Catorze

Mestre das Palavras Malignas Lian Luo 3740 palavras 2026-03-31 13:04:32

Ao cair da tarde, Situ Tian, com seus trabalhos sob o braço, despediu-se de uma satisfeita Jenny e de Jensen, cujo cachimbo continuava a soltar finos fios de fumaça, e deixou apressadamente a pequena galeria de arte.

— O que achou? — Jensen deu duas tragadas com um sorriso relaxado. — Meu cunhado diz que esse homem tem talento; basta costurar alguns pedaços de pano e as pessoas o perseguem pelas ruas querendo assinar contratos.

— Tem uma base técnica sólida. — Jenny, que nunca suportou o jeito desleixado dele, fechou a expressão. — É melhor que cinco de você.

— Ah, hahaha... — Jensen massageou as têmporas e apagou o cachimbo, resignado. — Pelo menos eu ainda sou seu chefe. Mas, sendo avaliado assim por você, parece que o pai das crianças é realmente um talento. Amanhã ele virá ao salão para regularizar a identidade; assim que trouxer o comprovante, adiantem parte do salário. Não é fácil para um homem criar filhos sozinho.

— Entendido. — Jenny assentiu.

Ela interpretou o comportamento distraído de Situ Tian durante a pintura como puro nervosismo. Afinal, por menor que fosse a galeria, ela estava sob jurisdição do governo, oferecendo um bom salário e estabilidade. Nos últimos anos, com o crescimento populacional desenfreado na Cidade de Orter, o custo de vida disparou, a oferta de moradias escasseou e a pressão por emprego aumentou, tornando difícil conseguir uma ocupação estável.

Jenny virou-se, deixou o escritório de Jensen e, ao retornar à sua mesa, escreveu o nome de Situ Tian na última página do registro de funcionários. Ela só não imaginava que as informações abaixo daquele nome nunca teriam a chance de serem preenchidas.

Ao sair, Situ Tian virou à direita, mordeu os lábios com força e curvou os dedos até quase esmagar os punhos; apenas a dor o mantinha minimamente calmo enquanto caminhava com passos firmes pelas duas avenidas principais de Orter. Assim que avistou o prédio residencial onde acabara de se mudar, ele não aguentou mais e começou a correr, temendo desabar no meio da rua a qualquer momento.

Para causar uma boa impressão na entrevista e parecer formal, Situ Tian vestira hoje o único casaco de terno decente que tinha, usando uma gravata preta que ele mesmo havia adaptado. O tecido era de algodão puro, com ótima ventilação, mas, naquele momento, ele parecia alguém que acabara de ser resgatado da água, encharcado de suor. Com as juntas dos dedos brancas de tanto se segurar no canteiro de flores do prédio, ele abriu a boca para respirar, mas a sensação de sufocamento era esmagadora.

O desespero nunca estivera tão perto. Por que tinha de ser assim?

Uma peça de bronze incrustada com uma gema gasta e sem brilho, que parecia velha e sem valor. Situ Tian lembrava-se perfeitamente daquele par de brincos — o único em todo o continente — que ele tirara da orelha na tarde seguinte ao dia em que chegou a este mundo e superou a febre. Ele sempre achara estranho ter algo balançando sob o lóbulo. O pingente ainda estava guardado no compartimento de uma mala que ele não tivera tempo de organizar.

O furo na orelha ardia por ter sido apertado com força. As pernas tremiam de medo.

— Será que não existem réplicas?
— Piada de mau gosto, Situ. Você acha que alguém falsificaria o brinco característico de um criminoso procurado apenas para ser preso e interrogado pela polícia?

Não se esqueça, ele era o criminoso com a maior recompensa de todo o continente, um valor que subia diariamente. Capturá-lo significava poder comprar duas vezes a Cidade de Orter. Na rede, qualquer rastro sobre "Tian" já atingia lances iniciais de cinco mil moedas de ouro entre os caçadores de recompensas.

Situ Tian desabou sobre o canteiro, a cabeça baixa e um sorriso amargo nos lábios. "Então, minha cabeça vale tudo isso..."

Ainda bem que as duas pessoas com quem ele conversara no mercado não conheciam o valor da peça. Ainda bem que ele não a levara para vender em uma loja de conveniência, pois, com a experiência de Wells...

Situ Tian passou a mão pelo rosto. Como voltar para casa naquele estado deplorável? Não, ele não podia voltar ainda; precisava esclarecer algumas coisas primeiro. Ele se esforçou para levantar, planejando ir para longe de casa antes de decidir o que fazer, mas foi avistado por Long Chensi e Silang, os dois pequenos que estavam na varanda comendo raspadinha. Silang tinha um olfato apurado, e Long Chensi era sensível a presenças familiares.

Ambos esticaram a cabeça. Long Chensi brilhou os olhos:
— Papai! Tem carne hoje à noite?

Silang, mais atento, estranhou a atitude do homem:
— Papai, você não vai subir?

Situ Tian, chamado, enrijeceu as costas e virou-se lentamente, sem coragem de encontrar o olhar dos filhos. "Vocês sabem? Na verdade, seu pai é um criminoso, o mais procurado de todo o continente."

"Tian, que crime desgraçado você cometeu! O maior valor de recompensa... você acha que ser caçado por todo o continente é algo glorioso?" A raiva dentro de Situ Tian crescia; ele odiava seu antecessor. Cuidar dos cinco filhos ele aceitava, afinal, não tinha família no mundo e precisava de alguém que o amparasse na velhice. Mas por que tinha de herdar esse fardo? O criminoso número um do mundo! Uma mancha impossível de apagar. Como os meninos iriam para a escola depois disso?

Um rato que entra na toca do gato para uma entrevista de emprego e consegue sair vivo! Devo agradecer por sua foto no registro estar tão desleixada que nem eu mesmo me reconheci?

Situ Tian ergueu a cabeça, acalmando a expressão que antes era uma tempestade:
— O papai vai subir agora.

Algumas coisas precisavam de uma verificação dos meninos.

— Segundo, venha aqui. — Ao entrar, o olhar de Situ Tian passou pelo primogênito, sereno e calado, e fixou-se em Xiong Mao.

— O papai voltou? — Xiong Mao, que segurava dois tubos de ensaio, virou-se e encontrou o olhar extremamente sério de Situ Tian. — O que houve?

— Venha ver isto. — Ele espalhou sobre a mesa o desenho que fizera na galeria; o papel já estava amassado, úmido e mole.

Xiong Mao reconheceu imediatamente o homem retratado:
— Por que o papai desenhou a si mesmo como era antes? Por que não desenhou como é agora?

Qualquer pessoa normal acharia a aparência atual do pai melhor. Mas como ele "viu" a si mesmo em seus tempos de desleixo? E com tanta precisão e detalhe... Ele se lembrava de que, naquela casa miserável, não havia um único espelho. Interessante.

— Não, nada, só rabiscos.

Xiong Mao estava imerso em seus próprios pensamentos e não percebeu a expressão do homem, que parecia ter sido atingido por um raio ao ouvir aquilo. Ótimo, o chapéu de criminoso estava garantido!

Situ Tian pegou a ficha de inscrição que recebera no balcão 3 da prefeitura, ainda em branco, e, ao passar pela lata de lixo na porta, rasgou-a em pedaços. Não era mais necessária.

Irritação, frustração e raiva surgiam, mas ele precisava se acalmar e pensar rápido em uma estratégia de sobrevivência para os seis. Ele não estava sozinho; se precisasse fugir, teria de levar os cinco pequenos. As crianças eram inocentes.

Primeiro, era impossível continuar naquela cidade; grandes centros tinham uma propagação de informações muito rápida. Mesmo que o desenho não fosse idêntico, quem garantiria que não havia impressões digitais no outro brinco, ou outras características registradas nos arquivos da polícia? Ele não podia correr riscos; tinha filhos para cuidar.

O emprego com salário adiantado estava fora de cogitação. A casa, na qual investira mais de cem moedas de prata e mal tivera tempo de se instalar, teria de ser abandonada. O pior era a perspectiva de viverem como fugitivos para sempre: os meninos não poderiam estudar, ele não conseguiria empregos formais, e tudo, desde o aluguel até médicos, seria muito mais caro. A menos que houvesse provas para reverter o processo...

Situ Tian tocou o queixo, pensando seriamente nas chances disso acontecer. "Tian, você é mesmo um desgraçado!"

Ele cerrou os punhos, contendo a vontade de socar a parede, entregar-se e vingar-se da sociedade, foi ao quarto, trocou de roupa e colocou um chapéu preto. Parecia discreto. Era preciso ter a consciência de um criminoso procurado.

Desta vez, precisava de dois ajudantes:
— Yan, Xiao Long.

O mais velho: "?"
O quarto: "???"
— Vamos ao mercado com o papai.
O mais velho: "Oh."
O quarto: "Ohhh! Que ótimo!"

Ao acariciar a cabeça de Long Chensi, o coração de Situ Tian ficou ainda mais amargo. Se pudesse, nunca usaria sua habilidade de "Palavra Espiritual". Ele era um mestre de palavras espirituais incompetente.

— Papai, vamos comprar muita carne! — Long Chensi balançava a mão grande de Situ Tian. Só de lembrar do olhar ressentido de Silang antes de saírem, ele sentia que o dia estava maravilhoso e o céu, excepcionalmente azul (embora já estivesse escuro).

Situ Tian sorriu levemente e, como se tivesse chegado a uma conclusão, devolveu o chapéu preto que usava ao mais velho:
— Fique com ele, Yan.

Já estava escuro; tentar esconder o rosto de propósito parecia suspeito. Com uma criança, era diferente. O mais velho aceitou.

Os três chegaram ao mercado, onde o movimento diminuía após o pico de compras.
— Papai, a carne fica ali! — Long Chensi tentou correr, mas foi segurado pela gola pelo mais velho. Não importava o quanto chutasse o ar.
— Silang disse: ouça o papai.
— Hã?

D-e-v-i-a s-e-r o S-i-l-a-n-g! Merecido que o papai não te trouxe; mesmo em casa, ainda arranja um jeito de me irritar!

— Ei, vamos fazer um acordo: você me solta e eu peço para o papai fazer bolinhos de três sabores à noite.

O mais velho foi irredutível. Long Chensi percebeu que tinha calculado mal; nem todos eram gulosos como ele.
— Tsc... — Long Chensi, com as bochechas inchadas, desistiu temporariamente da negociação e procurou pelo papai. Mas, logo em seguida, ficou boquiaberto com o que viu:
— M-meu Deus... o que aquele homem está fazendo!

Ele pretendia levar o mercado inteiro para casa?

***

**Bastidores:**
Quinto: Por que fugir depois de descobrir que é um criminoso?
Situ Tian: Não vou fugir, vou ficar parado esperando?
Quinto: ... (Não era isso que eu queria perguntar)

*Nota do autor: Obrigado pelo presente de Wanqing. Este fim de semana farei capítulos extras, mas a quantidade dependerá do entusiasmo e incentivo de vocês... PS: Alguém notou que todos os protagonistas das minhas histórias originais têm constituição espiritual? Juro que não é de propósito... Não foi o papai quem cometeu o crime, eu não aceito! Então, o que fazer...*