Um suave raio de sol atravessou a janela, iluminando o quarto silencioso. O relógio marcava o início de um novo dia, e tudo parecia imerso em tranquilidade.
Além de ser um simples professor de artes no ensino médio, Situ Tian possuía outra profissão secreta: era um Mestre das Palavras.
Mas o que é a Linguagem Espiritual? Na essência, trata-se de comunicação; por meio das palavras, influencia-se o ambiente. E a Linguagem Absoluta é o desejo tornado realidade, onde uma vontade pronunciada pode materializar-se neste mundo.
Naturalmente, essa habilidade varia de pessoa para pessoa, cada Mestre das Palavras possui um grau diferente de poder. A família Situ é uma linhagem ancestral de Mestres das Palavras, e todos os descendentes herdaram, em maior ou menor medida, essa capacidade. No entanto, com o progresso da sociedade, o poder tradicional e antigo da Linguagem Espiritual foi sofrendo transformações ao longo do tempo.
E que mudanças foram essas.
— Segundo irmão, o que teremos para o jantar hoje? — perguntou o caçula da família Situ, não conseguindo mais conter-se ao olhar o relógio.
O segundo irmão, tranquilo, virou a página do jornal sem sequer levantar as pálpebras. — Hoje o jantar é por conta do mais velho.
— Ah! Hã... o irmão mais velho vai cozinhar?
— E por acaso tens alguma reclamação? — O segundo irmão arqueou levemente a sobrancelha, fitando o caçula que rapidamente enrugou o rosto feito um pãozinho.
— Não, claro que não. — Ele respeitava muito o irmão mais velho, que desde pequeno fazia o papel de pai e mãe, criando a ele e ao segundo irmão. Mas isso não significava que aceitava a arte culinária "mágica" do primogênito.
A verdade é que o talento de Situ Tian na cozinha não era o desastre absoluto que todos imaginavam; seus pratos até tinham um sabor caseiro. O problema era que ele possuía mãos habilidosas demais, uma destreza no corte e na apresentação que quase transformava pratos comuns em obras de arte dignas de chef cinco estrelas. O visual era de encher os olhos, irresistível, e despertava grande expectativa, abrindo o apetite.
Mas, no final, o sabor era tão cruel quanto a realidade. Uma beleza que não se traduzia em sabor.
O caçula passou a mão pelo rosto e sugeriu, hesitante: — Segundo irmão, melhor irmos comer fora, antes que o mais velho chegue...
— Tarde demais, ele já está em casa. — largando o jornal, o homem levantou-se e, ao passar pelo irmão menor, afagou-lhe a cabeça em gesto de solidariedade. — Melhor preparar um chá digestivo, acho que o humor do mais velho hoje não está bom.
O caçula estremeceu, erguendo devagar a cabeça desalinhada. — Ir-irmão mais velho... Quando foi que chegou à porta?
Situ Tian, ao tirar o casaco, anunciou calmamente: — Hoje teremos peixe cozido apimentado.
— P-peixe cozido apimentado?! — Era daquela receita lendária, de cor dourada e reluzente, com aparência suculenta, brotos de feijão a acompanhar, e um aroma picante de dar água na boca... mas que, no final, tinha gosto de sopa de pepino com ovo mexido escondido.
Coitado do peixe, será que não vai chorar, irmão? Isso é um crime! Quero protestar!
Ignorando o irmão quase em lágrimas, Situ Tian tirou as luvas brancas e foi direto à cozinha, retirando do congelador a carpa destinada a ser separada de seu par ideal.
Quem disse que peixe cozido precisa obrigatoriamente de broto de feijão e cogumelos? Fatias de pepino e ovo também são ótimos.
— Caçula, esse prato é muito apimentado, pode inflamar os dentes; você arrancou um ontem, faço assim para o seu bem. — Situ Tian lançou um olhar ao irmão, que tentava sorrateiramente colocar brotos na panela.
Espremendo as palavras entre os dentes, ele murmurou: — Obrigado, irmão mais velho...
Em silêncio, o caçula deixou a cozinha, e Situ Tian ficou sozinho. Com movimentos ágeis, cortou o peixe, abriu, limpou, fatiou o pepino com precisão, bateu os ovos no prato; tudo transcorreu com fluidez, como uma coreografia graciosa.
O aroma do óleo quente espalhou-se rapidamente, mas, sem perceber, uma gota de água saltou para dentro da panela fervente, espirrando óleo direto no olho esquerdo de Situ Tian.
— Ah! — Ele fechou o olho por reflexo, levando o braço para esfregar.
A ardência no olho foi tanta que não notou quando o braço esbarrou na alça da frigideira. Um estrondo, e a panela de peixe tombou.
A seguir, Situ Tian perdeu os sentidos. O caçula nunca mais provou o lendário peixe apimentado com pepino do irmão.
No ano 1782 da Era Negra, durante o solstício de inverno, o frio rigoroso não arrefeceu por muito tempo o espírito combativo do povo do continente Loya.
Às margens do rio Cerro, as chamas da guerra continuavam a se espalhar. Só na noite anterior, quando uma nevasca abrupta e intensa congelou até o rio, os incansáveis povos da Luz e da Noite recolheram, a contragosto, suas armas, recuando para seus respectivos territórios.
O clima extremo prejudicava a força dos guerreiros humanos, e os suprimentos começavam a escassear. Mas, na verdade, o caos instaurava-se dentro do próprio povo da Luz.
Sua fé suprema — o Senhor das Asas Luminosas, Slate — desaparecera misteriosamente.
— Eminência, o que faremos agora?!
— Oh, céus, que toda a nossa gente rogue pelo retorno seguro do Senhor das Asas Luminosas!
— Querido Senhor das Asas Luminosas, volte para nós!
— Silêncio! — No púlpito, um ancião de cabelos grisalhos, envolto em manto branco, golpeou com força o cajado no chão de cimento. Em um instante, o que era um mercado barulhento silenciou-se.
— Ouçam bem! O desaparecimento do Senhor das Asas Luminosas certamente tem a ver com aqueles desprezíveis do povo da Noite! Por nosso Senhor, por nossa fé máxima, abriremos caminho a ferro e sangue!
— À luta! — Os anciãos influentes e líderes tribais levantaram suas armas, inflamados, ecoando em uníssono pelo templo.
— Não deixaremos nenhum deles escapar!
O povo do continente Loya era naturalmente belicoso, disso não se podia duvidar.
Com líder, lutam. Sem líder, lutam ainda mais!
E no extremo sul deste continente, no vilarejo tão pobre e esquecido que nem o governo local queria reconhecer, Situ Tian, derrubado por uma panela de peixe, abriu os olhos confusos e sentou-se devagar numa cama dura, segurando a testa, a mente turva e zonza.
Onde estou?
Apertou as têmporas, buscando clareza, pois tudo ao redor era estranho. Uma tábua de madeira dura, coberta por um pano velho, servia de cama. O quarto, grande, não tinha sequer uma mesa decente. Não havia lâmpada, nem pensar em outros eletrodomésticos.
A janela de madeira balançava ao vento, frágil, e no chão, abaixo da janela, acumulavam-se blocos de neve, o frio cortante e branco dominando tudo.
Instintivamente esfregou as mãos, só então sentindo...
Dentro do quarto, fazia um frio de gelar a alma! O vento entrava por todos os lados!
— Atchim! Atchim! — Com frio, encolheu-se sob a colcha.
Na verdade, nem se podia chamar de colcha, pois não havia algodão algum, e era tão fina quanto o lençol encardido sob ele.
Era realmente uma casa sem nada!
Pobre era pouco para descrever aquilo; talvez até as baratas já tivessem partido chorando.
Mas... onde estava?
Tentou descer da cama, mas uma tontura violenta o derrotou, a garganta queimando, e desabou de volta, sentindo braços e pernas doloridos.
Havia sofrido uma concussão com a panela de peixe? Castigo por separar o casal ideal?
Enquanto se perdia em dúvidas, a porta, tão podre que deixava cair lascas, foi aberta cuidadosamente.
Situ Tian semicerrrou os olhos, mas não viu ninguém entrar, embora alguém tenha fechado a porta... por dentro.
A visão ainda turva, mas o ouvido aguçado.
Havia gente ali, mais de uma pessoa.
— Olha, ele acordou! — disse uma voz clara de menino.
A pobre porta abriu e fechou várias vezes, passos miúdos soaram, outra voz masculina, um pouco mais grave: — Acordou mesmo?
— Sim.
Situ Tian: "???"
As vozes vinham de baixo.
Pisca, olha para a direção dos sons, um, dois, três, quatro... cinco. Cinco pequenos, de rostos indistintos, alguns segurando algo, outros tentando, com esforço, subir na cama dura.
As pernas curtas tornavam a escalada difícil.
— Vocês são filhos de quem?
...
Os cinco pararam, congelados pela pergunta.
O ar pareceu solidificar-se; ninguém respondeu.
O menino que já conseguira subir, bochechas vermelhas e mãos pálidas, puxava discretamente a ponta da colcha, querendo claramente entrar em busca de calor. Mas!
— Cof, cof, você acordou, está se sentindo mal? — perguntou ele, erguendo o rosto, encontrando o olhar de Situ Tian.
— Estou bem. — Acostumado a cuidar dos irmãos mais novos, Situ Tian sentia simpatia por crianças. Mesmo com a visão nebulosa, de perto pôde ver o rosto redondo do menino, os olhos brilhantes, o dente quebrado.
Um garoto simpático. Não resistiu a bagunçar os cabelos dele, como fazia com o irmão caçula, e suavizou a voz: — Diga ao tio, onde estão os adultos dessa casa?
O menino moveu os lábios em silêncio, mas olhou para os outros debaixo da cama.
As quatro carinhas devolveram o olhar, como se zombassem: "Te apressaste, agora te vira! Queremos ver como vais responder!"
O garoto se encolheu.
Bando de pestinhas! Esperem só eu crescer...
— Por que não responde? — Situ Tian perguntou, esfregando os olhos.
O pequeno de óculos ajeitou a armação no nariz.
Se continuar assim, não será bom para nós...
Olhares se cruzaram no ar, rápidos demais para serem notados, e então, em coro, as crianças de olhos brilhantes gritaram com vozes infantis:
— Papai! Você finalmente acordou!
Situ Tian: "..."
Fim do capítulo.