Dois

Mestre das Palavras Malignas Lian Luo 3951 palavras 2026-02-07 13:30:13

Do lado de fora, o frio era cortante; a pequena casa de madeira, marcada por anos de abandono e sofrimento, balançava incessantemente sob o vento gelado. A moldura da janela, há muito sem manutenção, rangia com desespero, e cada canto exalava um ar de perigo, uma ameaça constante de desabamento, fazendo com que Tian Sitú sentisse que aquele lugar era pior do que as casinhas provisórias nos canteiros de obras.

Ele abriu lentamente os olhos, deitado de costas, fitando o teto tão fino que parecia prestes a sucumbir ao peso da neve. Entrelaçava os dedos, organizando silenciosamente os pensamentos caóticos que o dominavam. Sua cabeça latejava e a garganta ardia; provavelmente estava com uma forte gripe.

“Cof, cof...”

A sequência de tosses entrecortadas parecia confirmar o diagnóstico. Pelo menos, agora, não via tudo embaçado: Tian Sitú finalmente podia discernir todos os “objetos” da casa, incluindo o que ontem julgara ser uma pilha de carvão, mas que na verdade eram montes de trapos e roupas sujas, amontoados em pequenos montículos. Havia uma mesa manca, paredes descascadas – sem nenhum charme retrô – e um chão áspero como pequenas colinas.

Após uma noite de sono tão ruim que merecia uma avaliação negativa, Tian Sitú resignou-se à realidade de ter atravessado para um lugar desconhecido. O ponto central dessa travessia era: ele, antes irmão mais velho de dois, agora era pai de cinco meninos.

Um salto verdadeiramente extraordinário.

Ele envelheceu.

Tian Sitú nunca foi ateu; cada descendente de sua família possuía habilidades especiais – a Linguagem dos Espíritos – e sua geração não era exceção. O problema era que, com o desenvolvimento da sociedade buscando equilíbrio entre as habilidades, a família Sitú tornara-se cada vez mais rara, e as limitações sobre o dom só se acumulavam. Para ele e seus irmãos, a Linguagem dos Espíritos era quase inútil no cotidiano.

Sim, o poder de Tian Sitú era um verdadeiro peso morto!

Tão irrelevante que se recusava a admitir ser seu dom; incapaz de usá-lo, incapaz de descartá-lo. Preferia nem mencionar para ninguém...

Por isso, ao descobrir que havia atravessado, sua preocupação imediata foi com seus dois irmãos, o introvertido Yù Sitú e o exigente Qiáo Sitú, e não com a possibilidade de um “poder especial” pós-travessia.

Os três irmãos sempre viveram juntos, e ele não podia deixar de se preocupar com os irmãos ainda solteiros, nem sequer conseguira preparar para eles a última panela de peixe cozido...

Ele era um irmão mais velho fracassado!

Tian Sitú franziu a testa, pensativo. Continente Loya, cidade do vento, rua da alegria... lugares que jamais ouvira falar. No mapa rasgado e amarelado não havia China, nem Estados Unidos ou Coreia.

A casa era tão pobre que não havia sequer um espelho, mas suas mãos, agora mais pálidas e endurecidas de calos, o cabelo comprido azul-escuro e ondulado até os ombros, e o tamanho reduzido de seus pés, tudo indicava: era um corpo novo, completamente estranho.

“Soul travel”, ele ouvira esse termo dos alunos de artes. Após uma noite de perguntas e sondagens, descobriu pelo filho mais velho que seu novo nome era “Tian”; o sobrenome era desconhecido, e os grandes olhos límpidos das crianças não revelavam nenhuma mentira, apenas dúvida.

Eles achavam que o pai estava agindo de forma estranha!

“Pai, você está mesmo bem?”
“Pobre papai... por que ainda não somos adultos?”
“Papai, não nos deixe! Vamos ser bons, realmente muito bons!” Os meninos choravam juntos, com narizes vermelhos.

Tian Sitú concluiu o primeiro ponto: o antigo ocupante do corpo não educava bem os filhos, mas, por ora, isso era vantajoso. Crianças que nada entendem são mais fáceis de enganar.

Logo soube, pelo menino de óculos, que não havia renda fixa, e os mantimentos para a tempestade vieram da casa de um servo do chefe do vilarejo vizinho.

Toda a família, ao passar por lá, pegou o que podia!

Segundo ponto: o antigo era um vagabundo, sem fonte de renda, recorrendo a pequenos furtos, já influenciando mal as crianças.

Com esses dois pontos, os próximos eram fáceis de deduzir. Um desocupado, sem ambição, casa tão pobre que não dava para cozinhar, expulso pela esposa – tudo fazia sentido. E aquela casa era tão arruinada que dava raiva, mas os filhos diziam que era apenas emprestada; quando a neve cessasse, teriam que sair dali.

Sem casa, sem carro, sem dinheiro, sem esposa, sem emprego... Por que, então, ter tantos filhos?

Essa era a questão que mais intrigava Tian Sitú, e também a que mais lhe causava dor de cabeça – além de estar perdido, teria que criar os filhos de outro?

Cinco! Cinco meninos! E ainda numa família tão miserável.

Era realmente revoltante.

Sem lâmpada ou vela, com portas e janelas bem fechadas por causa da neve, o interior era escuro. Os cinco meninos, magros e pequenos, encolhiam-se juntos sob um cobertor gasto, tremendo de frio num canto escuro, cochilando.

A única “cama” da casa estava ocupada por ele.

“Pai, você acordou?” O quarto filho, aquele que Tian Sitú interrogou ontem sobre os adultos, saiu cauteloso debaixo do cobertor, correndo com suas pequenas pernas até ele.

Durante todo o percurso, o quarto filho quase não fez barulho.

Por puro espírito de liderança, não queria acordar os outros quatro; não era porque dois deles tinham um mau humor matinal perigoso!

Longo. Chensi apertou os punhos, cheio de raiva: esperem até eu crescer...

Tian Sitú se surpreendeu ao sentir uma mãozinha fria tocando sua testa.

O pequeno esforçou-se, ficando na ponta dos pés, até conseguir alcançar a testa do pai, rosto ruborizado pelo esforço. A pele era suave, e a temperatura, quente e reconfortante – irresistível para um menino congelado.

Que calor gostoso! Não queria tirar a mão dali.

O gesto fez Tian Sitú lembrar do irmão mais novo Qiáo Sitú, trazendo uma onda de saudade dolorosa.

Será que voltaria a ver os irmãos?

“Está com frio? Quer dormir aqui um pouco?” Tian Sitú perguntou; afinal, agora era o pai deles.

A mãozinha foi envolvida pela mão grande e calorosa, e o menino abriu um sorriso, encantado. Poderia mesmo?

Logo respondeu com entusiasmo: “Quero!”

“Não!” O menino de óculos apareceu, ajustando os óculos com um gesto habitual; a expressão séria e madura contrastava com o rosto infantil, embora o suéter gigante o fizesse parecer uma criança brincando de adulto. “O papai está doente, não atrapalhe o descanso dele!”

Falou com convicção! Mas papai...

O menino acalmou a tensão interna, lembrando-se de que “pai” era apenas um título, nada mais!

“Mas...” Longo. Chensi mordeu o lábio, frustrado. Quem gostaria de dormir no canto gelado? Seu traseiro já estava machucado!

Se tentasse pegar o cobertor, discutir ou lutar com os outros, seria sempre derrotado. Longo. Chensi já sabia disso.

Então... não vou brigar, tenho um “pai” aqui!

“Pai!” O menino virou-se, enchendo os olhos de lágrimas. Respirou fundo, mordeu o lábio até ficar vermelho, e conseguiu fazer brotar algumas lágrimas.

Seu talento de ator era inegável! “Pai... quero muito dormir com você!”

O menino de óculos, Xiong Mao, fez uma careta de vergonha – que criança sem limites...

“Venha.” Tian Sitú, divertido com os dois, abriu os braços e, com algum esforço, colocou o menino rechonchudo na cama dura, cobrindo-o rapidamente e apertando-lhe as bochechas.

Um hábito adquirido ao cuidar dos irmãos.

Em seguida, olhou para o outro menino – tão jovem, já usava óculos. Ainda dava tempo de corrigir a visão no hospital?

“Venha também.” Estendeu os braços ao menino de óculos, sem favoritismo.

Agora era o pai deles; a responsabilidade era inescapável.

Quanto ao resto, pensaria depois.

Longo. Chensi ficou surpreso, Xiong Mao também. Quando perceberam, estavam lado a lado, abraçados pelo homem magro, sob o cobertor quase só deles. O homem devia estar com frio, mas o sorriso era caloroso.

“Vocês...” Sob a franja, os olhos das crianças eram complexos.

Esse homem...

Tian Sitú deu-lhes tapinhas nas costas, acalmando-os, e chamou os outros três, já acordados, no canto: “Venham todos.”

Os três hesitaram, imóveis.

Como se já esperasse essa reação, Tian Sitú sorriu, resignado. Arrumou os dois na cama e foi buscar os demais.

Cobriu-os com o cobertor, depois com a manta, e ficou satisfeito. Não era suficiente para aquecer, mas era melhor do que dormir encostado na parede.

Os cinco ocupavam quase toda a cama, mas ele não se importou de perder seu espaço.

“E você, pai?” Longo. Chensi perguntou sem pensar.

“Eu? Dormi o dia todo, não estou cansado. Fiquem mais um pouco, ainda é cedo.” Tian Sitú estava fraco, mas seu ânimo era bom.

Com febre alta, era melhor conseguir alguma erva ou álcool; remédios para gripe e tosse eram impossíveis.

“Pai—”

“Hm?” Tian Sitú virou-se para Longo. Chensi, que estava desconfortável. “O que foi? Na hora do almoço, eu chamo vocês.”

“Não é isso, pai...” Ai, que dor! Maldito Xiong Mao, pare de me apertar!

Vendo a expressão pálida do menino, Tian Sitú parou, “Quer ir ao banheiro?”

Longo. Chensi sentou-se de repente, quase fazendo xixi só de tanto ser apertado, mas, “Não, ai... a cama...”

Desabou!

“BOOM!” Uma nuvem de tranquilidade se ergueu no pequeno quarto.

O autor tem algo a dizer:

Ontem não teve atualização, desculpe! Por favor, não bata, me deixe um minuto para explicar...

A Imperatriz Lótus pegou um voo depois da uma, chegaria em Tóquio às cinco, mas ficou presa no aeroporto por sete horas, com energia mas sem Wi-Fi, foi terrível! Narita fechou, não nos recebeu, quase tivemos que voltar, mas finalmente pousamos em Haneda, e todo o avião ficou arrasado – o último trem já tinha partido! Peguei um táxi para casa, passei o dia inteiro no aeroporto, peço consolo e vingança contra o comandante!

Vou compensar a atualização, prometo! (batendo no ombro)

PS: O buraco ainda é novo, a terra está quente, peço flores, favoritos e carinho!