Capítulo XIV — Caído no Campo de Batalha
Página (1/3)
A chuva torrencial castigava tudo.
Li Han, vestido com o uniforme militar e segurando um guarda-chuva de papel oleado, permanecia sobre as muralhas da cidade de Xiaoyang, em meio aos ventos furiosos e à tempestade. Até onde a vista alcançava, havia apenas uma extensão de terra amarela, lamacenta e estéril, onde nem um fio de relva sobrevivia. O frágil acampamento militar tremia sob o açoite da ventania e da chuva, enquanto os soldados, magros e pálidos, curvavam as costas sob o aguaceiro.
Os víveres do exército estavam escassos.
Ainda assim, os nobres de Manluomen continuavam entregues a canções, danças e banquetes.
— Por que nós dois conseguimos enxergar a verdade, enquanto eles continuam obstinados em não compreendê-la? — perguntou ela.
— Eles não estão cegos pela teimosia. Estão com medo — respondeu Li Han.
— E de que serve ter medo?!
— Fique tranquila… — disse Li Han com firmeza. — Mesmo que Xiaoyang não possa ser salva, defenderei Xiaoshan até a morte. A menos que Xiahou Yan passe por cima do meu cadáver, jamais permitirei que ele atravesse Xiaoshan e avance diretamente até o palácio real de Sashi.
De repente.
Um toque de trombeta, alto e estrondoso, rasgou a tempestade.
Ela e Li Han viraram-se, atônitos, na direção de onde vinha o som — era o exército de Daqian!
Li Han enfiou o guarda-chuva de papel oleado em suas mãos e então gritou aos soldados:
— Protejam a imperatriz Dairan e levem-na de volta ao acampamento!
Vários soldados imediatamente a escoltaram muralha abaixo, correndo em direção ao acampamento.
A guerra.
Estava prestes a começar.
Mais de dez mil soldados de Daqian carregavam longas escadas e avançavam em massa até a base das muralhas. Encostavam-nas contra a pedra e subiam com agilidade.
Os soldados de Sashi, posicionados no alto das muralhas e favorecidos pela vantagem do terreno, disparavam continuamente contra as tropas de Daqian lá embaixo. Grandes grupos de soldados eram atingidos e tombavam. Os que tinham a sorte de sobreviver e alcançar o topo das muralhas eram empurrados pelos soldados de Sashi para a base, despencando de uma altura imensa e sendo reduzidos a uma massa de carne e ossos.
Outros dez mil soldados de Daqian carregavam enormes escudos de aço e formavam uma falange diante dos portões da cidade.
Do alto das muralhas, os soldados de Sashi disparavam sem parar contra a formação de escudos. Os soldados de Daqian, porém, escondiam-se habilmente atrás deles, protegidos das flechas. Quando os arqueiros de Sashi continuaram a atirar, a formação de escudos mudou subitamente de disposição. Pelas frestas entre as placas de aço, os arqueiros de Daqian retesaram os arcos e dispararam contra os defensores no alto das muralhas.
Muitos soldados de Sashi foram atingidos e tombaram, ou caíram das muralhas, deixando um rastro de mortos e feridos.
Aproveitando o ímpeto da vitória, o exército de Daqian avançou.
Mais de mil soldados ergueram juntos um enorme tronco e, aos gritos cadenciados, golpearam repetidamente os portões de Xiaoyang. Os demais soldados de Daqian continuavam a disparar contra os defensores de dentro da formação de escudos de aço, ou permaneciam diante dos portões, brandindo as armas e aguardando o momento de atacar.
Dentro dos portões, os soldados de Sashi usavam os próprios corpos para impedir sua queda.
O inimigo era forte, enquanto eles eram fracos. A diferença de forças era enorme.
Todo aquele esforço não passava de uma tentativa inútil de deter uma pedra com um ovo.
Por fim, os portões de Xiaoyang não resistiram ao ataque feroz do exército de Daqian e foram arrombados. Num instante, a entrada da cidade ficou escancarada.
Incontáveis soldados de Daqian atravessaram a chuva e invadiram Xiaoyang.
As tropas de Sashi e Daqian mergulharam numa batalha caótica. Armas se chocavam, soldados lutavam até a morte, lâminas curtas cintilavam, espadas cruzavam-se, e o vento carregava o cheiro de sangue enquanto rios rubros corriam pelas ruas…
A carne dilacerada que voava pelo ar obscurecia a visão de Dairan. Mesmo cercada por soldados de Sashi, ela quase foi atingida várias vezes por espadas e lanças.
Por sorte, conseguiu retornar ao acampamento sem um arranhão.
O chamado acampamento militar não passava de uma caverna de barro amarelo, encharcada pela chuva.
Hai Jiang entrou correndo na caverna e disse-lhe, ofegante:
— O exército de Daqian já subiu até Xiaoshan, e os soldados de Sashi estão lutando desesperadamente para contê-los. Pela segurança da imperatriz Dairan, o segundo príncipe ordenou que a escoltássemos de volta ao palácio real!
De volta ao palácio?!
Assim que Xiaoshan caísse, mesmo que Dairan conseguisse fugir para o palácio de Sashi, não escaparia ao cerco e à aniquilação pelas tropas de Daqian!
Ela perguntou a Hai Jiang:
— Onde está Li Han? Preciso encontrá-lo!
— Imperatriz Dairan, por favor, venha conosco imediatamente! Se não pudermos garantir sua segurança, o segundo príncipe jamais conseguirá lutar em paz!
Gotas enormes cobriam o rosto de Hai Jiang. Já não era possível distinguir se eram gotas de suor ou de chuva.
— E Li Han? O que acontecerá com ele? — Ela balançou a cabeça repetidamente. — A diferença entre nossas forças é tão grande que jamais poderemos derrotar Xiahou Yan! Se é assim, por que não recuamos juntos?
— Mesmo que lhe reste apenas o último sopro de vida, o segundo príncipe jamais recuará!
Hai Jiang engasgou, deixando escapar lágrimas de homem.
Defender Xiaoshan até a morte era a escolha de Li Han.
— Preciso encontrar Li Han!
Hai Jiang e dezenas de soldados cercaram-na outra vez.
Furiosa, ela gritou:
— Saiam da minha frente!
— As ordens militares são inquestionáveis! — declarou Hai Jiang, com tristeza e uma solenidade heroica. — Soldados, levem a imperatriz Dairan à carruagem e façam sua “escolta”!
Ao comando do vice-general Hai Jiang, dezenas de soldados a cercaram com reverência e brutalidade, conduzindo-a até a carruagem dourada.
De repente.
Uma flecha disparada de longe, certeira como se tivesse atravessado cem passos para atingir o alvo, cravou-se no soldado ao lado dela.
O homem morreu na mesma hora.
— São soldados de Daqian!
Os soldados de Sashi mergulharam imediatamente no caos. Em meio à confusão, vários foram novamente atingidos por flechas e tombaram.
— Depressa! Vamos embora!
Hai Jiang protegeu-a com o próprio corpo.
Os demais soldados de Sashi ficaram para trás, cobrindo a retirada. O grupo desviou-se de um lado para outro, tropeçando e escondendo-se, enquanto corria em direção à carruagem dourada.
Ela estava prestes a subir quando viu, de repente, incontáveis soldados de Daqian perseguindo o grosso das tropas de Sashi e avançando como uma torrente enlouquecida.
Sem ter para onde recuar, os soldados de Sashi ergueram muralhas de carne e sangue, dispostos a impedir, com a própria vida, que o exército inimigo continuasse avançando.
O vento carregava o cheiro de sangue.
Era uma visão capaz de gelar o sangue nas veias.
A chuva de sangue tornava tudo indescritivelmente horrendo.
Milhares e milhares de guerreiros tombavam, submersos pelo sangue espesso. Dezenas de milhares avançavam sobre eles, pisando nos cadáveres cobertos de espuma rubra e continuando a lutar.
De repente!
Ela viu quem estava na linha de frente do exército de Sashi.
Era Li Han!
Através do vendaval feroz e da chuva de sangue, ela gritou de longe:
— Li Han!
— Dairan, vá embora! — rugiu ele.
O brado de Li Han pareceu rasgar o céu.
De repente, ela teve um pressentimento: aquela batalha seria brutal, e quase ninguém sobreviveria.
Nesse instante, várias flechas disparadas do nada atingiram com precisão os soldados de Sashi ao seu lado.
Com um estalo seco, os corpos de vários soldados tombaram rígidos sobre a corrente de sangue, espirrando líquido rubro por todo o rosto e o corpo de Dairan.
Ela ficou paralisada de horror.
Então, mais uma vez, ouviu o rugido de Li Han:
— Dairan, vá! Depressa!
Enquanto ele gritava, Hai Jiang empurrou-a à força para dentro da carruagem dourada.
Página (1/3)
Página (2/3)
Ela estava prestes a saltar da carruagem sem se importar com mais nada quando o veículo, disparando em alta velocidade, sacudiu-a e a fez cair dentro dele. Com dificuldade, apoiou-se na parede interna e conseguiu se levantar. Com ainda mais esforço, ergueu a cortina da carruagem…
O que viu diante dos olhos foi suficiente para fazer seu coração parar!
Várias flechas impiedosas atravessaram o vento ensanguentado e cravaram-se violentamente na armadura de Li Han.
Filetes de sangue escuro escorriam espessos pelos cantos de sua boca.
Atingido por várias flechas, Li Han sabia que sua morte se aproximava.
Desde o primeiro instante em que entrara na batalha, ele já previra aquele momento. Como poderia não saber que não era páreo para Xiahou Yan?
Tudo o que fizera era para proporcionar à mulher que amava alguns dias a mais de tranquilidade, mais tempo para que ela pudesse fugir.
Nada além disso.
Gravemente ferido.
Consumido por uma dor que lhe queimava os ossos e o coração.
Ainda assim, Li Han não ousava cair.
Ele era o segundo príncipe de Sashi!
Era o esteio espiritual do exército de Sashi!
Suportando à força aquela dor lancinante, Li Han brandiu a espada e arrancou a lança das mãos de um soldado de Daqian.
Cravou a lança roubada no chão revolto, coberto de sangue, atrás de si. Encostado nela, com a espada erguida, Li Han reuniu suas últimas forças e gritou:
— Hoje, eu, Li Han, conduzirei os guerreiros de Sashi na defesa de nossa terra! Se Xiaoshan cair, eu, Li Han, não buscarei sobreviver! Espero que todos os guerreiros de Sashi compartilhem de minha inimizade, defendam Xiaoshan até a morte e protejam nossa pátria!
— Defender Xiaoshan até a morte! Proteger nossa pátria!
— Defender Xiaoshan até a morte! Proteger nossa pátria!
Os soldados de Sashi gritavam com fervor, brandindo suas armas enquanto lutavam ferozmente contra o exército de Daqian.
As flechas cravadas em seu corpo já haviam penetrado até os ossos, mas Li Han continuava recusando-se a sucumbir.
Um grupo de soldados de Daqian avançou contra ele com lanças.
Li Han ainda não tivera tempo de brandir a espada quando várias lanças perfuraram sua armadura e se enterraram violentamente em sua carne.
Os soldados de Sashi gritavam desesperadamente, tentando aproximar-se para salvá-lo, mas eram empurrados cada vez mais para longe pelas sucessivas ondas de tropas de Daqian.
Os inimigos arrancaram as lanças do corpo de Li Han.
Uma dor capaz de triturar seus ossos o devorou.
Com a determinação intacta, Li Han continuou apoiado na lança, segurando a espada, recusando-se a cair e a fechar os olhos.
Apesar disso, o brilho de seus olhos límpidos começou a desaparecer lentamente.
De repente.
Ao seu lado, ecoou o grito de Dairan, dilacerado pela dor:
— Segundo irmão! Segundo irmão! Você não pode morrer! Ainda tenho coisas para lhe dizer… Segundo irmão! Segundo irmão!
Como desejava ouvir o que Dairan queria dizer.
Como desejava vê-la mais uma vez.
Como desejava cantar outra canção para ela.
Como desejava afastar com delicadeza os fios soltos de sua testa.
Como desejava poder protegê-la por toda a vida…
Entretanto…
Li Han já não podia mais.
A escuridão submergiu o vermelho do sangue, e o frio substituiu o calor da vida.
Embora Li Han não tivesse fechado os olhos, o brilho deles desapareceu para sempre.
…
…
— Ah!!!
Ela ergueu-se num sobressalto, gritando, cobriu o rosto com as duas mãos e começou a chorar descontroladamente.
Não era um sonho!
Por quê?!
Por que seu segundo irmão tivera de morrer de forma tão terrível?!
Por que o Céu era tão cruel a ponto de fazê-lo morrer de maneira tão atroz?!
— Segundo irmão!
Lágrimas de tristeza escorreram ardentes, queimando seu rosto, suas mãos e cada espaço entre seus dedos, causando uma dor lancinante.
Não apenas o rosto, as mãos e os dedos: até sua pele, seus ossos, seus órgãos internos — tudo parecia ser golpeado por martelos, corroído por uma dor que penetrava até a medula.
— Ah!!!
Ela gritou fora de si, com o coração despedaçado e a alma consumida.
O grito de uma dor mortal saiu de sua boca, mas imediatamente refluiu para a garganta.
Queria continuar chorando, gritando e clamando, porém aquela dor esmagadora lhe encheu e comprimiu a garganta. Ela já não conseguia pronunciar palavra alguma, nem emitir outro grito. Apenas as lágrimas quentes continuavam a cair como uma chuva torrencial.
Ye Xinyi entrou correndo no quarto de Qiao Dairan.
Estava tão desesperada que quase todos os dedos do pé direito haviam escapado pela frente do chinelo, enquanto o chinelo esquerdo, incapaz de parar a tempo, voara vários metros pelo corredor.
Em tamanho estado de desordem, Ye Xinyi sequer se importou. Correu diretamente até a cama de Qiao Dairan.
Ali estava ela.
Qiao Dairan enterrava profundamente o rosto entre as mãos. Os ombros estremeciam, o corpo inteiro tremia, e ela chorava de maneira tão convulsiva que várias vezes pareceu prestes a sufocar.
Ye Xinyi já estava acostumada aos pesadelos noturnos de Qiao Dairan.
Mas aquela era a primeira vez.
A primeira vez que Qiao Dairan chorava com tamanho desespero.
O coração de Ye Xinyi disparou. Ela sentou-se depressa ao lado da prima e, sem dizer uma palavra, abraçou-a.
Qiao Dairan não soltou um resmungo de desprezo, não pediu que Ye Xinyi a soltasse e tampouco a empurrou. Em vez disso, abraçou-a com força. Incapaz de chorar em voz alta, apenas soluçava e estremecia como se estivesse sofrendo convulsões.
— Já passou… já passou… não tenha medo… não tenha medo…
Ye Xinyi acariciava suas costas, consolando-a com a voz trêmula.
Queria perguntar que pesadelo Qiao Dairan tivera daquela vez.
Página (2/3)
Página (3/3)
Mas não ousou.
Também compreendia que ainda não era hora de fazer perguntas. Naquele momento, Qiao Dairan precisava apenas de companhia.
Qiao Dairan continuou chorando, sem parar, sem parar…
As lágrimas tornavam-se cada vez mais quentes, enquanto o suor frio lhe cobria o corpo. As palmas das mãos e o rosto queimavam sob o ardor das lágrimas, mas o restante de seu corpo estava tão frio que o coração de Ye Xinyi se apertava.
— Não chore mais… já passou… não tenha medo… não tenha medo…
Além de repetir aquelas consolações inúteis e apertar contra si o corpo frio e trêmulo de Qiao Dairan, Ye Xinyi não sabia o que fazer.
Qiao Dairan continuou chorando, incessantemente, como se quisesse espremer toda a água de seu corpo e transformar até o próprio sangue, a própria vida e tudo o que possuía em lágrimas, oferecendo-as como sacrifício à pessoa que mais amara em toda a sua existência.
Ela jamais imaginara…
Que Li Han morreria de forma tão brutal!
— Segundo irmão… segundo irmão… ele morreu…
Ye Xinyi não encontrou palavras para responder. Apenas continuou acariciando as costas frias e trêmulas de Qiao Dairan.
— Mesmo que… mesmo que, para esta época, meu segundo irmão já tenha morrido há mil anos… ainda assim… eu sempre desejei que ele tivesse uma vida tranquila e segura… Se tivesse de morrer… se tivesse de morrer…
A garganta voltou a fechar-se.
Era como se a lança cravada nas costas de Li Han tivesse atravessado sua garganta.
Ela sentia dor no corpo inteiro, não apenas no coração e na garganta. Por fim, engoliu a lança que lhe atravessava a garganta, como se ela rasgasse suas entranhas.
— Mesmo que tivesse de morrer… meu segundo irmão deveria… deveria ter morrido em seu próprio palácio, depois de uma vida longa… e não… não…
— E não o quê? — perguntou Ye Xinyi.
Ela compreendia que, por mais doloroso que fosse, Qiao Dairan precisava dizer tudo.
— E não morrer de maneira tão terrível! Meu segundo irmão era o segundo príncipe de Sashi… Por quê? Por que tiveram de mandá-lo para o campo de batalha? Por quê? Por que tiveram de fazê-lo morrer de forma tão cruel? Segundo irmão… ele deve ter sentido tanta dor!
Ela voltou a chorar em voz alta.
Chorou por muito tempo.
Entre soluços e tremores, contou a Ye Xinyi, aos poucos e entrecortadamente, tudo o que vira no “sonho”.
Enquanto escutava, Ye Xinyi também começou a tremer de frio, acompanhando o corpo de Qiao Dairan. Seus olhos igualmente se encheram de lágrimas.
— Por que meu segundo irmão foi tão tolo…? Por mais importante que fosse a terra de Sashi, ele não deveria ter carregado tudo sozinho! Onde estava o imperador Jinse? Onde estava a imperatriz Yuanluo? E o príncipe herdeiro Li Yuan? Por quê? Por que tinham de deixar meu segundo irmão morrer daquele jeito… daquele jeito…
As palavras morreram em meio ao choro.
— Talvez… — Ye Xinyi também não tinha certeza. — O segundo príncipe não quisesse proteger apenas a terra de Sashi, mas também…
— Também?
— Também a pessoa que mais amava.
Ye Xinyi suspirou.
— Para que a mulher amada pudesse desfrutar de alguns dias a mais de paz, ele marchou voluntariamente para o campo de batalha, mesmo sabendo que caminhava para a morte… Li Han realmente amava você.
As palavras de Ye Xinyi fizeram todas as lágrimas que ainda restavam em Qiao Dairan transbordarem novamente.
Qiao Dairan sentia dor.
Sentia dor em cada parte do corpo.
Ye Xinyi abraçou-a com ainda mais força.
— Não chore mais. O segundo príncipe Li Han não gostaria de vê-la chorando. Não gostaria de vê-la sofrendo tanto.
Era verdade…
Seu segundo irmão não gostaria de vê-la sofrer.
Ele sequer suportava vê-la chorar.
Em seus ouvidos, parecia ecoar a voz de Li Han:
— Quem fizer você derramar uma lágrima me fará derramar cem gotas de sangue.
Não podia chorar.
Não devia chorar.
Não tinha permissão para chorar.
Seu segundo irmão queria que ela continuasse vivendo feliz.
Mas…
Não chorar?
Como isso seria possível?
Felicidade?
De onde ela viria?
Ainda assim…
Seu segundo irmão não queria que ela chorasse.
Seu segundo irmão queria que ela fosse feliz.
Ela compreendia.
Compreendia tudo.
Faria o possível para obedecê-lo, mas não naquela noite, e muito menos naquele instante.
Que lhe permitissem chorar descontroladamente durante toda a noite. Aquilo também seria uma forma de oferenda, feita por ela, mil anos depois, em memória de seu segundo irmão.
Qiao Dairan chorou por muito, muito, muito tempo…
Só quando ficou completamente exausta foi que, entre a consciência e o sono, fechou os olhos. Parecia adormecida, mas ainda murmurava sem parar:
— Segundo irmão…
Ye Xinyi sentou-se ao lado da cama, observando o rosto coberto de lágrimas de Qiao Dairan e ouvindo-a repetir continuamente aquelas palavras.
Ye Xinyi suspirou, pensativa:
O amor dos antigos realmente penetrava até os ossos.
Depois pensou:
Não era de admirar que ela chorasse daquele jeito. O segundo príncipe Li Han realmente tivera uma morte grandiosa e trágica! Hoje em dia, todas as pessoas que acompanham as pesquisas sobre as relíquias da mansão de Wanshi dizem que os nobres de Manluomen eram um bando de inúteis que só sabiam comer, beber e se divertir. Não era de admirar que seu país tivesse sido destruído! Aquele segundo príncipe devia ser o único homem de verdade entre todos os nobres de Manluomen. Admirável! Realmente admirável!
Então Ye Xinyi teve outro pensamento:
Mil anos atrás, havia um homem nobre e másculo chamado Li Han. Mil anos depois, havia um superbonitão chamado Ni Han… Os nomes soavam quase iguais… Será que mudar para um nome bonito fazia a aparência melhorar também?!
Ye Xinyi assentiu em silêncio.
Devia ser isso. Depois que sua prima trocara o nome de Qiao Xinghua para Qiao Dairan, sua beleza realmente aumentara de maneira visível!
Hum.
Ela também encontraria uma oportunidade para mudar de nome.
Mas, naquele momento, o mais importante não era trocar de nome. Era permanecer ao lado de Qiao Dairan e cuidar dela.
Ye Xinyi olhou para Qiao Dairan, que, mesmo dormindo, não parava de chorar e murmurar:
— Segundo irmão…
Página (3/3)