11 Ciúmes
Futuo apresentou-se e levou apenas alguns minutos para fumar meio cigarro. A garagem subterrânea era silenciosa e sombria. Ji Fanling, com expressão inalterada, sentava-se no banco do passageiro, navegando no celular enquanto esperava.
Os dedos deslizavam rapidamente, mas o olhar estava distante, sem foco.
Como Fu Yincheng podia fumar o cigarro que ela deixara pela metade? Nem mesmo Ji Guoliang fumaria a sobra de outra pessoa.
Será que… ele, na verdade… gostava tanto desse tipo de cigarro? A ponto de não querer desperdiçar nem um pouco?
Se for assim, ele é até mais pé no chão do que imaginava.
Uma mensagem do falsificador de documentos chegou ao celular, trazendo-a de volta à realidade.
Certificado de qualificação AA, diploma, licença comercial: “Seu RG e carteira de estudante estão prontos, pode buscar quando quiser.”
Que me importa: “Vou aí daqui a pouco.”
Ji Fanling primeiro ajudou Fu Yincheng a levar as compras e o coelho para o apartamento, depois avisou que sairia para procurar emprego. Fu Yincheng nunca a impediu de sair, apenas perguntou se ela voltaria para jantar.
Ele perguntou de forma casual, mas Ji Fanling ficou surpresa.
Não lembrava quando alguém lhe fizera essa pergunta pela última vez. Talvez nos primeiros anos do ensino fundamental.
Naquela época, Jiang Wan ainda não sabia do câncer no estômago. Ela era professora de dança clássica em um curso, sempre usando vestidos longos e brancos muito bonitos. Às vezes, voltava do trabalho e via a filha correndo apressada pela porta, gritando: “Mãe, vou brincar na casa de uma colega.” Jiang Wan sorria e perguntava: “Vai voltar para jantar?”
“...Vou”, Ji Fanling respondeu baixinho, segurando a maçaneta.
*
Os documentos falsos feitos pelo falsificador pareciam muito convincentes. Ji Fanling ficou satisfeita, achando que podiam passar tranquilamente por verdadeiros.
Pagou tudo e ainda aproveitou o computador do falsificador para imprimir vários currículos, entregando-os em todas as lojas de conveniência, restaurantes, livrarias, lanchonetes e casas de chá que tinham anúncios de contratação num raio de alguns quilômetros.
Sua prioridade agora era encontrar um emprego.
Voltar para o terceiro ano do ensino médio? Piada, nem considerava. Nem sabia de onde viria o dinheiro para mensalidade, alimentação e alojamento. Estudar? Nunca na vida faria isso por vontade própria.
Antes, ela esperava que Cheng Jiali a acolhesse por um tempo, mas agora via que não era adequado. Como pediria dinheiro a Cheng Jiali? Com que identidade? Ex-namorada que voltou do além?
Preferia dever a Fu Yincheng.
Se para Cheng Jiali ela estava morta, então ela também podia considerar que ele estava morto.
Pensando assim, sentiu-se até aliviada.
Quando Ji Fanling voltou para casa, já era noite fechada.
Os pratos de carne de vaca com batatas e a sopa de frango com bambu feitos por tia Tong estavam na geladeira desde o dia anterior. Os dois comeram algo simples.
Como as coisas tinham avançado com relação ao trabalho, Ji Fanling estava de bom humor e acabou conversando mais com Fu Yincheng.
“Acho que logo vou conseguir um emprego. A loja de conveniência na Rua Hui’an e o supermercado Yongle parecem estar precisando urgente de gente.”
“É mesmo?”
“Amanhã cedo já tenho duas entrevistas.” Ainda bem graças ao certificado de estudante universitária.
“Boa sorte.”
“Pelo visto, ganhar dinheiro não é tão difícil assim.”
Ji Fanling sorriu de canto de boca: “Fique tranquilo, logo vou poder te…” O dinheiro da hospedagem e alimentação pelo tempo em que me ajudou.
Parou no meio da frase.
Ji Guoliang, acostumado a ser cobrado por dívidas, lhe ensinara algumas lições valiosas.
Por exemplo, nunca estipule prazo para pagar.
Por exemplo, se o credor não tocar em dinheiro, não mencione.
E só prometa pagar se não houver outra saída.
Ji Fanling engoliu as palavras sobre dinheiro e corrigiu rapidamente: “…te sustentar.”
…
Logo vou poder te sustentar.
Te, su, sten, tar.
SUS-TEN-TAR!
O ar ficou subitamente silencioso.
Os hashis de Fu Yincheng pararam no ar. Os cílios longos se levantaram, os olhos profundos e escuros, expressão indescritível ao encará-la.
Depois, arqueou levemente a sobrancelha com descaso.
Ji Fanling: “…”
A garota manteve o olhar, encarando-o com coragem: “Mas, veja bem, não gosto de forçar ninguém.”
“—Se não quiser, esquece.”
Terminou e se enfiou na comida, enchendo as bochechas como um hamster, dando a entender que o assunto estava encerrado e era melhor comerem em silêncio.
Talvez a estratégia tenha funcionado, pois não ouviu resposta por um bom tempo.
Quando finalmente suspirou aliviada, achando que o assunto estava superado, ouviu acima da cabeça uma risada suave, quase como um suspiro.
Parecia uma pena acariciando o ouvido, causando um arrepio elétrico.
“Não imaginei que era esse seu plano.”
Ji Fanling levantou a cabeça e viu o homem recostado na cadeira, lábios retos, tom frio e arrogante, os olhos negros semicerrados com um sorriso enigmático.
“...Bastante ambiciosa.”
*
Depois do jantar, Fu Yincheng lavou todos os utensílios novos. Apesar de ter uma diarista que vinha regularmente, ele não suportava deixar nada sujo durante a noite.
Quando terminou, voltou ao trabalho acumulado do dia.
Não era exagero quando dizia a Yang Mingzhe que estava ocupado.
Os produtos da Nove Províncias eram amplamente reconhecidos no exterior. Depois da feira internacional de equipamentos médicos MEDICA, os pedidos estavam agendados para mais de dois anos.
Por outro lado, as fábricas ficavam todas no país; grandes equipamentos não podiam ser enviados montados, era preciso embalar as peças separadamente e enviar por navio para montagem local. Os convites de fornecedores interessados em integrar a cadeia de suprimentos enchiam a caixa de entrada.
Fu Yincheng separava os fornecedores de interesse, encaminhando ao diretor internacional para análise. No WeChat, chegou uma mensagem de Su Lingqing:
“Os documentos de identidade e registro familiar da Ji Fanling estão prontos.”
“Acabei de desembarcar à tarde e fui buscar, fala se não foi emocionante.”
c: “Valeu.”
Su Lingqing: “Já que está online, por que não curte minhas fotos no Moments?”
c: “Quantos anos você tem?”
Reconhecendo o favor, Fu Yincheng entrou no Moments, curtiu uma foto de Su Lingqing abraçado a uma alemã na Avenida do Rei e às margens do Reno.
Normalmente, Fu Yincheng não navegava no Moments, mas após curtir, ao tentar sair, viu por acaso uma postagem de um antigo colega.
O post era o link de um álbum de casamento cuidadosamente elaborado, com gifs se desdobrando em meio a flores exuberantes.
Quem compartilhasse esse álbum participava de um sorteio. Uma declaração de amor bem espalhafatosa.
—O casamento de Cheng Jiali e Fang Jingyun.
O rosto de Fu Yincheng escureceu, e flashes da noite anterior com a garota passaram por sua mente.
De repente, ela quis sair para comer, voltou distraída, abatida, olhos vermelhos à noite.
Pela manhã, ele adiou à última hora uma reunião para levá-la a ver Jiang Boxing, na esperança de que ela entendesse o significado de suas ações.
Originalmente, nem pretendia ver Jiang Boxing, muito menos levar Ji Fanling. Não suportava ver Jiang Boxing crescendo, cheio de vida, com a idade que seria da garota.
Quanto mais saudável Jiang Boxing vivia, mais lembrava que alguém tinha morrido em seu lugar.
Ajudá-lo financeiramente era apenas porque, se alguém trocou a vida por ele, não podia deixá-lo viver mal.
Só isso.
...
No fim, as emoções dela durante toda a noite não eram por si mesma, mas por outro?
Fu Yincheng excluiu o colega que compartilhou o álbum de casamento, o olhar ainda mais sombrio.
O que Cheng Jiali tinha de tão especial?
*
Depois do jantar, Ji Fanling ficou jogando no celular no sofá, sem conseguir tirar da cabeça a conversa de antes.
—Fique tranquilo, logo vou poder te sustentar.
—Bastante ambiciosa.
Realmente ambiciosa.
Comendo, dormindo e usando as coisas dele, já fantasiava em dar a volta por cima e se tornar proprietária.
Distraída, o rosto fervendo de vergonha, Ji Fanling esfregou o rosto e se levantou, decidida a tomar banho.
No caminho ao banheiro, foi chamada por Fu Yincheng.
Ao virar, viu que, pela primeira vez, ele não estava trabalhando, mas parado à porta do escritório.
Alto, de braços cruzados, apoiado no batente, vestia uma malha preta macia que realçava ainda mais os traços frios e angulosos. Os músculos dos braços bem definidos.
Os olhos, naturalmente frios, com cantos alongados, davam-lhe um ar cortante e distante ao olhar de cima.
Não sabia por quê.
Mas… havia algo sutilmente perigoso nele.
Ji Fanling, como um animalzinho arisco, instintivamente ficou alerta: “O que foi?”
Fu Yincheng perguntou: “E o coelho?”
Ji Fanling hesitou: “Levei para o quarto, ué.”
“Seu quarto?”
“Claro, né?”
“Eu pedi para você carregar, certo.” Fu Yincheng a encarou, voz grave: “Mas… não disse que era presente, disse?”
Ji Fanling: “...”
Que surra de realidade, que ilusão boba.
A garota fez cara feia e respondeu seca: “Mas na hora, seu olhar, seu jeito, era claramente de quem…”
“Que expressão minha?” Fu Yincheng perguntou calmamente.
Ji Fanling respirou fundo, incrédula: “Então você comprou um coelho de pelúcia para si mesmo?”
“E por que não poderia?”
Pode, claro que pode.
Se você quer gastar dinheiro consigo mesmo, quem sou eu pra impedir?
Ji Fanling cerrou os punhos, fria: “Coloquei o coelho no quarto, mas não disse que era meu, certo?”
“Ainda bem.” Fu Yincheng a olhou de lado. “Coloque-o na minha cama.”
Sem dizer mais, a garota entrou, pegou o coelho e levou, segurando-o alto, até o quarto dele, jogando-o na cama.
O pior é que, por um momento, ela realmente pensou que Fu Yincheng era gentil com ela, e até achou que ele era fácil de lidar.
Que nada! Que ilusão!
Esse homem tinha, no máximo, um pouco de bondade, um toque de mania de limpeza, um tanto de arrogância.
Os noventa e quatro por cento restantes… só davam vontade de bater.
...
Será que foi porque ela disse que ia sustentá-lo, ferindo seu orgulho e o deixando muito irritado?
Mesmo irritada, Ji Fanling correu ao redor da cama, ajeitou o coelho, e ao levantar a cabeça percebeu que entrara no quarto de Fu Yincheng.
Estava ali há uma semana, mas só ficava no quarto de hóspedes ou na sala.
Mesmo quando Fu Yincheng não estava, nunca bisbilhotava nem olhava para outros cômodos.
O quarto dele não tinha nada demais: cortinas escuras, tudo limpo e sóbrio, um aroma suave de madeira de ébano, parecido com o cheiro dele.
O coelho na cama era tão deslocado quanto um modelo de um metro e noventa vestido de Lolita.
Sem olhar muito, virou-se para sair, mas, por azar, reparou num pequeno buraco na parede, revelando o branco debaixo do papel de parede.
Ficava acima do criado-mudo, de forma irregular, do tamanho de meia unha.
Parecia sinal de algo que ficou colado ali por muito tempo e foi arrancado às pressas.
*
No dia seguinte, Ji Fanling acordou antes das sete para se preparar para as entrevistas.
Fu Yincheng já tinha saído mais cedo, a casa estava vazia.
Com sono, Ji Fanling entrou na sala e arregalou os olhos.
—O enorme coelho estava sentado no sofá da sala.
Ela se aproximou, afagou a cabeça do coelho e sussurrou: “Então, ele já não te quer mais?”
O coelho a olhou com docilidade.
Ji Fanling riu.
Fu Yincheng, que homem volúvel, instável, inconstante.
A loja 711 avisou que a entrevista era às oito. Quando Ji Fanling chegou, havia uma fila enorme de candidatos na porta. Não sabia de onde saiu tanta gente.
Ela ficou ali, no vento frio, por quatro horas, só sendo chamada perto do meio-dia.
Pelo menos, as perguntas da entrevista eram simples, Ji Fanling respondeu com facilidade.
Até que o gerente, olhando o certificado de estudante universitária, comentou: “Estudante de alemão?”
Ji Fanling: “…Sim.”
Deixara o falsificador escolher qualquer curso para ela.
O gerente, curioso: “Pode se apresentar em alemão?”
“...”
Com tranquilidade, ela disse: “Abobotuawasi Ji Fanling mare fak tu lu tu lu pi…”
“Muito fluente”, o gerente comentou, confuso, “mas não soa muito com alemão, né?”
Ela, impassível: “Você fala alemão?”
O gerente: “Não, mas…”
Ji Fanling, categórica: “Isso é alemão.”
O gerente fez que sim, mas hesitou, e então perguntou: “Como se diz ‘olá’ em alemão?”
Ji Fanling respondeu com firmeza: “Roladjiwa.”
O gerente: “...”
Ele refletiu: “Se ‘olá’ é roladjiwa… o que significa Hallo?”
“Significa…”
Ji Fanling esticou a mão: “Devolva meu currículo, eu mesma vou embora.”
A segunda entrevista era às treze horas, para promotora de degustação no supermercado Yongle.
A caminho, Ji Fanling decorava freneticamente a apresentação em alemão do tradutor, enquanto xingava o falsificador por não ter escolhido um curso mais fácil de simular, como técnico em cuidados pós-parto de porcas.
A entrevista correu bem, o entrevistador não teve a ideia súbita de pedir-lhe que falasse alemão.
A responsável pelo RH, sorrindo, disse: “Após avaliarmos as notas, faremos uma checagem de qualificação. Em até uma semana, enviaremos o resultado por mensagem.”
Ji Fanling perguntou educadamente: “O que seria essa checagem de qualificação?”
“Ah, é bem simples”, RH respondeu. “Consultamos o site oficial do ensino para verificar se sua graduação é autêntica.”
Ji – Falsificação – Fanling: “...”
O sorriso sumiu do rosto dela. Com calma, esticou a mão: “Pode devolver meu currículo.”
Ao sair do supermercado, o vento frio a atingiu. Por dentro, Ji Fanling também se sentia gelada, achando que entrevistas não eram para aquele dia.
Caminhando lentamente de volta à casa de Fu Yincheng, por hábito, procurou o terço de contas no pulso.
...
Não estava lá.
Onde estava o terço?