xian, pouco se importando por ser ele mesmo jovem, assumiu o papel de ancião e afagou a cabeça do aprendiz, parente de Mestre Zixia, de talento promissor. O zelo demonstrado não era por acaso.
Contudo, sentindo-se sem recursos, hesitou em presentear com coisas vulgares e fingiu não notar.
“Talvez… eu deva acender o fogo e preparar um elixir espiritual?”
“Ou, para não complicar, ao término do prazo de três anos, simplesmente transmitir-lhe o ‘Método do Dragão Demoníaco do Escudo Celeste’. Embora só permita atingir o domínio dos poderes místicos, é evidente que Mestre Zixia sequer possui transmissão de encantos avançados!”
Enquanto ponderava, Fang Xian sentiu algo diferente.
Saiu do templo e, sob a luz do luar, ouviu um sibilar incessante.
De todos os lados, serpentes enormes surgiram das sombras, cercando o templo. Erguendo-se sobre as caudas, preparavam-se para lançar uma névoa venenosa.
“Como eu previa, vieram mesmo.”
Fang Xian já esperava por isso. Lançou o Selo do Dragão Escarlate, enviando secretamente o Espelho do Fogo Celestial ao ar.
Rugidos irromperam!
A serpente de fogo girou no ar, crescendo desmesuradamente. Dois grandes protuberâncias surgiram-lhe na cabeça, quatro garras brotaram do ventre, e logo as chamas consumiram tudo ao redor, tingindo a montanha inteira de vermelho.