Líder

O décimo ano após minha morte Yun Chifre 5565 palavras 2026-03-04 16:55:32

— Jian Fanling?

Jian Fanling levantou-se de um salto: — Ei!

O universitário ao lado ficou boquiaberto: — ...Caramba!

Jian Fanling tinha ficado agachada tempo demais e se levantou rápido demais; os joelhos estavam fracos, o sangue subiu com força até o topo da cabeça, misturando-se ao som apressado do coração.

Ela fechou os olhos por um instante, se recompôs, e então deu alguns passos até o carro.

O ar quente do carro escapava pela janela aberta, envolvendo-a de imediato.

Ela baixou a cabeça, curiosa, e observou o rosto do homem, não resistindo a sorrir: — Eu disse que você se parece com Fu Yingcheng, não disse?

A garota ficou ao lado do carro, saindo do abrigo da chuva do beiral. A água escorria pelo pescoço, infiltrando-se pelo colarinho, e ela tremia de frio, os lábios já esbranquiçados.

Fu Yingcheng franziu as sobrancelhas: — Entre no carro.

Jian Fanling, imersa na alegria de reencontrar um conhecido em terra estranha, respondeu-lhe debaixo da chuva: — Você me reconheceu na rua agora há pouco? Como conseguiu? Eu achei que...

A porta do carro se abriu por dentro, Fu Yingcheng sentado, olhando para ela com um olhar indescritível.

— Entre no carro — disse ele, com a frieza úmida da chuva.

— ...Certo — respondeu Jian Fanling.

Não sabia se era Fu Yingcheng quem sentia frio, mas a diferença de temperatura entre o lado de dentro e o de fora do carro era gritante. Assim que entrou, foi imediatamente envolvida pelo calor do ar, e o banco aquecido parecia um edredom recém-saído do sol.

Jian Fanling abaixou os olhos e viu que tinha sujado o tapete felpudo com a sola dos sapatos. Incomodada, moveu os pés e, virando-se, buscou confirmação: — Você realmente me reconheceu, não foi?

Fu Yingcheng mantinha uma expressão serena, como se não tivesse a menor curiosidade sobre aquela antiga colega que ressurgia após dez anos de sumiço.

— Eu sei que você é Jian Fanling — respondeu ele, apenas.

Só aquela frase já bastou para que o coração dela, que pairava incerto desde o início, finalmente encontrasse algum sossego.

...

Ainda havia quem soubesse seu nome.

De repente, o mundo parecia menos estranho do que parecia há pouco.

— Eu morava aqui perto antes, acabei de passar em casa — Jian Fanling tentava se explicar. — Mas Ji Guoliang — meu pai — se mudou, não atende o telefone, talvez tenha fugido, ou, na melhor das hipóteses —

O tom da garota era totalmente neutro. — Talvez tenha morrido.

O motorista lançou-lhe um olhar surpreso pelo retrovisor.

— Como dizer... bem ali no cruzamento onde você me viu — continuou ela.

Jian Fanling lançou um olhar ao motorista, aproximou-se de Fu Yingcheng e baixou ainda mais a voz: — Fui atropelada ali, e quando acordei, já estava aqui.

Ela assentiu, com um olhar que dizia “agora você entende, não é?”

— Foi isso — disse Fu Yingcheng, aceitando a explicação sem sentido, olhando-a com atenção.

A garota estava magra demais, mais do que ele lembrava; o rosto pequeno parecia ainda mais pálido sob a penumbra, lavado pela água, simples e límpido.

As gotas acumuladas nos cílios ameaçavam rolar para dentro dos olhos.

Fu Yingcheng ergueu a mão, pegou dois lenços e lhe entregou.

Jian Fanling ainda ouvia a voz do universitário ecoando em sua mente, falando de “rodas de ferro”, “turbocompressor”, “bancos de couro”; pegou os lenços e, distraída, limpou a água do banco.

A luz dos postes passava rápida pela janela, e o olhar de Fu Yingcheng escureceu, tornando-se insondável.

Jian Fanling, alheia ao olhar dele, terminou de secar o banco e, desconfortável, esfregou os olhos: — Você tem Q.Q no celular? Posso usar para acessar minha conta?

— Tenho — respondeu Fu Yingcheng, tirando o telefone do bolso. De repente, pareceu hesitar, tensionando os dedos antes de lhe passar o aparelho.

Jian Fanling digitou sua conta e senha, mas fazia tantos anos que não entrava que o Q.Q exigiu um código de verificação no celular.

Ela não tinha telefone; na época, registrou-se usando o número de outra pessoa. Por mais que tentasse, não conseguiu acessar.

Desistiu.

Fu Yingcheng relaxou levemente, pegou o telefone de volta, girou a tela entre os dedos e perguntou, calmo: — Quem você quer contatar?

— Cheng Jiali — os olhos dela brilharam ao falar do namorado. — Você deve estar nos grupos do colégio ou de ex-alunos, pode pedir a alguém da turma o contato dele.

Fu Yingcheng levantou os olhos, encontrando o brilho dos dela.

Por um instante, o tempo pareceu se esticar ao máximo.

A atmosfera tensa se rompeu, e as memórias, embelezadas pelo tempo, foram rasgadas com brutalidade pelo reencontro de lembranças vivas.

Depois de tanto tempo, ainda doía.

Pela primeira vez em dez anos, o homem desviou o olhar, recostando-se na poltrona.

Então, riu baixo.

De puro sarcasmo.

— ?

— Não estou nos grupos — disse ele, sem emoção. — Além disso, não adiciono qualquer pessoa.

Jian Fanling forçou um sorriso: — Mas você conhece os colegas de turma, ao menos pode mandar mensagem para Zhou Sui?

— O que devo dizer?

— Diga que me viu... Liguei para ela, não acreditou, me bloqueou.

— Quer que ela me bloqueie também?

Jian Fanling ficou em silêncio.

Realmente, não importava como Fu Yingcheng tentasse explicar; à distância, Zhou Sui pensaria que ele teve a conta invadida ou que enlouqueceu.

— Não é hora de procurar alguém — disse Fu Yingcheng, frio. — Amanhã pergunto onde ela está, e você fala com ela pessoalmente.

— Certo — assentiu Jian Fanling.

Após mais vinte minutos de viagem, o Maybach entrou em um condomínio de luxo e parou em frente ao prédio.

— Chegamos, senhor Fu — avisou o motorista.

— Aonde viemos? — Jian Fanling olhou assustada pela janela, percebendo que nem perguntou o destino ao entrar no carro.

— Minha casa — respondeu Fu Yingcheng.

— Então pode me deixar em... — Ambos, Fu Yingcheng e o motorista, a olharam, e ela hesitou, constrangida. — Algum hotel mais simples aqui perto?

— Tem documento de identidade? — perguntou Fu Yingcheng.

Jian Fanling, sem alternativa: — ...Me empresta o seu?

— E dinheiro, tem? — insistiu ele.

— Tenho... — Ela apertou as moedas no bolso, desviando o olhar. — Falta um pouco.

— Também vai querer o meu?

— E amanhã?

— Vai pedir de novo?

...

O tom do homem não era agressivo, era grave, tranquilo, pronunciando cada palavra devagar.

A voz tinha uma frieza natural, de quem está acima do resto.

Jian Fanling calou-se.

A relação entre ela e Fu Yingcheng talvez fosse um pouco melhor que a de colegas comuns, mas não chegava a serem amigos.

Dez anos sem se ver, e já pedindo dinheiro.

No mínimo, era abusado.

O silêncio pesou no carro.

O motorista arriscou: — Eu posso levá-la a um hotel aqui perto... — Viu o olhar de Fu Yingcheng pelo espelho e calou-se.

— Já está tarde, não faça o senhor Chen perder o fim do expediente.

Fu Yingcheng fez um gesto com o queixo: — Desça.

Jian Fanling desceu.

A chuva tinha parado, a água acumulada no chão refletia a lua por trás das nuvens, e as solas úmidas faziam um som de esponja ao pisar.

A garota enfiou as mãos nos bolsos e caminhou para fora do condomínio.

Aquele bairro era caro; os hotéis custavam pelo menos o dobro do preço dos arredores da escola. Se soubesse, não teria aceitado a carona.

Ainda pensava nisso quando ouviu uma voz atrás:

— Vai para onde?

— Não peguei seu dinheiro, por que quer saber? Não vai me cobrar o transporte, vai? — Ela se virou, sem expressão.

— Quero dizer que, se ficar na minha casa, não precisa de documento, nem de dinheiro.

O homem, de postura elegante e altiva, estava parado sob a luz da entrada do prédio, observando-a com calma:

— Tem um quarto de hóspedes, não é tão bom quanto um hotel, mas serve. Vai ficar?

— Sério? — Jian Fanling hesitou, mas logo correu de volta. — Sua casa é ótima, pode ser, obrigada... colega flor-de-lótus.

Não muito longe, o motorista quase trocou o freio pelo acelerador ao ouvir aquilo.

...

Ele conhecia o estilo do senhor Fu; quando estava ocupado, cada segundo era precioso, e problemas se resolviam com dinheiro, nunca com tempo.

Pelo jeito informal com que ela lhe falava, talvez fosse parente, amiga da família? Mesmo assim, deveria reservar um quarto para ela, coisa de duzentos, trezentos por noite, e para alguém como Fu Yingcheng, poderia pagar o ano inteiro sem pestanejar.

— Por que, então, levá-la para casa por tão pouco?

O motorista não entendia.

De fato.

Era estranho, como se fosse obra do diabo.

*

O apartamento de Fu Yingcheng tinha um estilo sóbrio e frio, sem qualquer calor de lar; tons de preto, branco e cinza, ambiente vazio, mais parecido com um escritório do que uma casa.

Grandes espelhos pretos tornavam o espaço austero e linear, limpo até em excesso. Até os sapatos na sapateira estavam alinhados na mesma direção.

Ao entrar, a primeira coisa que Fu Yingcheng disse foi para ela tomar banho.

Jian Fanling sentiu que, para ele, ela devia parecer um monte de lama, sujando tudo por onde passava, então não contestou e foi ao banheiro.

Só quando já estava lavando percebeu que todos os produtos não tinham nada escrito em caracteres chineses; não fazia ideia do que servia para quê.

Sem coragem de perguntar, usou o melhor do seu inglês e foi traduzindo um a um, até encontrar algo que parecia xampu.

Suas roupas estavam completamente molhadas; ao sair do banho, pensou em vesti-las mesmo assim, mas viu que Fu Yingcheng tinha deixado um pijama para ela.

... Provavelmente para não sujar a própria cama.

O pijama era de um cinza escuro macio, novo, lavado, mas nunca usado.

No corpo dela parecia uma fantasia de teatro, arrastando pelo chão.

Ela mesma dobrou as mangas e as barras, segurando a calça pela cintura, arrastando chinelos grandes demais, andando aos tropeços.

Fu Yingcheng saiu da cozinha, trazendo uma panela de macarrão.

Apesar de ser um lanche rápido, ele acrescentou fatias de carne e camarão do freezer, caldo de frutos do mar, e um ovo de gema mole no topo.

Jian Fanling olhou para o macarrão e desviou o olhar, impassível.

Seu estômago, porém, roncou alto duas vezes.

Fu Yingcheng, ao vê-la, lançou-lhe um olhar casual, desviando em seguida: — Fiz demais, quer comer?

— É, à noite, se não comer, gruda tudo. Posso ajudar a comer um pouco — ela se aproximou, olhando o prato. — Só o macarrão está bom, sem os acompanhamentos, não estou com fome.

Fu Yingcheng a olhou: — Está enganada, nem pensei em te dar.

Jian Fanling: — ...

Pois sim.

Ia agradecer, mas desistiu de repente.

Sentou-se para comer, enquanto Fu Yingcheng ocupava o lugar ao lado, pegando os hashis, mas logo atendeu ao telefone.

Ouviu poucas palavras, levantou-se, tocou a mesa com o dedo e disse, indiferente: — A empresa tem uma urgência, coma o meu também.

Jian Fanling, mastigando o macarrão, murmurou um "tá bom" e puxou o prato dele para si.

...

Duas tigelas de macarrão não eram nada para quem estava faminta há dez anos.

Ela devorou tudo, até o caldo.

*

No escritório.

O interlocutor do outro lado não ouvia resposta e gritou: — Alô, Fu Yingcheng, está ouvindo?

A silhueta alta do homem cruzava as estantes de madeira, refletindo-se no vidro do armário.

No reflexo, um rosto sem expressão o encarava.

A voz estridente do telefone se tornava confusa, perdida nos pensamentos dispersos, quase irreal.

— Fu Yingcheng, alô! — insistiu.

— Como não estou ouvindo? — Ele finalmente voltou a si, afrouxando o colarinho com uma mão, respondendo frio: — Quando é que você liga sem ser para falar besteira?

— Besteira? Como assim? Você não disse que ia voltar rapidinho? Volte logo! Segurei o dia todo aqui! Os alemães cheiram a perfume, parecem gorilas de pelúcia, e ainda falam inglês com sotaque, quase vomitei!

Su Lingqing parecia ter levado um soco no peito de um gorila.

Eles estavam na Alemanha, em Düsseldorf, na feira MEDICA de equipamentos médicos. Deveriam ficar sete dias, mas Fu Yingcheng resolveu tudo, saiu sem avisar e voltou sozinho para Beiyuan.

Levantou-se às três da manhã, treze horas de voo, ficou quatro horas lá, depois mais treze horas de volta... uma agenda digna de militar.

Su Lingqing não entendia.

Que urgência assim o fez viajar tanto?

— Aconteceu algo... imprevisto — respondeu Fu Yingcheng, frio. — Não volto amanhã.

— O quê?! Mudou o voo? Ninguém me avisou!

— Decidi agora.

— Desde quando você muda seus planos... espera — de repente, Su Lingqing ficou sério — não me diga que é algo com sua avó?

Ele conhecia a família de Fu Yingcheng: mãe ausente há anos, pai na prisão.

A única pessoa importante para ele era a avó, que o criou.

— Ela está bem, pare de imaginar coisas — Fu Yingcheng franziu a testa.

— Não me assuste, então é que... — Fu Yingcheng: — Não é nada, vou desligar.

— Como assim desligar, você nem disse o que houve!

Fu Yingcheng hesitou, mas mudou de assunto: — Conhece alguém no cartório? Preciso providenciar RG e registro para alguém.

— Agora de cabeça não lembro, mas certamente conheço — respondeu Su Lingqing, sempre cercado de amigos. — Por quê, não dá pelo canal normal? Quem é? Recém-nascido?

— Dezessete anos. Garota. Sem bens. Sem registro.

Su Lingqing ficou em silêncio.

A voz dele subiu: — Fu Yingcheng, não me diga que voltou para ajudar alguém a entrar ilegalmente no país?!

*

Fu Yingcheng desligou, ficou mais um tempo no escritório, depois se recompôs e voltou para o jantar.

A mesa já estava vazia e limpa.

A garota estava esparramada, de barriga cheia, junto à mesa.

— Comeu tudo? — perguntou ao ver tudo lavado e organizado na cozinha.

Jian Fanling o olhou, ressentida, e soltou um arroto sonoro.

Fu Yingcheng: — ...

— Da próxima vez, faça menos macarrão — ela fez um pequeno círculo com os dedos. — Para você sozinho, essa quantidade já está boa.

— Se não fosse por mim hoje, teria jogado tudo fora.

— Pedi sua ajuda, não para se sacrificar — disse ele, com um leve tom de desagrado.

— Fazer o quê, eu sou assim, sempre pronta a ajudar — ela respondeu, levantando-se com dificuldade. — Enfim, preciso me deitar... pelo menos amanhã não preciso comer.

Arrastando os chinelos, ela se afastou. Fu Yingcheng foi para a cozinha, limpou a bancada, guardou a louça... tarefas simples, mas era o único jeito de acalmar a mente, que doía e estava confusa.

O som dos chinelos ecoou, ela voltou e parou perto dele.

A voz lenta chamou: — Fu Yingcheng.

Ele estava junto à pia, despejando água fervente na jarra.

Parou por um instante, com uma ponta de ironia na voz: — O que foi, comeu demais?

— Não... Só me ocorreu agora, dez anos atrás, naquela noite... por que você queria me ver?

— Você pediu para Zhou Sui me avisar, às sete no terraço.

— Você sabe, eu não consegui ir — ela coçou o nariz, baixando a voz. — ...Desculpa.

A água fervente espirrou, queimando a mão do homem.

Mas ele não se moveu, como se não sentisse dor.

Baixou lentamente o olhar, as pálpebras projetando uma sombra escura.

— Quanto tempo faz...

Depois de um tempo, ele respondeu, sem se virar:

— ...Já nem lembro mais.