Falsa Alarme

O décimo ano após minha morte Yun Chifre 4316 palavras 2026-03-04 16:55:37

Seis da manhã.

O som claro e delicado dos pássaros chega pela janela. O despertador acabara de tocar e foi silenciado por uma mão grande, fria e pálida. Os hábitos de Fú Yingcheng são regulares; não importa a que horas se deite ou se consiga dormir, às seis ele acorda pontualmente.

Neste horário, Ji Fanling certamente ainda dorme.

Talvez por se sentir constrangida em ser tratada como hóspede, ela não fechou a porta do quarto de hóspedes na noite anterior.

Fú Yingcheng parou. Olhou da entrada para dentro: uma cama de um metro e oitenta, espaçosa até para dois, e a menina estava encolhida num canto.

A luz da manhã, dourada e tênue como um véu, penetrava pelas frestas da cortina, envolvendo tranquilamente o pequeno volume sob o edredom.

Movia-se ao ritmo da respiração, subindo e descendo. Tão real, que até os fios de cabelo espalhados sobre o travesseiro eram visíveis.

Mas ao mesmo tempo, era irreal. Parecia que realidade e sonho se encaixavam de maneira abrupta: o quarto habitual e a presença de alguém que não deveria existir.

Fú Yingcheng fitou aquele quadro por um momento, silencioso, e fechou a porta para ela.

*

Do outro lado da cidade, a luz escassa da manhã banhava uma clínica particular.

Yang Mingzhe estacionou rapidamente o carro, atravessou o corredor, entrou no consultório, pendurou o casaco e encontrou o registro de consultas com o nome do paciente “Fú Yingcheng”, sentando-se à mesa para revisar.

Normalmente, Fú Yingcheng era alguém apressado, pegava a medicação e partia. Mas hoje, surpreendentemente, solicitara uma consulta de urgência.

— Bem estranho.

Às sete em ponto, a porta do consultório se abriu.

O homem era de aparência elegante, alto, vestindo um sobretudo de lã negro, caminhando rápido e emanando uma aura distante e fria. Os olhos profundos, sombreados de azul.

— Quanto tempo, senhor Fú — disse Yang Mingzhe, sorrindo.

— Lembra-se de Ji Fanling? — Fú Yingcheng foi direto ao assunto.

Yang Mingzhe ficou surpreso.

Era há quatro ou cinco anos. Na época, Fú Yingcheng trabalhara meses sem descanso para o desenvolvimento da empresa e, numa noite chuvosa de outono, entrou em seu consultório.

Seu estado era diferente do habitual.

Cansado, abatido, como um edifício prestes a desabar.

Sentou-se no sofá, cotovelos nos joelhos, a camisa branca esticada marcando os músculos das costas e ombros, o rosto profundamente enterrado nas mãos largas.

— Esta semana quase não dormi — murmurou, rouco, após um tempo.

— …Acabei de dormir um pouco, e sonhei com ela novamente.

Yang Mingzhe perguntou: quem?

Foi a primeira vez que ouviu o nome Ji Fanling da boca de Fú Yingcheng.

Yang Mingzhe percebeu rapidamente: talvez ela fosse a origem de todos os problemas psicológicos de Fú Yingcheng. A notícia do acidente fatal de Ji Fanling estava fácil de encontrar online.

Infelizmente, Fú Yingcheng só mencionou brevemente, nunca quis falar mais desde então.

— Lembro — respondeu Yang Mingzhe.

— Eu a vi ontem — disse Fú Yingcheng, tranquilo.

Ah???

A ponta da caneta de Yang Mingzhe parou abruptamente; ele manteve a calma e perguntou:

— E então?

— Levei-a para casa, cozinhei um macarrão para ela, deixei que ficasse.

— Esta senhorita Ji, se parece com a pessoa de suas lembranças, ou…?

— Exatamente igual — respondeu Fú Yingcheng, sem emoção.

— Igual ao terceiro ano do ensino médio, vestida como naquele dia, sabia de tudo que aconteceu, fazia exatamente o que ela faria.

— Ela é Ji Fanling — concluiu Fú Yingcheng.

No consultório, com uma voz serena, dizia algo que dava arrepios.

Parecia o início de um filme de terror ruim.

Yang Mingzhe ficou em silêncio, largou a caneta.

— Primeiro, vamos estabelecer um consenso básico…

— Dez anos atrás, a senhorita Ji morreu num acidente de carro ao tentar ajudar alguém. Concorda com isso?

— Ela desapareceu.

— Certo.

Yang Mingzhe não discutiu a diferença entre desaparecimento e morte sem vestígios.

— Vamos a outro consenso: se Ji não tivesse morrido, hoje ela, de qualquer modo, não seria exatamente igual àquela época. Concorda?

Desta vez, Fú Yingcheng permaneceu calado por muito tempo.

— Concordo.

— Ótimo. Deixando de lado explicações sobrenaturais, temos duas hipóteses.

— Um: essa garota existe, parece muito com Ji, e seu cérebro confunde as duas, fazendo você acreditar que ela é Ji.

— Dois: essa garota não existe.

Yang Mingzhe não disse o restante.

— Ela é inteiramente uma criação da sua imaginação.

— Esperamos que seja o primeiro caso — sugeriu Yang Mingzhe, delicadamente.

Consciência clara, inteligência preservada, mas com alucinações e afirmação de ver mortos: sintomas típicos de esquizofrenia.

Fú Yingcheng fitou-o intensamente e falou com aspereza:

— Vai me receitar olanzapina e risperidona?

Ambos medicamentos contra esquizofrenia.

Yang Mingzhe: …

Por favor, não seja mais entendido do que eu.

Fú Yingcheng não era médico, mas formou-se em Engenharia Biomédica na Universidade B, fundou a líder nacional em equipamentos médicos, Jiuzhou, que foi listada na Bolsa de Nova York no ano passado.

O novo aparelho de estimulação magnética transcraniana do consultório de Yang Mingzhe fora comprado da Jiuzhou.

— Não vou diagnosticar precipitadamente — respondeu Yang Mingzhe.

— Tente deixar de lado a experiência de ontem, recupere a verdadeira Ji em sua memória, aceite no coração que ela já se foi; talvez enxergue que a pessoa de ontem não era Ji.

— Ou, quem sabe, ao voltar para casa, ela já tenha desaparecido.

Yang Mingzhe ajustou a luz do consultório, guiando devagar:

— Agora, feche os olhos, respire fundo, relaxe…

*

O carro preto cruzou rapidamente os quebra-molas e entrou na garagem subterrânea do condomínio.

Fú Yingcheng estacionou, desligou o motor, ficou sentado por um tempo e pegou os medicamentos recém-prescritos para examinar um a um.

Ecoava na memória o conselho de Yang Mingzhe:

— Uma sessão não basta; por ora, duas vezes por semana.

— Seja qual for o caso, é melhor não interagir mais com essa “senhorita Ji”.

— Alimentar fantasias só aprofunda o abismo.

— Senhor Fú, você é sensato.

Fú Yingcheng hesitou, largou os medicamentos no porta-luvas, fechando-o com força, e saiu do carro.

Ao entrar em casa, percebeu uma diferença sutil.

Limpeza excessiva.

Choveu ontem; quando Ji Fanling entrou, deixou inevitáveis marcas de sapato junto à porta. Agora, tudo estava impecável… como sempre.

Lembrava-se de ela tirar os tênis velhos e os alinhar ao lado do armário. Sumiram.

Uma pontada aguda percorreu sua cabeça.

Chamou:

— Ji Fanling?

Silêncio.

Avançou para dentro, com o coração afundando a cada passo.

O copo que ela usara na mesa, a escova de dentes nova no banheiro, a toalha que ela usara ontem… nenhum vestígio.

A porta do quarto de hóspedes estava aberta.

Fú Yingcheng parou na entrada, olhando.

A cama estava perfeitamente arrumada, sem um vinco, como se ninguém tivesse dormido ali por muito tempo.

— Desapareceu mesmo — murmurou, quase inaudível.

— O que desapareceu? — uma voz feminina, clara e cristalina, soou atrás.

O sino de vento pendurado no alto foi agitado pela brisa, emitindo um “ding” delicado.

Fú Yingcheng se enrijeceu, virando-se devagar.

A menina usava seu pijama, a cabeça inclinada, os olhos negros e vivos, espiando com curiosidade:

— Procurando o quê?

Uns segundos de pausa.

Fú Yingcheng perguntou, sério:

— Chamei você, por que não respondeu?

— Ah, chamou? — Ji Fanling apontou com o queixo para a varanda. — Eu lavei os sapatos, estava colocando para secar.

— E as outras coisas?

— Você diz isso?

Ji Fanling tirou de trás da porta um saco plástico, onde estavam escova de dentes, elásticos, refis de caneta e outros objetos, com seu nome rabiscado em marcador preto:

— Guardei tudo.

No ensino médio, Fú Yingcheng era famoso não só pelo desempenho, mas pelo perfeccionismo.

Rapazes eram geralmente descuidados, suados, deitavam-se em qualquer lugar, mas Fú Yingcheng era diferente: sempre limpo.

As garotas apaixonadas diziam que ele era como a lua: imaculado, sempre distante.

Na Olimpíada esportiva do primeiro ano, Fú Yingcheng venceu os três mil metros, deixando o segundo lugar meia volta atrás. Ao sair da pista, os colegas o aclamaram, abrindo espaço para ele se sentar.

Exausto, ele olhou para as arquibancadas empoeiradas e respondeu, frio:

— Não precisa, está sujo.

Parecia intolerável sequer tocar algo impuro.

Ji Fanling, ao se hospedar, adotou os costumes da casa e passou a manhã tentando diminuir sua presença.

Embora estivesse ali.

Mas era como se não existisse!

Isso deveria, no mínimo, emocioná-lo.

Fú Yingcheng, contudo, não parecia tocado.

Com o rosto baixo, de traços profundos, o olhar escuro subiu do saco de objetos até os dedos da menina… antes mesmo do inverno, seus dedos já estavam rachados pelo frio.

Olhou fixamente para o rosto dela.

Fechou os olhos por um instante, o pomo de Adão movendo-se discretamente.

Aceitou.

Ao falar novamente, sua voz recuperou a habitual frieza, levantando o queixo:

— Coloque as coisas onde devem estar.

Ji Fanling: …ok.

Ele atravessou a sala, viu as roupas secando na varanda e franziu o cenho:

— Use a máquina de lavar, você molhou a varanda inteira.

Ji Fanling veio, apertando os dentes:

— Cadê a água…

Está saindo da sua cabeça?

— E mais — ele olhou para o chão —, você usou o esfregão?

— Não, usei a cabeça — Ji Fanling respondeu, séria.

— É caro, não use novamente.

Fú Yingcheng lhe lançou um olhar, os olhos sombrios por trás das lentes, o tom frio e distante:

— …Não estrague.

Ji Fanling: …

Que diabos.

Um esfregão pode ser tão caro assim?!

*

Ji Fanling achava que a mania de limpeza de Fú Yingcheng só piorou com o tempo.

Ele não só exigiu que ela recolhesse as roupas e secasse na máquina, mas também, com alguma generosidade, explicou brevemente como usá-la.

Ji Fanling obedeceu, mas não deixou de perguntar:

— Já falou com Zhou Sui?

— Perguntei de manhã, não respondeu. Espere.

Na noite anterior, uma chuva forte deixou o ar úmido, e as roupas secaram ainda menos.

Enquanto esperava, Ji Fanling resmungava: se pudesse, preferia morar com Zhou Sui.

Afinal, Zhou Sui era gentil e maleável, como um pão que todos moldam.

Fú Yingcheng, ao contrário, supervisionava até o uso da máquina de secar, parado junto à janela, observando-a friamente.

Sentada, só podia ver as calças pretas de corte afiado, revelando um pouco do tornozelo, ossos definidos, elegantes.

O olhar intenso caía sobre ela, mais quente que a luz do sol, fazendo até o topo da cabeça arder.

Ji Fanling apoiava o rosto, distraída.

Olhou para ele, olhou de novo.

Por fim, não aguentou, ergueu as pálpebras e falou, neutra:

— Pareço idiota para você?

Fú Yingcheng: ?

— Sua máquina de secar só tem dois comandos, todos antes de secar — ela disse, séria.

— Diga, abrir a porta, tirar as roupas, fechar a porta… qual dessas etapas você acha que eu vou errar?