Cinco privilégios
A varanda permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Logo depois, Fu Yingcheng pareceu achar tudo aquilo absurdo, puxou levemente o canto dos lábios e soltou uma risada.
Sua voz era grave e aveludada, e o som do riso tinha uma profundidade envolvente, como uma pedra lançada no centro de um lago no inverno, levantando ondulações suaves no ouvido.
“Eu disse em algum momento,” Fu Yingcheng falou devagar, “que o que falta em você é inteligência?”
“Não disse que eu tenho pouca inteligência” e “não disse que o que falta em você é inteligência”.
Uma diferença de milímetros, um desvio de quilômetros.
Ji Fanling fez uma careta: “O que você quis dizer, então? O que é que falta em mim?”
No entanto, o homem não quis discutir, virou-se diretamente para a sala de estar.
Ji Fanling não resistiu e gritou um “ei” para as costas dele, mas sua ameaça não conseguiu alcançá-lo a tempo.
Deixa pra lá.
Deixa ele em paz.
Os sábios não brigam no território alheio.
O processo de secar as roupas não foi dos mais agradáveis, mas o resultado foi especialmente reconfortante.
As roupas secas, aquecidas como se tivessem sido expostas ao sol, eram tão aconchegantes que era impossível não gostar. Ji Fanling correu imediatamente para o quarto e trocou de roupa.
À tarde, Fu Yingcheng ficou no escritório, de vez em quando ia à cozinha pegar um copo d’água e aproveitava para lançar-lhe um olhar.
Ji Fanling estava encolhida no sofá da sala, assistindo a um seriado enquanto aguardava a resposta de Zhou Sui.
Não sabia no que Zhou Sui estava tão ocupada; só no começo da noite, quando Fu Yingcheng interrompeu o trabalho, é que a chamou para ver a mensagem recém-respondida por Zhou Sui no Q`Q.
Mensagem que Fu Yingcheng enviara às seis da manhã:
[Colega Zhou, desculpe incomodar, preciso falar com urgência. Onde você está agora?]
Zhou Sui: [Oi?]
Zhou Sui: [É mesmo o Fu Yingcheng?]
Depois de um tempo, Zhou Sui respondeu: [Agora estou no setor de pediatria do Hospital do Povo. O que você precisa?]
“Obrigada, vou agora mesmo!” Ji Fanling deu uma olhada rápida na mensagem e saiu correndo.
Fu Yingcheng a acompanhou, pegou o sobretudo do cabide e as chaves do carro: “Você sabe onde fica o hospital?”
“Sei, não é longe.”
Ji Fanling calçou os sapatos apressada: “Vou de ônibus, volto rapidinho.”
Depois hesitou, coçou o rosto e, devagar, disse: “Ou talvez... não volte.”
Se pudesse ficar na casa de Zhou Sui, melhor ainda.
Fu Yingcheng a fitou por um momento, expressão indecifrável: “Está bem.”
...
“Se não voltar, peça para ela me avisar.”
*
Setor de Pediatria do Hospital do Povo.
Era temporada de gripe no outono e inverno. Mesmo com o anoitecer, a pediatria continuava lotada de pais ansiosos e crianças chorando ou resmungando no colo.
Ji Fanling tentava se orientar no meio da multidão, mas quase todos usavam máscara, dificultando a busca.
Depois de andar para lá e para cá, notou por acaso uma mulher perto da máquina automática de pagamento.
A mulher vestia um casaco de algodão branco, o tronco um pouco volumoso, tirou a máscara, ergueu o rosto para a câmera e, após um instante, voltou a colocar a máscara, pegou o recibo e caminhou.
No instante em que ela pôs a máscara, Ji Fanling percebeu as sobrancelhas finas franzidas e os dentes mordendo o lábio.
...Exatamente a expressão que alguém faz quando não consegue resolver um problema de matemática.
O coração de Ji Fanling acelerou: “Zhou Sui!”
A mulher olhou ao redor, mas não conseguiu ver quem a chamava.
No segundo seguinte, uma garota surgiu da multidão e correu em sua direção.
Zhou Sui ficou visivelmente surpresa, encarou o rosto da garota e, ao reconhecê-la, empalideceu, recuando três passos: “Você, você, você!”
“Sou eu, Ji Fanling.”
“O quê? O quê? O quê???”
Ji Fanling tentou acalmá-la: “Não tenha medo.”
Zhou Sui, aflita: “Não se aproxime!!”
Mas Ji Fanling não lhe deu ouvidos, avançou rapidamente, agarrou o braço dela e o torceu levemente, arqueando a sobrancelha: “Dói?”
“Ai... dói.” Zhou Sui admitiu sem pestanejar.
“Se dói, é sinal de que você não está sonhando.” A garota falou com a expressão séria.
“...”
“Mas, mas...” Zhou Sui gaguejou, “se um fantasma torce um humano, também dói?”
Ji Fanling respondeu devagar: “Se dói ou não quando um fantasma torce um humano, não sei, mas...” de repente acelerou a fala, “mas se um fantasma morde alguém, com certeza dói!”
E, sem mais, agarrou o braço de Zhou Sui e simulou uma mordida feroz.
Zhou Sui já estava com os nervos à flor da pele e, assustada, começou a gritar e sacudir o braço, atraindo olhares dos que estavam por perto.
Obviamente, Ji Fanling não mordeu de verdade. Levantou a cabeça e riu: “Veja só você, que coragem!” E eu que pensei que você estivesse mais destemida.
Zhou Sui, ainda ofegante, olhou para a jovem de casaco velho e largo, uma mão no bolso, sorrindo com um pequeno canino à mostra. Sem saber porquê, acabou sorrindo também.
...
Sentiu-se meio tola pelo susto de instantes atrás.
Zhou Sui se aproximou de volta, estendeu a mão com cuidado e tocou o dorso da mão da garota, chamando suavemente: “Ji Fanling?”
A garota resmungou pelo nariz.
Olhando para o rosto jovem da velha amiga, Zhou Sui sentiu uma pontada de emoção: “Você... o que aconteceu com você?”
“Fui atropelada, acordei e já estava aqui. Ji Guoliang fugiu, Cheng Jiali não dá notícias, e você é a mais incrível...” A garota olhou para ela, com um sorriso enigmático.
“Me chamou de vigarista, queria até chamar a polícia.”
Zhou Sui ficou sem palavras.
“Então era você mesmo ontem?” perguntou, constrangida.
“Sim.” Ji Fanling não se importou. “Mas por que você está aqui na pediatria a essa hora?”
“Meu filho está com febre.”
Ji Fanling ficou surpresa: “Você já tem filho?”
“Um menino, três anos, se chama He Han.”
“Já três anos?!”
“Ah, minha cabeça!” Zhou Sui bateu na testa. “O remédio do Hanhan!”
Era curioso: era a mesma pessoa, e a garota com o olhar e traços familiares de outros tempos, ao mencionar o filho, de repente transformava-se numa mãe ansiosa e desconhecida.
Antes, Zhou Sui estava encolhida; agora, de repente, não tinha mais medo de nada.
Ela bateu no ombro de Ji Fanling: “Me espera um pouco, preciso pegar o remédio dele. Quando a infusão acabar, vou medir a febre de novo.”
Mesmo olhando para ela, sua mente já estava em outro lugar.
Ji Fanling apressou: “Vai logo.”
Zhou Sui saiu correndo para a farmácia. No meio do caminho, parou de repente e olhou para outra direção: “Mãe?! Por que você está levando o Hanhan para todo lado?”
A senhora, caminhando devagar, segurava o menino de máscara nos braços: “Você demorou tanto, Hanhan ficou chamando por você...”
“Consegui um assento com dificuldade, e assim que você saiu, alguém ocupou...”
Zhou Sui pegou o filho, viu que o soro já tinha acabado e o sangue começava a voltar pelo tubo. Ficou nervosa e levantou a voz para a sogra: “Eu pedi para olhar, já está voltando sangue!”
“Eu estava olhando, assim que terminou vim te chamar”, a sogra respondeu, aborrecida.
“Chamar pra quê? Eu não sou enfermeira!” Zhou Sui agarrou o suporte do soro e saiu correndo.
Assustado pelo tom da mãe, o menino começou a chorar alto e tossir.
...
De longe, Ji Fanling observava em silêncio, com um aperto no peito.
Se não fosse por ela, Zhou Sui teria conseguido trocar o remédio do filho a tempo.
Ela ficou parada, esperando quase uma hora. Quando finalmente conseguiu um lugar, logo apareceu uma menininha de uns seis ou sete anos, muito comportada, segurando sozinha o soro. Ji Fanling levantou e lhe cedeu o assento.
Ficou tanto tempo de pé que as pernas adormeceram. Esperou, esperou... Talvez Zhou Sui tivesse se esquecido dela, então voltou a procurá-la no meio da multidão.
Dessa vez, encontrou Zhou Sui na porta do consultório da pediatria.
Zhou Sui saiu apressada, quase esbarrando nela, só então pareceu notar sua presença: “Ah, Ji Fanling, você está aqui.”
Ji Fanling perguntou, preocupada: “Como está seu filho?”
“A febre não baixa. Ontem já tomou soro, hoje de novo, mas só aumentou, está em 38,5 graus,” Zhou Sui estava exausta, os olhos cheios de veias vermelhas, “o médico acha que pode ser pneumonia por micoplasma, mandou fazer uma tomografia no térreo. Vou levar ele agora.”
Ji Fanling insistiu: “Vai logo, então.”
Zhou Sui chamou a sogra, pegou o filho e foi para o elevador. Ji Fanling achou melhor não atrapalhar e ficou esperando ali.
O andar inteiro estava cheio de crianças doentes, todas chorando alto como chaleiras apitando, deixando o ambiente inquietante.
Nada a fazer, afinal, a criança estava doente.
Ela é que apareceu numa hora ruim.
Mas como pedir agora: “Zhou Sui, posso ficar uns dias na sua casa?”
Ji Fanling esperou, constrangida, por mais uma hora.
Provavelmente, estavam na fila do exame; Zhou Sui não voltou mais.
A garota suspirou e foi embora, quieta.
*
Só quando saiu do hospital se lembrou dos dois reais que tinha, já gastos na vinda.
Devia ter pedido um trocado emprestado ao Fu Yingcheng...
Voltar para procurar Zhou Sui já não fazia sentido.
Alguns quilômetros a pé não fariam diferença; ela voltou caminhando sem pressa.
Só não sabia por quê, pois na ida não sentiu frio algum.
Na volta, porém, o vento parecia mais forte.
Quando finalmente chegou à casa de Fu Yingcheng, o rosto estava dormente de frio. Soprou nas mãos e bateu levemente na porta.
Esperou um pouco.
Nada.
Ji Fanling hesitou, imaginando que ele tivesse saído.
O que poderia levá-lo a sair à noite?
De repente, outro pensamento lhe veio à mente.
...
Talvez ele estivesse em casa, só não quisesse mais que ela ficasse.
Seria porque ela usou o esfregão sem pedir ou porque molhou a varanda com a roupa úmida?
Ji Fanling ficou nervosa, esfregou o rosto com força e, ainda esperançosa, voltou a bater, de leve a forte, devagar e depois rápido, cada vez mais ansiosa.
Bateu repetidas vezes.
Depois de cinco minutos, a porta se abriu de repente.
O homem vestia camisa branca e calça preta, os botões da camisa abotoados até o colarinho, e os botões de madrepérola brilhavam friamente sob a luz do hall.
Ji Fanling sentiu um alívio repentino: “Nossa, pensei que você não estivesse em casa.”
“Estava no escritório, em reunião, não ouvi.” Atrás das lentes, a expressão dele era tensa e desagradada.
O sorriso de Ji Fanling foi se desmanchando até sumir por completo.
Detestava-se por se sentir assim, como um cachorro de rua incômodo, sempre pedindo favores, atrapalhando a consulta de uma criança, interrompendo a reunião dos outros, implorando por um lugar para ficar...
Sempre batendo à porta alheia.
“Ah, eu não sabia que você estava...” Ji Fanling murmurou, apertando os dedos.
A voz de Fu Yingcheng era fria: “Depois a gente conversa.”
Ji Fanling calou-se imediatamente.
Ele olhou para ela, tocou o ouvido e falou mais baixo: “...Não estou falando com você.”
Só então ela percebeu o fone de ouvido bluetooth.
Fu Yingcheng passou por ela, ficou do lado de fora da porta, curvado, uma mão apoiada na maçaneta, postura casual, e digitou alguns números no teclado da fechadura.
“Me dá sua mão.”
Ji Fanling, sem entender, estendeu o braço, e ele segurou seu pulso através da manga do casaco.
“...Estende um dedo.”
Ela então percebeu: “Espera, você vai cadastrar minha digital?”
Fu Yingcheng, ainda segurando o pulso, aproximou a mão dela do sensor.
Os dedos delicados tocaram a superfície fria da fechadura. O sensor brilhou em verde ao redor do dedo.
“Não precisa disso.” Ji Fanling recuou um pouco, mas ele segurava firme, impedindo qualquer movimento.
Apertou, soltou.
“Se você estiver em reunião, posso esperar do lado de fora.”
Apertou, soltou.
“Além disso, só vou ficar mais uma noite, não precisa...”
Apertou, soltou.
Um “ding-dong” soou: a fechadura confirmou o cadastro com sucesso.
Aquele som completou a batida do coração que Ji Fanling havia perdido.
Agora ela tinha uma porta.
Uma porta que não precisaria bater, pois se abriria para ela.
Fu Yingcheng largou o pulso dela, endireitou-se e lançou-lhe um olhar.
Ji Fanling recuou instintivamente, mas ele avançou dois passos, entrou no hall, parou diante dela e fechou a porta atrás de si.
O peito do homem quase roçava o nariz da garota.
O vento frio da noite entrou junto, trazendo consigo o leve aroma amadeirado e solitário do homem.
“Se é necessário ou não, não é você quem decide.”
A voz veio de cima, fria, preguiçosa, com o final grave:
“Adicionei sua digital porque eu mesmo não gosto de abrir a porta para os outros.”