Capítulo 3: A Travessia (Novo livro, espero que seja apreciado)
Montanha Azul.
Uma silhueta alongada movia-se velozmente pela floresta.
Ele chegou à beira de uma lagoa gelada, onde, de súbito, deteve-se e começou a praticar uma sequência de golpes de punho.
“Tigre Negro Rasga a Montanha!”
“O Tigre Feroz Salta o Desfiladeiro!”
“O Tigre Branco Dança Furioso!”
Os músculos do jovem eram rígidos e bem definidos, e cada movimento exalava uma aura ameaçadora; entre os golpes, podia-se ouvir, ao longe, ecos de um rugido de tigre.
Por fim, o jovem recolheu os punhos lentamente, fitando o próprio reflexo nas águas do lago, murmurando consigo mesmo:
“Quem diria, eu realmente consegui viver uma terceira vida!”
Fang Xian suspirou profundamente: “Desta vez, não vou mais me resignar à base social, quero ver horizontes mais amplos, quero, de fato, tomar as rédeas do meu destino!”
É difícil mudar o caráter de alguém depois de moldado, mas, após experimentar mudanças drásticas entre a vida e a morte, não sofrer alterações seria o anormal.
“A única surpresa é ter vindo parar num mundo semelhante à antiguidade, onde a força das armas é altamente valorizada!”
Reino de Wu Yuan, Distrito Yan Feng, Montanha Azul!
Foi isso que Fang Xian descobriu sobre si mesmo, anos após o renascimento.
Além disso, havia algo chamado “artes marciais” neste mundo, onde o poder físico prevalecia, e mesmo nas aldeias mais simples, sempre se transmitiam algumas técnicas de combate.
“No caminho marcial, treina-se externamente músculos, ossos e pele; internamente, cultiva-se o qi vital!”
“Apenas quem gera o verdadeiro qi torna-se realmente forte, respeitado por onde passa... Infelizmente, técnicas internas são raras; só aprendi a vulgar arte externa ‘Punho do Tigre Feroz’...”
Os olhos de Fang Xian brilharam, e diante dele surgiu um painel luminoso:
[Talento: Olhos da Profundeza]
[Punho do Tigre Feroz: Sexto Nível]
“O Punho do Tigre Feroz é apenas uma arte externa. Dizem que, no auge, pode-se, talvez, gerar qi verdadeiro de fora para dentro, mas são raríssimos os que alcançam tal feito... E esse painel de atributos parece servir apenas como exibição...”
Fang Xian demonstrava certo desapontamento.
Por dezesseis anos, ele explorou esse “dom especial”, mas, no fim das contas, só conseguiu entender essa função.
“E o pior é que, antes de ter os ‘Olhos da Profundeza’, nem mesmo conseguia ver isso...”
Fang Xian supunha que seu verdadeiro “dom especial” consistia na habilidade de reencarnação, aliada ao painel de atributos!
Quanto aos chamados “Olhos da Profundeza”, foi uma mudança trazida pelo contato anterior com o “Manuscrito Secreto da Profundeza”!
Somente graças a esses olhos ele podia enxergar o extraordinário, o misterioso, e seus próprios atributos; do contrário, teria permanecido desorientado por muito mais tempo.
Apenas olhos além do comum podem perceber o mistério!
“Pena que o manuscrito secreto não pode ser cultivado. Mas, sendo uma coisa tão estranha, talvez seja melhor manter distância...”
Ao recordar o passado, a expressão de Fang Xian se alterou.
Quando recitava palavras rituais e lançava maldições contra inimigos, sentia sua alma conectada a uma entidade desconhecida.
Aquela loucura e caos ainda hoje lhe causavam calafrios.
“O conteúdo do manuscrito, em sua maioria, leva as pessoas a se envolverem com aquela entidade, tornando-se cada vez mais ‘não humanas’, até que, por fim, podem sacrificar tudo de si... Por esse lado, considero-me sortudo: sacrifiquei apenas carne e vitalidade, pensando na possibilidade de viajar entre mundos, e não ofereci minha alma. Do contrário, não sei se teria tido a chance de viver uma terceira vida...”
O rosto de Fang Xian estava tomado pelo temor.
Após a travessia e o renascimento, parece que, ao romper o vínculo com aquela entidade, o manuscrito tornou-se um amontoado de códigos ininteligíveis em sua mente, restando apenas os “Olhos da Profundeza”, que pareciam ter-se fixado como um talento de alma, uma sorte forçada no fim das contas.
“Quem sabe ainda exista uma forma de voltar...”
No mundo anterior, o limite de força e civilização era muito superior ao deste mundo marcial.
Sem falar da civilização capaz de cruzar as estrelas, pelo que havia ouvido de um jovem, existiam caminhos de cultivo estranhos e até mesmo pessoas capazes de sobreviver no espaço apenas com o próprio corpo!
Neste mundo, porém...
Fang Xian nunca ouviu falar de prodígios capazes de mover montanhas ou desviar rios; parece que, aqui, derrotar uma centena de homens sozinho já era algo excepcional.
O limite era claramente mais baixo.
“Enquanto houver vida, há esperança!”
“E, se eu não alcançar certa altura, como poderia conhecer a verdade do mundo? Assim como fui na vida passada: uma formiga jamais verá o que vê a águia.”
“Nesta vida, eu preciso viver com intensidade!”
Fang Xian ergueu o olhar para o céu: “É hora de descer a montanha.”
...
Ao sopé da Montanha Azul, havia uma pequena aldeia.
Fora do povoado, estendiam-se campos montanhosos áridos, onde camponeses trabalhavam e algumas crianças brincavam à beira dos arrozais.
Quando o sol se punha no horizonte, Fang Xian entrou pela porta da aldeia carregando nas costas um javali, sob olhares invejosos dos camponeses.
“Tio Tigre, Tia Raiz, Tio Ming...”
“Pequeno Cabeça de Tigre, que menino bom! Outro dia lhe trago uma penca de frutas do bosque...”
Sorrindo, Fang Xian cumprimentava a todos e entrou em seu quintal.
Na entrada, cercada por uma paliçada, viam-se três casas de tijolos vermelhos e telhas verdes, aparentemente recém-construídas. Dentro do cercado, havia uma pequena horta, e ali um velho, de feições rústicas, fumava calmamente seu cachimbo na pedra diante da porta.
“Mano, você trouxe um javali!”
Uma menina de vestido vermelho e duas tranças correu animada para recebê-lo.
“Sim, e também colhi suas framboesas favoritas.”
Fang Xian sorriu, tirou do bolso um cacho de frutos vermelhos e colocou um deles na boca da irmãzinha, que fechou os olhos de prazer.
“Que bom que voltou.”
O velho Wang tragou o cachimbo mais uma vez, bateu as cinzas na pedra e se levantou.
Seu nome era Wang Raiz Velha, pai de Fang Xian nesta vida.
Além dele, a família era composta pela mãe, Yunhua, o irmão mais velho, Wang Da, e a irmã caçula, Wang Flor da Montanha. Quanto ao próprio Fang Xian, nesta vida carregava o nome que tanto o fazia se queixar: Wang Segundo.
No interior, não se podia esperar nomes sofisticados; era assim mesmo.
Fang Xian teve de conviver com esse nome um tanto embaraçoso ao longo de seu crescimento.
O sustento da família dependia dos três hectares e sete partes de terra pobres, o que fazia com que vivessem de modo difícil.
Felizmente, Fang Xian era engenhoso: desde que passou a praticar artes marciais em segredo, aproveitava para caçar durante os treinos na montanha, complementando a renda da casa, e assim construiu esse pequeno patrimônio.
Hoje, a família Wang era considerada próspera na aldeia; até mesmo de vilarejos vizinhos vinham casamenteiras propor alianças, mas Fang Xian não se interessava.
Afinal, após absorver conhecimento e experiências de duas vidas anteriores, seus padrões tornaram-se elevados demais.
À noite.
Na mesa, serviu-se uma grande travessa de carne de javali, fazendo a irmãzinha salivar sem parar.
Olhando a família reunida, Fang Xian respirou fundo: “Pai, quero partir, desbravar o mundo!”
O velho Wang parecia já esperar por isso: “Desde os seus nove anos, eu sabia que você tinha espírito livre. Ainda bem que seu irmão mais velho pode cuidar da casa. Vá, vá.”
Wang Da e a esposa, de cabeça baixa, continuaram a comer, mas estremeceram ao ouvir isso, sem demonstrar expressão alguma.
A mãe, por sua vez, relutava em deixá-lo ir, segurando sua mão e murmurando conselhos, sendo preciso muito esforço de Fang Xian para acalmá-la.