9 Gratidão

O décimo ano após minha morte Yun Chifre 4848 palavras 2026-03-04 16:59:38

O garçom conduziu Fu Yancheng para dentro do restaurante, perguntou quantas pessoas iriam jantar e o levou até uma mesa para dois, entregando o cardápio: “Pode dar uma olhada no menu, chame-me quando quiser pedir.”
Fu Yancheng assentiu com a cabeça, levantou o olhar e percebeu que a garota ainda estava parada na entrada, olhando ao redor. Ele bateu levemente com os dedos na mesa: “O que foi, quer sentar em outra mesa?”
“Eu estava pensando em sentar perto da vitrine…” Ji Fanling esticou o pescoço olhando para a cozinha, tentando encontrar a figura da tia Jiang.
A cozinha dos Macarrões da Família Jiang era aberta, separada apenas por um grande vidro que permitia aos clientes verem todo o processo de preparo dos pratos. Lá dentro, alguns cozinheiros de chapéu branco picavam legumes e amassavam massa, concentrados.
Fu Yancheng, segurando o sobretudo em uma mão, levantou-se.
“Deixa pra lá,” Ji Fanling mudou de ideia, “vamos ficar aqui mesmo.”
Fu Yancheng lançou-lhe um olhar frio.
Ji Fanling explicou em voz baixa: “Acho que conheço a dona daqui, costumava vir aqui comer com frequência. Naquela época, o restaurante ficava em outro lugar, na rua de lanches da escola… Sabe?”
“O que você acha?” Fu Yancheng não respondeu diretamente.
Ji Fanling calou-se, e então viu uma mulher na cozinha virar-se e conversar com um dos cozinheiros.
Ela tinha sobrancelhas delicadas e o rosto oval, parecia viver bem, pois dez anos se passaram e ela pouco havia mudado: continuava com a pele rosada e saudável, até um pouco mais cheia.
“Aquela é a tia Jiang,” murmurou Ji Fanling.
O homem baixou os olhos, enquanto a garota, observando a tia Jiang, se distraía conversando com ele, inclinando-se sobre a mesa, ficando bastante próxima.
Seus cílios eram longos e a sombra deles caía sobre o rosto pálido.
A respiração era sutil.
Dava a impressão de que lhe confidenciava um segredo.
Fu Yancheng fechou os olhos: “Você pretende ir até a cozinha falar com ela?”
“Ah, deixa pra lá.” Ji Fanling lembrou-se das notícias da época: “morreu agindo heroicamente”, “salvou um menino de sete anos”, “os pais do garoto procuraram em vão o benfeitor”…
Pensou que poderia ser perseguida pela família Jiang para agradecer.
A situação seria constrangedora.
“Já viu aqueles filmes de ficção científica? O protagonista com poderes especiais acaba capturado por cientistas obcecados e vira cobaia em experimentos horríveis.”
Ji Fanling ponderou: “Então, o fato de eu ainda estar viva… além das pessoas mais próximas de mim, ninguém mais precisa saber.”
A sobrancelha de Fu Yancheng se arqueou levemente.
Só então Ji Fanling percebeu.
Ao dizer “as pessoas mais próximas”, ela incluía Fu Yancheng.
“Você foi um caso à parte.”
Ji Fanling, meio envergonhada, corrigiu-se: “Você descobriu sozinho, não fui eu quem contou.”
Fu Yancheng a encarou com olhos escuros.
Depois de um tempo, puxou um sorriso de canto: “Era melhor não ter explicado.”
Ji Fanling folheou o cardápio distraída.
… Na verdade, queria mesmo era ver o Pequeno Xing, mas ele provavelmente não estava no restaurante.
Quando baixou o rosto, um rapaz alto entrou correndo pela porta, vestindo uma jaqueta esportiva azul aberta, andou com desenvoltura e entrou direto pelo corredor dos funcionários.
Passou ao lado de Ji Fanling, tão perto que quase se esbarraram, mas a garota nem levantou os olhos. Já Fu Yancheng acompanhou o movimento de canto de olho.
Depois de um tempo, o rapaz saiu da cozinha, agora de avental, trazendo duas tigelas de macarrão e alguns acompanhamentos para uma mesa distante. Sorrindo, disse animado: “Faz tempo que não nos vemos.”
Os clientes daquela mesa eram claramente conhecidos: “Bai Xing, ajudando a família de novo?”
“Sim, é domingo, terminei a lição de casa e vim dar uma mão.”
“Você está em que série? Estudar não é puxado?”
“Segundo ano do ensino médio. E fazer um pouco de exercício físico ajuda a clarear a mente.” A voz do rapaz era cristalina.
Um dos clientes explicou ao outro: “Esse é o filho dos donos, estuda no Colégio Número Um de Beiwan, é ótimo aluno, candidato a Qingbei.”
Ji Fanling: “…”
A garota ficou paralisada, espiou rapidamente como um esquilo e arregalou os olhos.
Pequeno Xing!
Já estava tão crescido!
Ela voltou a se sentar, abaixou a voz: “Viu aquele do segundo ano? Quando o conheci, ele não passava da altura da minha coxa.” Ela gesticulou para Fu Yancheng.
Fu Yancheng: “Então, com sete anos era um anão?”
“…”
Ji Fanling não resistiu e o encarou.
Mas estava tão feliz que, mesmo olhando torto, não conseguia esconder o sorriso.
Bai Xing conversou mais um pouco com os clientes, então percebeu que Ji Fanling e Fu Yancheng estavam olhando o cardápio, aproximou-se com simpatia: “Já sabem o que vão pedir?”
Ji Fanling escondeu o rosto atrás do cardápio, até ouvir a voz do rapaz subir de tom, surpreso e feliz:
“Senhor Fu?!”
Ji Fanling: “???”
O rosto bonito do rapaz ficou corado de emoção: “Senhor Fu, por que não avisou que vinha jantar… Minha mãe sabe? Vou contar pra ela!” E saiu apressado.
Fu Yancheng: “Não precisa.”
“Ah, tudo bem.”
Bai Xing fez meia-volta, ainda sorridente: “Senhor Fu, experimente nosso macarrão da casa ou o macarrão com ovas de caranguejo, exclusivo do outono, também é uma delícia.”
Fu Yancheng não respondeu, olhou para Ji Fanling: “Já decidiu?”

A garota abaixou lentamente o cardápio, mostrando apenas os olhos, que passearam entre os dois: “Vocês… como se conhecem?”
Só então Bai Xing notou a garota sentada diante do homem.
Ela era magra a ponto de parecer frágil, tão pálida que quase transparente, com a franja caindo sobre os olhos e uma expressão naturalmente desdenhosa.
Bai Xing dedicou à amiga do Senhor Fu todo respeito, mantendo a postura ereta e respondeu com dignidade: “Depois que terminei o ensino fundamental, minha família passou por muitas dificuldades. Foi o Senhor Fu quem financiou meus estudos no ensino médio. Este restaurante também é dele, minha família apenas aluga o espaço…”
Fu Yancheng ergueu os cílios, o olhar gelado: “Conta isso pra todo mundo? Por que não pendura uma faixa na porta?”
Bai Xing se calou, constrangido: “Enfim, o Senhor Fu nos ajudou muito…”
Na época, Beiwan estava sendo avaliada para se tornar uma cidade modelo. Os órgãos de fiscalização inspecionaram todos os comércios, descobriram que a licença do restaurante estava vencida e, por falta de renovação, aplicaram uma multa pesada.
O restaurante teve que fechar e, ao mesmo tempo, o contrato de aluguel da casa onde moravam venceu e o proprietário dobrou o valor do aluguel.
Como se não bastasse, o pai de Bai Xing foi diagnosticado com insuficiência renal, acumulando uma dívida enorme.
A ajuda de Fu Yancheng foi providencial.
Ele pagou o tratamento do pai de Bai Xing, financiou seus estudos, alugou o ponto comercial na melhor localização da Praça Yuetong por um preço simbólico e ainda investiu no capital inicial do restaurante.
A família Jiang ficou profundamente grata e até preparou um presente para agradecer pessoalmente.
Bai Xing foi à empresa de Fu Yancheng, perguntou por ele em todos os andares, esperou duas horas na porta da sala de reuniões até finalmente encontrá-lo.
Na época, Fu Yancheng tinha apenas vinte e cinco anos.
O jovem presidente, de terno impecável, era alto, esguio, de uma beleza cortante, caminhava com passos largos, seguido por uma comitiva de funcionários.
Bai Xing correu para chamá-lo: “Senhor Fu!”
Fu Yancheng interrompeu as instruções para a secretária e olhou, franzindo a testa: “Está me procurando?”
Bai Xing, ainda animado, estendeu a cesta de flores com um cartão: “Sou Bai Xing, o rapaz que o senhor ajudou.”
Por um instante, um lampejo de desagrado passou pelo olhar de Fu Yancheng: “Quem deixou você subir?”
“Expliquei o caso pra recepcionista, ela deixou.”
Bai Xing ainda sorria: “Meu pai está melhor e em setembro vou ingressar no Colégio Número Um. Queria agradecer por tudo…”
“Não é necessário, não preciso de agradecimentos.”
Fu Yancheng cortou, frio, e saiu, deixando apenas uma frase gélida:
“— Da próxima vez, evite aparecer na minha frente.”
Os outros seguiram Fu Yancheng, enquanto o adolescente de quinze anos ficou parado, segurando a cesta de flores, desolado.
Ele percebeu que o Senhor Fu não gostava dele.
Talvez até o detestasse.
Mas quem financiaria alguém de quem não gosta?

Talvez seja só impressão.
*
Depois de ouvir Bai Xing, Ji Fanling assentiu.
Não imaginava que Fu Yancheng e Bai Xing tivessem essa ligação.
— Por isso ele a trouxe para jantar ali.
A garota levantou o olhar, observando Bai Xing.
Na infância, ele era tão fofinho quanto um pãozinho, com os olhos e o nariz juntinhos. Agora, os traços estavam mais definidos, limpos e cheios de vida, com uma beleza pura.
Que bom.
O coração de Ji Fanling sentiu um aperto doce e desconfortável. Ela levou a mão ao nariz e perguntou: “Qual sua altura agora?”
“Um metro e oitenta e dois.”
“E os estudos, vão bem?”
Bai Xing, sem entender, respondeu: “Fiquei em primeiro na turma no último trimestre.”
“Muito bom, continue assim.” Ji Fanling aprovou.
Bai Xing: “…”
Era impressão sua ou o olhar dela era cheio de carinho de quem cuida?
Ji Fanling voltou a olhar o cardápio.
Antes, o menu dos Macarrões da Família Jiang tinha só sete ou oito opções, plastificado em papel A4 e colado na janela. Agora, eram várias páginas ilustradas, e o prato mais caro, macarrão com ovas de caranguejo, custava 88.
Evoluíram.
Ji Fanling notou algo no final do cardápio e parou surpresa: “Macarrão simples ainda… custa só três?”
Naquela época, custava três também, mas agora, com um restaurante tão grande e bem localizado, vender por três deve dar prejuízo.
“Minha mãe disse que o macarrão simples da casa nunca vai aumentar de preço,” respondeu Bai Xing.
Por algum motivo, Ji Fanling sentiu o nariz arder.
Deixou o cardápio: “Então quero um macarrão simpl…”
“Um macarrão da casa e um com ovas de caranguejo.” Fu Yancheng entregou o cardápio a Bai Xing.
“Certo!” Bai Xing prontamente anotou.
Ji Fanling: “?”

Ji Fanling: “Mas não era eu quem ia escolher?”
Fu Yancheng: “Você demora demais.”
“Espera aí, Xingzinho.” A garota chamou.
A voz clara soou através do tempo, trazendo uma estranha sensação de familiaridade, atingindo o rapaz como um raio.
Bai Xing parou de repente.
“— Sem amendoim no macarrão, se tiver.” Ela o olhou, apoiando o queixo nas mãos.
“Certo.”
Bai Xing hesitou: “Como sabe meu apelido?”
Como eu sei…
Não é assim que todo mundo chama?
Ji Fanling olhou para Fu Yancheng, tranquila: “Ouvi ele falando.”
Fu Yancheng: “…”
O homem lançou-lhe um olhar silencioso, mas concordou.
Sua presença impunha respeito; o rapaz não ousou perguntar mais: “Ah, claro, foi o Senhor Fu quem contou…” mas a voz foi ficando cada vez mais baixa.
Ele já não era mais criança.
Seu apelido, exceto pela mãe, ninguém mais usava há anos. Nem o Senhor Fu deveria saber.
O rapaz andou alguns passos, mas ainda olhou para trás, para a garota, com um olhar confuso.

Como se tentasse, com muito esforço, lembrar o rosto de alguém esquecido.
*
Cozinha.
Bai Xing puxou a mãe de lado e contou que Fu Yancheng estava ali, mas não queria chamar atenção.
A mãe assentiu imediatamente, falou algo aos cozinheiros e decidiu preparar pessoalmente os dois macarrões para Fu Yancheng.
Bai Xing lavou as mãos e foi ajudar, perguntando: “Mãe, lembra como era o rosto da irmã? Acho que ela tinha uma pinta no lóbulo da orelha.”
Só havia uma pessoa que Bai Xing chamava de “irmã”.
A mãe parou o que fazia: “Você era tão pequeno, lembra de quê? Sonhou com ela de novo?”
“Não foi sonho, tenho boa memória. Você lembra?”
“Não com tantos detalhes.”
Bai Xing descascava os caranguejos, mas não tirava os olhos da garota sentada lá longe: “Ela sempre pedia sem amendoim, não gostava?”
“Ela é alérgica a amendoim,” respondeu a mãe, olhando-o de forma estranha:
“Por que está falando nela hoje? Sonhou com ela? Quando fechar a loja, vamos queimar um pouco de papel pra ela…”
“Tá bom.”
A mãe passou o dorso da mão na testa, amassando a massa com força e murmurando: “Ela só pedia macarrão simples, nunca comeu nada especial aqui. Naquele dia, nem chegou a comer a tigela de macarrão e foi embora…”
A voz, tomada pela culpa, mal podia ser ouvida.
“… Onde estiver, precisa comer bem.”
*
“Hic.”
Ji Fanling engoliu a última colherada de ovas douradas de caranguejo e não resistiu ao arroto de satisfação.
A tigela preparada pela mãe de Bai Xing especialmente para Fu Yancheng estava cheia de acompanhamentos, uma montanha de comida, com três grandes caranguejos fêmea descascados na hora.
Ela, acostumada a comer só para matar a fome, nunca tinha provado nada tão bom, ficou até meio tonta.
“Se está cheia, não coma mais.”
Fu Yancheng piscou, observando a tigela que ela devorou em cinco minutos: “Não costumo te deixar sem comida, né?”
Ji Fanling limpou a boca devagar: “Tudo bem comer devagar, posso te esperar.”
Depois que Fu Yancheng terminou, Bai Xing voltou para acompanhá-los até a porta, recusando-se a aceitar pagamento.
Fu Yancheng não insistiu em gentilezas, vestiu o casaco e se preparou para sair.
Bai Xing apressou-se: “Senhor Fu, como foi a experiência? Alguma sugestão?”
Fu Yancheng: “Nenhuma.”
“Esta é o cartão de sócio do nosso restaurante, usando-o tem desconto e acumula pontos.” Bai Xing entregou o cartão a Ji Fanling.
Ela, pensando nos três reais do macarrão simples, aceitou e guardou no bolso.
“Ah, quando pediu pra não colocar amendoim, é porque acha que não combina com macarrão?” Bai Xing perguntou casualmente.
“Nada disso.”
Ji Fanling jogou o cabelo atrás da orelha, mostrando a pequena pinta no lóbulo.
“— Sou alérgica a amendoim.”