2 Luto

O décimo ano após minha morte Yun Chifre 4252 palavras 2026-03-04 16:55:29

Que diabos de coisa estranha.
Ela estava sozinha, de pé, abruptamente, sobre a faixa de pedestres deserta.
A rua estava vazia, a água acumulada refletia o cinza metálico do concreto armado, e o semáforo mudava do vermelho para o verde sob a chuva, num ritmo monótono.
Na esquina, junto ao meio-fio, havia um carro preto estacionado, e ao lado dele, uma pessoa.
Aquela figura era alta, de pernas longas, vestia um terno escuro impecável, exalava uma aura de nobreza fria, segurando um guarda-chuva preto de armação rígida, como se estivesse em um velório.
Ao ouvir o som, a aba do guarda-chuva se ergueu levemente, e o homem lançou um olhar casual em sua direção.
Bastou um olhar para que ele parecesse pregado ao chão.
A garota, parada no meio da rua, olhou ao redor, desorientada, e então caminhou para a calçada, sentindo o olhar do homem fixo nela o tempo inteiro.
— Por que está me encarando assim?
Ela se aproximou dele, não resistindo à curiosidade, e inclinou a cabeça para observá-lo melhor.
O homem era de uma beleza quase inatingível, traços profundos, nariz reto, lábios finos; a luz do poste, filtrada pelo guarda-chuva, desenhava suas feições em sombras frias, quase indiferentes.
A chuva caía forte, formando uma película de vapor úmido sobre seus óculos de armação prateada.
As lentes embaçadas, como uma fina camada de gelo, ocultavam suas emoções; apenas a cor dos olhos era visível.
Um preto raro, puro, como um traço de grafite duro sobre papel cinza-claro de tinta aquosa.
Ela achou o rosto do homem estranhamente familiar, especialmente o olhar.
Hesitou, então perguntou:
— Você me conhece? É irmão de Fu Yingcheng...?
Os lábios do homem se fecharam ainda mais, sem responder.
A chuva deslizava pelo guarda-chuva, escondendo seu olhar quase descontrolado.
Ela esperou um pouco, depois, impaciente, colocou o capuz e virou-se, resmungando:
— Lunático.
...
Os dois cruzaram-se.
Ela suspeitava que tinha sido atropelada e desmaiado, sem saber por quanto tempo, e começou a se preocupar se sua pequena estrela estava bem, apressando-se de volta pela rua até a casa de macarrão da família Jiang.
A viela dos lanches atrás da escola era sempre movimentada à noite, com o aroma de espetinhos, pratos picantes e noodles frios misturando-se no ar.
Em comparação, a casa de macarrão da família Jiang era isolada, pequena, com poucos clientes, mas era barata, e a família de Tia Jiang era muito gentil, por isso ela ia lá quase todos os dias.
No entanto, ainda do outro lado da rua, ela viu que a casa, que momentos antes tinha clientes, agora estava fechada, com a porta de enrolar trancada.
E mais:
A antiga placa azul na entrada tinha sido substituída por um torii vermelho envernizado ao estilo japonês, com uma bandeira de “Crepe de Morango” balançando ao vento.
Ao olhar ao redor, toda a rua lhe parecia estranha. Antes, a loja de frango empanado tinha virado uma de sanduíches de carne, a papelaria engolira três lojas, e o restaurante de arroz cozido agora vendia sobremesas chinesas.
Com a cabeça girando, ela correu para casa.
Sua quitinete ficava em um velho conjunto habitacional famoso pela sujeira e desordem; as paredes cobertas de musgo, tampas de bueiro entupidas, a água da chuva já começava a cobrir o chão.
O prédio era o mesmo, a rua também, mas tudo parecia diferente, deslocado, fora do lugar.
Chegou à porta, tirou a chave com as mãos trêmulas, tentou várias vezes, mas não conseguiu encaixá-la na fechadura, então bateu com força na porta.
— Toc-toc-toc-toc-toc! — uma série de batidas ansiosas.
— Já vai, já vai.
Quem abriu a porta foi uma mulher de meia-idade, estranha, de pijama coberto por um casaco, que a olhou franzindo a testa:
— Que desespero é esse? A quem você procura?
— Quem é você? O que faz na minha casa! — ela arfava, limpando a água do queixo.
— Que sua casa o quê? — A mulher pareceu confusa.
— Onde está Ji Guoliang? — Ela olhou por cima do ombro da mulher.
A mobília da casa era toda diferente, não havia mais mesa de jogos ou lixo espalhado, tudo estava limpo e aconchegante, nada parecido com o que deixara pela manhã.
— Que Ji Guoliang? Não conheço, acho que se enganou de apartamento. — A mulher bloqueou sua visão, irritada.
— Não, não me enganei, ele mora aqui.
— Eu moro aqui há sete, oito anos — respondeu, já impaciente. — Procure em outro andar.
— Sete, oito anos?
A mulher ameaçou fechar a porta, mas ela foi mais rápida.
Com o joelho segurou a porta aberta, a mão agarrada ao batente, reabrindo-a com uma destreza inesperadamente rude para seu rosto delicado.
— O que pensa que está fazendo?! — a mulher exclamou.
— Só mais uma pergunta — ela olhou firme nos olhos da mulher, as sobrancelhas franzidas.
— Que ano estamos?
*
2022.
A batida do carro a projetara dez anos no futuro.
Ela desceu as escadas, irritada, aceitando a realidade.
O destino é cruel — para alguns, a vida é como uma caixa de chocolates, nunca se sabe o que esperar; para outros, é uma caixa de chocolates misturada com fezes, ora doce, ora amarga, cheia de altos e baixos.
E para gente como ela, o que recebeu foi só fezes — espantou-se no começo, depois se acostumou.
Saiu do condomínio e entrou no mercadinho mais próximo.
O caixa era um universitário de moletom, largado na cadeira atrás do balcão, jogando no celular, que gritava: “Double Kill!” “Triple Kill!”
Ela revirou os bolsos: só tinha duas moedas que roubara cedo do casaco de Ji Guoliang.
Colocou as moedas no balcão:
— Posso usar o telefone fixo?
— Telefone fixo? Isso é coisa de qual século? — O rapaz nem levantou a cabeça.
— Onde posso encontrar um telefone?
— Espera eu terminar aqui, pode usar meu celular, não faz diferença, nem gasto meu pacote de dados todo mês.
— Obrigada.
Assim que ele terminou a partida, ela pegou o celular.
Dez anos depois, a tela era enorme e não tinha mais botões.
Ela ligou primeiro para Ji Guoliang.
— O número chamado não existe, por favor, confira e tente novamente. Sorry...
Em dez anos, ele mudara de casa e de número. Depois que Jiang Wan morreu, seu vício em jogos piorou, nunca trabalhava, largara a filha ainda criança, vivia devendo, mudando de número e fugindo.
Ligou então para o namorado, Cheng Jiali, mas a ligação não completou.
Insistiu, mas deu sempre o mesmo resultado.
Por fim, ligou para sua antiga colega de carteira, Zhou Sui.
O telefone tocou um pouco, e ela atendeu.
— Alô? — A voz cansada e rouca era reconhecível.
— Zhou Sui, sou eu, Ji Fanling.
Barulho de fundo, crianças chorando. Zhou Sui parecia ocupada, fez uma pausa:
— ...Não estou ouvindo direito, espera um pouco — sons de passos rápidos, porta se fechando, ambiente silencioso e com eco.
— Quem disse que era?
— Ji Fanling.
Silêncio do outro lado.
No segundo seguinte, Zhou Sui desligou bruscamente.
Ela ficou parada.
Foi sua culpa — se revelou logo de cara, talvez tenha sido precipitada.
Ligou de novo, Zhou Sui desligou.
Mais uma vez, e de novo a ligação foi rejeitada.
Insistiu, até que Zhou Sui atendeu, irritada:
— Você é louca, sua golpista? Ligar de novo eu chamo a polícia!
— Calma, não sou golpista, fui sua colega no ensino médio.
Zhou Sui riu, sarcástica:
— Podia fingir qualquer um, mas fingir morto? Não tem medo de fantasma bater à sua porta?
Ela falou rápido:
— Você me ajudou a levar a mensalidade pra casa, lembra? Fez contas pra mim no caderno, somou nove...
— Some daqui!
O telefone foi desligado, restando apenas o tom de linha ocupada.
— Espera, Zhou Sui, Zhou Sui!!... Droga!
Ela xingou olhando para o celular.
Antes, Zhou Sui era tímida, chorava quieta quando sofria bullying.
Ela a ouvira fungar durante meia aula, até que, não aguentando mais, foi cobrar explicações, mas a menina mal conseguia responder.
Dez anos depois, o temperamento mudou.
Tentou ligar de novo, mas já estava bloqueada.
Devolveu o celular, olhando para a tela de discagem, murmurando:
— Que merda... Eu ainda estou viva.
Não lembrava outro número, nem tinha mais para quem ligar.
A noite de outono era fria, a chuva ainda caía, gotículas transparentes escorriam do beiral.
Antes, Ji Guoliang podia ser um canalha, mas ao menos tinha onde dormir, um teto, uma cama.
Agora, sem jantar, roupa molhada, com frio, fome e sede, ela lambeu os lábios. Com apenas duas moedas, gastar com água parecia luxo.
O universitário, depois do jogo, espreguiçou-se, e ao olhar para baixo, viu que a garota ainda estava ali.
Ela usava um casaco largo demais, o rosto pequeno sob o capuz, a pele tão branca que parecia translúcida, os olhos refletindo o céu cinzento, perdidos sob a chuva.
Dava dó, parecia uma criança perdida.
— Procurava alguém? Não achou? — Ele perguntou, abaixando-se, sem saber se ela tinha chorado.
Ela respondeu sem expressão:
— Na verdade, eles que não me acham.
— Nunca te vi antes, é do colégio anexo à universidade?
— Em qual olho você me acha com cara de estudante do fundamental?
— É que você é tão pequenina...
Ela lançou-lhe um olhar gélido:
— E daí? Se acha alto? Um metro e setenta com palmilha?
O rapaz corou, alongando o pescoço:
— ...Um e setenta e cinco! E sem sapatos!
Ela desviou o olhar:
— Quando a chuva parar, eu vou embora, não vou atrapalhar seu movimento.
— Não é isso... — ele hesitou — Você tem onde ir?
O silêncio pesou.
Ela não respondeu; depois de um tempo, remexendo as moedas na mão, levantou lentamente o olhar:
— Tenho muitos lugares para ir, meu caro.
— Ora, quando eu ia à escola, você nem sabia andar direito.
— O quê?
O rapaz não percebeu que ela falava sério, riu:
— Você se acha mesmo...
Enquanto conversavam, um carro preto se aproximou, parou na entrada do condomínio, fazendo uma curva brusca e espirrando água.
— Caramba, um Maybach! — O rapaz se empolgou, batendo as mãos. — Que espetáculo!
— Aquele carro? — Ela não se interessou.
— Maybach S680, é a primeira vez que vejo um desses.
O estudante era claramente entusiasta de carros, falando como metralhadora:
— S400, S450, S560 eu já vi, mas S680 nunca; motor V12 biturbo, acelera como um foguete, suspensão pneumática, bancos de couro, olha aquelas rodas... Que beleza... Ué, por que parou?
O Maybach parou diante do mercadinho, bem à frente deles.
Sob o céu cinzento, a água escorria reluzente pela carroceria preta.
Os dois olharam para cima.
O vidro traseiro baixou lentamente.
Apareceu o rosto do homem.
Terno preto de alta qualidade, prendedor de gravata prateado, traços austeros, olhos mais negros que nuvens de tempestade.
Sentado dentro do carro, ele olhava para a dupla agachada.
Um acima, outro abaixo, encarando-se em silêncio.
— Ji Fanling? — A voz dele era rouca e baixa.
O vento levou o tremor quase imperceptível de suas palavras.
Pela primeira vez na vida, ela sentiu o coração acelerar só de ouvir seu próprio nome.