Capítulo Trinta e Sete: Como Pode Ser Uma Coincidência Assim
Na vida passada, Mu Chen era versado em Tai Chi e Xingyi, e também tinha certo conhecimento de Baji. No entanto, se hoje em dia alguém perguntasse a qual escola ele pertencia, sem dúvida seria à de Baji. Desde pequeno, aprendeu Baji com seu avô, tendo neste mundo uma linhagem autêntica. Para participar de competições de mestres de artes marciais, só poderia se inscrever como representante do Baji. Claro, se um dia quisesse fundar sua própria escola e aceitar discípulos, seria outra história.
Os dois assumiram suas posturas e começaram a se mover. Dizem que a cultura estabiliza o mundo, enquanto as artes marciais o defendem. Os movimentos do Baji são simples, diretos, explosivos e vigorosos, frequentemente utilizando o impacto dos pés para gerar força. Ambos estavam apenas trocando técnicas, não lutando até a morte.
Liao Chengzhi era um verdadeiro especialista; Mu Chen percebeu isso assim que entraram em confronto. Naquele momento, não se preocupava mais em sair ou não do círculo desenhado no chão. Quando mestres se enfrentam, a mente se foca apenas no adversário. Liao Chengzhi também não fez questão de forçar Mu Chen a sair do círculo. Não estava ali pelo dinheiro da aposta, mas sim pelo prazer do desafio, curioso sobre aquele jovem “artista de rua”.
— Mestre Liao, se continuarmos, isso se tornará uma luta de vida ou morte — disse Mu Chen, sentindo que algo não estava certo, aproveitando uma abertura para saltar para trás.
Liao Chengzhi parou imediatamente, olhando surpreso para Mu Chen. Jamais imaginara que sua técnica fosse tão elevada. Nos tempos atuais, jovens com tal habilidade são uma raridade.
— Não imaginei que o mestre Mu também fosse do Baji. Talvez nossas famílias até tenham alguma ligação. Minha academia é ali adiante, que tal irmos até lá conversar? — Liao Chengzhi saudou Mu Chen respeitosamente.
Chamando-o de “mestre”, estava claro que reconhecia a habilidade de Mu Chen.
— Isso depende da sua disponibilidade, mestre Liao — respondeu Mu Chen, lançando um olhar ao cinegrafista próximo. Liao Chengzhi percebeu e, após um breve momento de reflexão, sorriu:
— Não há problema algum.
Nesse instante, dois policiais chegaram, dispersando gradualmente a multidão. Bastante gente já se aglomerara quando Mu Chen começou sua exibição e, depois, ainda mais atraídos pelo duelo com Liao Chengzhi. Embora os dois já tivessem parado, o público parecia relutante em ir embora, debatendo animadamente o que haviam acabado de ver.
— Senhores... — Um dos policiais olhou para o chão marcado pelas pisadas dos dois, querendo dizer algo, mas ficou atônito com o que viu. O piso de cerâmica estava rachado no local do confronto. Como poderia haver tamanha força destrutiva?
Era evidente que danificaram propriedade pública. Não havia o que discutir, era preciso pagar pelo estrago.
Liao Chengzhi quis assumir o prejuízo, mas Mu Chen sorriu:
— No duelo, o mestre Liao pagou, mas quem está aqui trabalhando sou eu, então é minha responsabilidade.
O valor não era alto, então Liao Chengzhi acabou aceitando. Além disso, já percebera que Mu Chen não era apenas um “artista de rua”, mas que estava gravando um programa. Alguém assim certamente não precisava de dinheiro. Discutir por uma quantia tão pequena seria descortês.
Depois de pagar, o que restou do dinheiro ganho foi pouco. Contudo, Mu Chen não se preocupou e acompanhou Liao Chengzhi até sua academia.
A academia de Liao Chengzhi era ampla, de arquitetura claramente inspirada na tradição chinesa. Havia muitos alunos, tanto chineses quanto estrangeiros. Quando Mu Chen e sua equipe entraram, vários alunos os observaram curiosos, especialmente ao perceberem a presença de câmeras.
— De que linhagem é o mestre Mu? — perguntou Liao Chengzhi.
— Desde criança aprendi com meu avô, que foi discípulo de Li Shutong — respondeu Mu Chen, sorrindo.
— O “Tiro Sagrado”, Li Shutong? — Liao Chengzhi olhou surpreso. Li Shutong foi um grande mestre do Baji na transição entre as dinastias Qing e o início da República, conhecido como “Tiro Sagrado” e também “Deus das Artes Marciais”, de grande renome.
“Punho firme, sem igual, Tiro Sagrado Li Shutong!”
— E o nome de seu avô? — perguntou Liao Chengzhi, demonstrando certa emoção.
— Mu Qingshan — respondeu Mu Chen, notando o entusiasmo de Liao Chengzhi, talvez realmente houvesse algum laço entre as famílias.
— Me desculpe! — Liao Chengzhi pediu desculpas e foi fazer uma ligação num canto. Falou baixo, mas Mu Chen ouviu claramente. Seria isso um encontro inesperado de compatriotas em terras estrangeiras?
Após retornar, Liao Chengzhi disse:
— Veja só, somos mesmo da mesma escola. Meu pai também foi discípulo de Li Shutong! O nome dele é Liao Yunhai. Seu avô mencionou esse nome alguma vez?
Mu Chen balançou a cabeça.
Liao Chengzhi pareceu ainda mais convencido de que partilhavam as mesmas raízes.
— Eu e seu avô nunca nos encontramos, na verdade, ele não conheceu nenhum de nós, irmãos de escola — disse um senhor idoso que acabava de entrar, sorrindo.
Liao Chengzhi apressou-se em ceder o assento, Mu Chen também se levantou imediatamente e o saudou respeitosamente. Independentemente do grau de parentesco, era preciso manter a cortesia.
Logo que Mu Chen se ergueu, Li Ruoxi também ficou de pé.
— Sentem-se, não há estranhos aqui — disse Liao Yunhai, sorrindo. — Seu avô é da região de Bashu, não é?
— Sim — confirmou Mu Chen.
— Naquele tempo, nosso mestre foi a Bashu e lá permaneceu por dois anos. Quando voltou, disse ter aceitado um jovem extremamente talentoso como seu último discípulo. — Liao Yunhai contou, — Só foi uma pena que a propagação do Baji não pudesse contar com ele.
Mu Chen ficou surpreso, mas logo entendeu.
— Por quê? — perguntou Liao Chengzhi, curioso.
— Também perguntamos isso na época — disse Liao Yunhai, olhando para Mu Chen. — Quando as tropas de Sichuan foram combater os invasores japoneses, seu avô se alistou!
— No campo de batalha, a vida depende do destino. Não importa o quão habilidoso seja, ninguém pode garantir que sobreviverá — continuou Liao Yunhai. — E como ficou seu avô depois?
Tendo um neto ali, e ainda transmitindo o kung fu, era claro que sobrevivera. Liao Yunhai queria saber mais sobre o destino do avô de Mu Chen.
— Quando as tropas se dispersaram, meu avô ingressou no Exército de Libertação e, mais tarde, foi ferido gravemente na Guerra da Coreia, retirando-se e voltando para casa — respondeu Mu Chen, sorrindo.
— E hoje, como está seu avô? — perguntou Liao Yunhai, ansioso.
— Assim como o senhor, está muito bem de saúde — riu Mu Chen.
— Que ótimo! — Liao Yunhai sorriu satisfeito.
O avô de Mu Chen já passava dos oitenta, mas Liao Yunhai provavelmente era ainda mais velho. Quem pratica artes marciais tem naturalmente uma saúde superior.
Se não fosse pelas feridas de guerra, o avô de Mu Chen estaria ainda melhor.
A conversa se desenrolou e Liao Yunhai não resistiu em compartilhar histórias do passado da escola. Mu Chen ouvia atentamente, respondendo quando necessário. Como era de se esperar, Liao Yunhai, já idoso, logo se cansou e foi persuadido por Liao Chengzhi a se retirar.
Mu Chen e Liao Chengzhi continuaram conversando sobre técnicas de luta. Li Ruoxi raramente intervinha, mas estava surpresa. Não esperava que Mu Chen encontrasse alguém da mesma escola ali, muito menos que seu avô fosse um veterano de guerra, que até lutara na Coreia.
A noite caiu lentamente.
Jantar, acomodação, tudo foi providenciado por Liao Chengzhi, sem dar chance para recusa. Mu Chen também não pretendia rejeitar. Afinal, não estava violando as regras do programa. Era pura coincidência encontrar um irmão de escola em terras estrangeiras.
Após um farto jantar, Mu Chen e Li Ruoxi estavam recostados no sofá assistindo televisão, enquanto Li Chao e Xie Li, de semblante abatido, sentavam-se numa esquina da rua.
— E os outros, como estão? — perguntou Li Chao a um membro da equipe do programa, buscando algum consolo.
— Zhou Liang conseguiu um trabalho temporário numa piscina; Deng Jialin foi modelo por um dia num shopping. Ambos ganharam o suficiente para custear comida e hospedagem.
— O professor Liu está cantando num bar agora. Os ganhos...
— E Mu Chen e Li Ruoxi? — perguntou Xie Li.
Cantar em bar certamente rendia mais que suficiente.
— Mu Chen desenhou um círculo numa praça, apostou cem, cobrando vinte por tentativa: quem conseguisse empurrá-lo ou acertá-lo para fora do círculo em um minuto, ganhava.
— Com aquela habilidade, deve ter faturado bem — Li Chao comentou, fazendo pouco caso.
Ter uma técnica, de fato, poupava preocupações.
— Ganhou um bom dinheiro, mas depois, ao duelar com um mestre chinês, quebrou várias lajotas do piso e quase tudo foi para pagar o prejuízo.
— Então, eles também vão acabar dormindo na rua? — Li Chao, agora um pouco animado, sentiu-se aliviado.
— Sabem onde eles estão? Vamos procurar e nos unir — sugeriu Xie Li.
— O mestre chinês os convidou para a academia e...
— E depois comeram, beberam e dormiram bem? — reclamou Li Chao. — Isso é injusto!
— Parece que o mestre chinês era da mesma escola que Mu Chen — explicou o membro da equipe.
— Aí é que não faz sentido! Até aqui eles encontram colegas de escola, e eu não encontro nem um fã? — lamentou Li Chao.
— Li Chao!
— Xie Li!
— Não é o Li Chao e a Xie Li? — algumas vozes surpresas se fizeram ouvir, e alguns chineses próximos os reconheceram com entusiasmo, como se fossem seus fãs.
Li Chao: ...