Capítulo 11: Velhas Rancores (Novo Livro em Busca de Recomendações)
— Que pena... — lamentou.
O comboio retomou a marcha.
Montada em seu cavalo, Liu Yan suspirou:
— Não encontramos nenhum manual secreto de artes marciais e até moedas de prata foram raras. Só nos restou cortar a cabeça do sujeito e ver se há alguma recompensa por ele no condado da Montanha Negra.
— Isso é o normal. Raramente um veterano leva seus segredos de kung fu consigo, não quer facilitar para inimigos, não é? — Qian Sanwu comentou calmamente, demonstrando uma atitude um pouco mais amigável em relação a Fang Xian.
Pessoas habilidosas são respeitadas em qualquer lugar.
Não importava se Fang Xian tivera apenas sorte ou não; seu domínio do arco bastava para conquistar respeito.
— Eu, no entanto, acho que esse homem talvez tivesse cúmplices à espreita — Fang Xian lançou um olhar atento ao redor.
— Está sendo cauteloso demais... Entre salteadores, não existe amizade verdadeira. Se ele tivesse nos surpreendido e ferido mortalmente um ou mais de nós, talvez o restante dos bandidos avançasse em massa. Mas agora, sabendo que somos duros de lidar, ninguém mais virá arriscar a vida à toa... — Liu Yan explicou detalhadamente.
De fato, a viagem seguiu tranquila até chegarem à cidade de Montanha Negra.
A muralha, construída inteiramente de blocos de pedra negra, erguia-se imponente e, entre as pedras, não se via sequer uma fresta.
Dentro dos muros, a cidade mostrava-se ainda mais próspera e movimentada que o condado de Yan Feng.
— Após esta entrega, todos poderão descansar por três dias, antes de voltarmos a nos reunir para partir... — anunciou Qian Sanwu, finalmente deixando transparecer um pouco de alívio no rosto.
Ao ouvirem isso, todos os guarda-costas sorriram; alguns já combinavam de ir juntos se divertir em casas como a "Mansão do Perfume Embriagante".
— Ah! — exclamou alguém de repente, enquanto uma pequena confusão se formava na rua à frente.
— O que houve? — Fang Xian apressou o passo e viu uma mãe e sua filha sendo postas para fora de casa, ambas chorando abraçadas.
Dentro da casa, ainda se escutavam sons de arremesso e destruição.
Logo, alguns brutamontes surgiram, cercando um administrador de queixo ornado por uma verruga negra:
— Quem não paga o que deve acaba assim, família Qin! Seu marido morreu de doença, mas a dívida não desapareceu!
— Deus do céu, a dívida cresceu tanto com os juros que já não conseguimos pagar... — lamentou a mulher, chorando.
— Hmph, dou mais três dias. Se não pagarem, tomaremos a casa e venderemos vocês duas à Casa da Primavera! — disse o administrador, semicerrando os olhos enquanto lançava olhares cobiçosos às duas. — Com a Casa He An não se brinca. Ninguém nunca deixou de pagar o que devia.
Fang Xian observou ao redor e, baixando a voz, perguntou a Liu Yan:
— Casa He An? Quem são eles?
— Apenas um dos grupos subordinados ao Portão de Jade Verde. Mesmo sendo uma seita de segunda linha, não é algo com que um lutador comum possa se meter... — respondeu Liu Yan em voz baixa.
— E a autoridade? Não faz nada? — espantou-se Fang Xian.
— Ora... meu jovem, você talvez não saiba, mas desde o caso do Louco Chu, o governo do Reino Yuanwu perdeu muito poder. Agora, na prática, cada condado é dominado por uma seita, e os guerreiros agem como querem. É o normal — respondeu Liu Yan, como se fosse óbvio.
— Além disso, o Portão de Jade Verde tem agido cada vez mais baixo ultimamente... Talvez estejam enfrentando problemas internos.
Qian Sanwu acariciou o queixo.
Em geral, quanto maior a seita, mais prezam pela aparência e pela reputação; mesmo que sejam corruptos por dentro, mantêm uma fachada de caridade.
Afinal, não são uma seita demoníaca!
— Talvez... — Fang Xian balançou a cabeça e seguiu adiante.
Sua postura de indiferença chamou a atenção de Liu Yan.
Por norma, os jovens são impulsivos e idealistas, mas Fang Xian demonstrava uma rara lucidez.
— Se realmente não suportar ver tal coisa, pode-se mandar alguma ajuda depois. Mas o mundo é imenso, e há tantas pessoas sofrendo... Como ajudar a todas? — comentou Qian Sanwu, num tom entre lamento e aviso.
Fang Xian permaneceu calado, completou a entrega com o grupo, trocou a roupa de guarda-costas por um traje de guerreiro azul e saiu da hospedaria.
Enquanto os outros, aliviados do peso da missão, saíam em pequenos grupos para se divertir, ele deu uma volta pela cidade, comprou alguns itens e foi até a sede do Portão de Jade Verde, como se informara.
Quanto mais renomada a seita, mais precisa de discípulos para dar movimento ao local; por isso, quase sempre a sede se instala dentro da cidade, facilitando o acesso e a compra de suprimentos.
Afinal, a maioria dos guerreiros, no fundo, são pessoas comuns, ligadas à vida mundana e não eremitas nas montanhas.
No entanto, por estar em decadência, o Portão de Jade Verde não conseguiu um bom território e se vê obrigado a se abrigar na região oeste da cidade, junto com outras seitas de segunda linha.
Fang Xian, disfarçado sob um chapéu de palha, passou a tarde num quiosque de chá nas proximidades e viu vários "conhecidos" indo e vindo — eram justamente os discípulos que derrotara em sua última viagem, o que lhe chamou a atenção.
— Eles não estavam em jornada de treinamento? — murmurou. — Mas faz sentido... Foram derrotados por mim, perderam o ânimo, e alguém ainda se feriu. Voltar para se recuperar é natural...
Murmurando consigo, formou um plano.
***
Neste período, Huoqi estava de péssimo humor.
Receberam a ordem do mestre para viajar, mas nem chegaram ao condado de Yan Feng e já tiveram de retornar humilhados — especialmente porque a irmã mais nova, Ruan Hongling, se feriu. Isso lhe trouxe muitos aborrecimentos.
Até o mestre passou a vê-lo com desdém, deixando-o ainda mais frustrado.
— O clima dentro da seita está estranho ultimamente, recolhendo dinheiro às pressas, comprando ervas raras sem economizar. Parece que vão fazer algo grande...
Enquanto meditava, a própria Ruan Hongling entrou correndo, o braço enfaixado e preso ao peito, mas no rosto misturavam-se ódio e surpresa:
— Irmão, vi aquele que me feriu!
— O quê? Ele ousa vir à Montanha Negra? — Huoqi assustou-se. — Que audácia...
— Irmão, desta vez vingue-me! — implorou Ruan Hongling, ansiosa.
— Mas... O mestre e os protetores estão ocupados. Só com nossa linhagem... — pensou Huoqi, lembrando do vexame anterior.
— Da última vez aquele sujeito teve a ajuda da família Liu, agora está sozinho. Um não pode lutar contra muitos... E, além disso, pedi o auxílio do irmão Yi — os olhos de Ruan Hongling brilhavam de rancor. — Vamos despedaçar o miserável!
— Você conseguiu o apoio do autêntico discípulo do mestre... Isso muda tudo. Iremos juntos, com todos os discípulos, armados!
Huoqi ponderou o poder de ambos os lados e, considerando que estavam dentro da cidade, julgou que não haveria problema algum. Por fim, concordou.