Capítulo Onze: Dayan, este homem te ama profundamente
Página (1/3)
— A princesa despertou?
À sua volta, chegaram as saudações aflitas de Ruoye e das criadas do palácio.
Ela respirava aos arrancos, enquanto o suor frio lhe encharcava a fina túnica de seda lisa.
Ruoye perguntou, nervosa:
— Vossa Alteza sente algum mal-estar? Irei chamar o médico imediatamente para examinar-lhe o pulso...
Com uma das mãos apoiada na testa dolorida, ela acenou debilmente para Ruoye com a outra e disse, sem forças:
— Não é preciso chamar o médico. Estou bem... Eu só... só tive um pesadelo.
No sonho...
Shang Ying obrigara Dai Ran a beber uma poção fatal.
Não.
Não fora um sonho.
Não existiam sonhos tão nítidos; tão nítidos que cada desenho e cada dobra do luxuoso traje que Shang Ying vestia pareciam ter sido gravados à força em sua mente.
Aquilo se parecia mais com a lembrança de reviver os últimos momentos de Dai Ran.
Parecia mais que Dai Ran estivesse a lembrá-la de que devia guardar tudo com clareza, lembrar-se firmemente, recordar-se para sempre.
Um calafrio aterrador brotou atrás de suas orelhas e espalhou-se por todo o corpo...
Embora fosse primavera, embora estivesse deitada sobre uma cama alta e macios travesseiros, embora várias criadas do palácio a acompanhassem com preocupação, ela ainda sentia o coração tomado por um frio glacial.
Ruoye baixou a cabeça, as sobrancelhas finas profundamente franzidas, e murmurou:
— Será que... a princesa teve uma premonição?
— Uma premonição?
Ela virou-se bruscamente para Ruoye. As gotas de suor que ainda não tivera tempo de enxugar escorreram por seu rosto molhado e caíram sobre a colcha de fios dourados, espalhada por metade da cama.
De repente, lembrou-se.
Suas lágrimas haviam caído sobre o traje negro de seda de Li Han, que se estendia por metade da cama, florescendo em manchas de tinta.
Desviou os olhos.
Olhou para a janela.
Lá fora, tudo continuava mergulhado na escuridão.
Mas não era o negro silencioso que precede o amanhecer. A escuridão do lado de fora agora era a de uma tempestade prestes a desabar, com o vento enchendo os pavilhões.
— Por que ainda não amanheceu?
— Respondendo a Vossa Alteza, agora é meia-noite. Ainda faltam várias horas para o amanhecer.
Meia-noite?
Como era possível?
Quando abrira os olhos da última vez, já estava quase amanhecendo... Será que... dormira novamente por um dia inteiro?
— Por que não me acordaram?
— Respondendo a Vossa Alteza, nós tentamos acordá-la esta manhã. Mas... a princesa havia inalado incenso soporífero e só despertou agora.
Incenso soporífero?
Junto ao nariz, pareceu sentir outra vez o leve aroma masculino que emanava de Li Han... Então aquilo não era um perfume masculino, mas incenso soporífero.
Por que Li Han usara incenso soporífero contra ela?
Será que...
Um sobressalto percorreu-lhe o peito!
Baixou rapidamente a cabeça e olhou para a túnica de seda lisa que vestia...
Não, não, não...
Ela meneou a cabeça sem parar.
A ternura transbordante nos olhos límpidos de Li Han ainda pairava diante de seus olhos.
Acreditava que Li Han jamais seria capaz de fazer algo tão vil a Dai Ran.
Mas...
Um pressentimento sinistro aproximou-se de seu rosto...
— Durante o dia e a noite em que permaneci inconsciente, aconteceu... alguma coisa?
— Respondendo a Vossa Alteza, de fato aconteceu...
— O que aconteceu?
— O segundo príncipe... o segundo príncipe foi nomeado Grande General da Pacificação Distante... e partiu para defender a fronteira.
— Defender a fronteira?!
Ela aspirou o ar com força.
— Por quê?!
Grande General da Pacificação Distante... Que título majestoso!
Mas nomear um nobre de Manluomen como general e enviá-lo para a fronteira... aquilo não passava de um exílio mortal!
Li Han podia ser indomável, mas era também profundamente amado pela imperatriz Yuanluo. Como poderia ter sido exilado sem motivo?
Ela olhou para Ruoye.
O corpo de Ruoye tremia. Ela gaguejava, esquivava-se e não ousava falar com clareza.
— Ruoye, conte-me tudo o que sabe... Considere que estou lhe pedindo, por favor. Está bem?
— Ruoye não ousa! Ruoye não ousa! Se Vossa Alteza deseja saber, Ruoye certamente contará tudo, sem esconder nada!
Ao ouvir a palavra “pedindo”, Ruoye empalideceu de medo.
— Então fale logo!
Ela estava consumida pela ansiedade.
Página (1/3)
Página (2/3)
— Respondendo a Vossa Alteza... — Ruoye falou em voz baixa. — O segundo príncipe empunhou uma espada, invadiu os aposentos da senhorita Shang Ying e tentou assassiná-la...
— Shang Ying morreu?!
— Não... — Ruoye tentou esconder a decepção. — Embora o segundo príncipe possua artes marciais incomparáveis, depois de desembainhar a espada e esfaquear a senhorita Shang Ying uma vez nas costas e outra no peito, foi detido pelos guardas que invadiram o aposento.
— Qual é o estado dos ferimentos de Shang Ying?
— A senhorita Shang Ying não corre perigo de vida, mas ficará com duas cicatrizes que jamais desaparecerão. Ao saber do ocorrido, seu pai, Lorde Yan Huai, e sua mãe, Lady Peike, foram pedir explicações à imperatriz Yuanluo. Naturalmente, a imperatriz protegeu o segundo príncipe, mas...
— Mas o quê?!
— Ao lado da imperatriz Yuanluo também estava o primeiro príncipe. Quando soube que a senhorita Shang Ying havia sido ferida, ele chegou a derramar lágrimas de homem diante de todos... No instante em que o primeiro príncipe chorava, o segundo príncipe tomou com fúria a espada de um guarda e a brandiu... A coroa dourada que prendia os cabelos do primeiro príncipe caiu imediatamente no chão do salão... Todos os guardas e criadas do palácio se atiraram ao chão, aterrorizados; até a imperatriz Yuanluo perdeu a cor. Então... então... o segundo príncipe disse ao primeiro príncipe, ainda assustado, palavras extremamente rebeldes...
— O que ele disse?!
— Ruoye não ousa dizer...
— O que ele disse, afinal?!
— O segundo príncipe disse... que, se o primeiro príncipe ousasse voltar a manter relações ilícitas com a senhorita Shang Ying, então... então... o que cairia no chão do salão já não seria a coroa dourada que prendia os cabelos do primeiro príncipe, mas... mas a cabeça do primeiro príncipe...
Ruoye ajoelhou-se ao lado da cama e começou a bater a testa no chão, repetidamente.
— Perdoe-me, Vossa Alteza! Ruoye realmente não ousa repetir palavras tão rebeldes!
Da próxima vez, o que cairia no chão do salão seria a cabeça de Li Yuan.
Era isso?
Ela fechou os olhos com força.
Ao lado de seus ouvidos, pareceu ouvir a voz firme de Li Han:
— Dai Ran, quem quer que ouse fazer você derramar uma lágrima, eu o farei derramar cem gotas de sangue.
Mas...
Ela não era a verdadeira Dai Ran.
Suspirou e perguntou, cheia de culpa:
— Foi por causa disso que Li Han foi enviado para defender a fronteira?
— Não foi exatamente assim.
— Então conte tudo de uma vez!
— Embora o segundo príncipe tenha dito... aquelas palavras... a imperatriz Yuanluo o ama profundamente e não suportava a ideia de enviá-lo para as terras geladas da fronteira. A intenção da imperatriz era apenas confiná-lo em seu palácio. Mas o segundo príncipe disse que, depois da recente mudança de soberano no Reino de Daqian, era possível que aquilo trouxesse prejuízos ao Reino de Sashi. Em vez de permanecer confinado no palácio, definhando dia após dia, preferia ir defender a fronteira e proteger as magníficas montanhas e rios do Reino de Sashi.
— E a imperatriz Yuanluo concordou imediatamente?!
— Naturalmente, não. Mas Lorde Yan Huai e Lady Peike choraram e disseram que o segundo príncipe havia ferido gravemente um nobre de Manluomen e cometido um ato de extrema rebeldia contra o primeiro príncipe; que puni-lo apenas com o confinamento no palácio seria demasiado brando... Além disso, o segundo príncipe estava decidido a partir. Sob tamanha pressão, a imperatriz Yuanluo não teve escolha senão assentir, embora com o coração partido.
— Onde está Li Han agora?! Quero vê-lo!
— Vossa Alteza não precisa ir. O segundo príncipe já partiu.
— Já partiu? Isso é impossível...
De repente...
Seu coração palpitou violentamente.
Então era isso.
Naquela madrugada, Li Han fora ver Dai Ran pela última vez.
Então era isso.
Li Han já havia decidido matar Shang Ying por Dai Ran.
Então era isso.
Li Han já havia decidido ir defender a fronteira gelada e inóspita.
Então era isso.
Li Han já havia decidido não permitir que Dai Ran intercedesse por ele.
Então era isso.
Li Han já havia decidido não voltar a ver Dai Ran, que se tornaria esposa de Li Yuan.
Li Han, Li Han...
Por que era tão tolo?
Dai Ran, Dai Ran...
Aquele homem amava você profundamente demais.
...
...
Naquela noite...
A escuridão era especialmente intensa.
As luzes da cidade do lado de fora haviam se apagado. Já não atravessavam as cortinas finas, nem penetravam no quarto impregnado pelo cheiro de mofo da velha casa. A noite negra como tinta envolveu Qiao Dairan por completo, como uma tristeza da qual não havia fuga.
Qiao Dairan sentou-se na cama.
Recolheu as pernas, abraçou os joelhos com força por cima do cobertor áspero ao toque e enterrou profundamente a cabeça sobre eles. Seus cabelos espessos espalhavam-se ao redor das pernas. Seu corpo inteiro tremia, e seu coração parecia cortado por uma lâmina.
Por causa dela, o segundo irmão iria defender a fronteira, naquele lugar gelado e miserável!
No Reino de Sashi, as classes sociais eram rigidamente definidas. Defender a fronteira nunca fora tarefa dos nobres de Manluomen. Eles só precisavam comer, beber e divertir-se dentro da cidade imperial, entregando-se aos prazeres de uma era próspera.
Enviar o segundo irmão para defender a fronteira fria e inóspita equivalia a empurrá-lo para a morte!
Entretanto...
Fora o próprio segundo irmão quem insistira em partir...
Fora o próprio segundo irmão quem não quisera assistir ao casamento de Dai Ran com Li Yuan...
Página (2/3)
Página (3/3)
Segundo irmão...
Por que precisava fazer isso?
O tempo escorria.
Silêncio.
Um silêncio impregnado de uma tristeza sufocante.
Ninguém sabia quanto tempo passara até Qiao Dairan finalmente soltar as pernas.
Sem o menor sono, ela abriu o cobertor lentamente, levantou-se da cama, caminhou até a porta, abriu-a e saiu do quarto em passos vagarosos.
Não pretendia fazer coisa alguma... Nem beber um copo d’água, nem sentar-se no sofá fazia parte de seus planos... Só queria livrar-se da tristeza sufocante que impregnava o quarto.
Embora soubesse perfeitamente que, onde quer que fosse e qualquer coisa que fizesse, seu coração continuaria a bater por Li Han e a doer por causa dele.
Na sala de estar, havia uma luz fraca.
O abajur ao lado do sofá estava aceso, e sua luz alaranjada espalhava-se sobre Ye Xinyi, cujo cabelo parecia um ninho de galinha.
Ye Xinyi não dava a menor importância ao próprio cabelo desgrenhado. Limitava-se a deslizar o dedo pelo celular, arregalando olhos enormes para a tela, como se pretendesse assustá-la até a morte.
Qiao Dairan soltou uma risada fria — não havia desprezo nem desdém nela, mas uma espécie de gratidão por, naquela noite, ainda haver alguém ao seu lado, mesmo que o cabelo dessa pessoa fosse extremamente ridículo — e disse em voz baixa:
— O que está fazendo a esta hora da noite?
Ye Xinyi pareceu levar um susto enorme. O celular chegou a cair sobre suas pernas, esmagando o Bob Esponja estampado em seu pijama.
Qiao Dairan franziu ligeiramente a testa, levou a mão direita aos cabelos do lado direito e os prendeu atrás da orelha.
— Por que esse alvoroço todo?
Ye Xinyi apanhou o celular às pressas — sem sequer afagar o pobre Bob Esponja, que fora atingido —, ergueu a cabeça e olhou para Qiao Dairan com os olhos cheios de terror. Esfregando o traseiro contra o sofá, arrastou-se até o braço esquerdo do móvel, como se aquele braço fosse uma fortaleza capaz de protegê-la.
Ye Xinyi gaguejou:
— N-nada... Não aconteceu nada!
Qiao Dairan levou a mão esquerda aos cabelos do lado esquerdo e os prendeu atrás da orelha. Então caminhou até o sofá, sentou-se, apoiou as costas no braço direito e entrelaçou as mãos sobre os joelhos. Seu olhar penetrante atravessou a luz alaranjada e fixou-se diretamente em Ye Xinyi.
— O que aconteceu, afinal?
Ye Xinyi era incapaz de esconder no rosto tudo o que sentia. Como poderia enganar Qiao Dairan?
Engoliu em seco, nervosa e amedrontada.
— Realmente... realmente não aconteceu nada!
— Fale.
— Realmente...
— Ye Xinyi!
Ye Xinyi estremeceu inteira sobre o sofá!
Fechou os olhos às pressas, apertou o celular contra o peito com uma das mãos e começou a abanar o próprio rosto com a outra, como se espalhasse vento. Murmurava algo incompreensível, parecendo alguém que encontrara um fantasma no meio da noite e implorava a todos os deuses que viessem salvá-la.
As sobrancelhas de Qiao Dairan, antes apenas levemente franzidas, foram-se contraindo cada vez mais. Ela não voltou a pressionar Ye Xinyi com palavras, mas seu olhar tornou-se ainda mais intenso.
Ye Xinyi continuou a murmurar e resmungar de modo supersticioso por um bom tempo.
De repente!
Soltou o ar com força, abriu bem os olhos como se tivesse reunido a maior coragem de toda a sua vida, desbloqueou o celular e estendeu-o a Qiao Dairan. A mão que segurava o aparelho tremia como se tivesse desenvolvido Parkinson antes da hora.
Qiao Dairan pegou o celular. A luz emitida pela tela sempre lhe causava dor nos olhos, e daquela vez não foi diferente.
Franzindo profundamente a testa, semicerrando os olhos, ela encarou as palavras na tela... Escritas em caracteres simplificados... Lia com dificuldade. Mal chegara à primeira linha quando Ye Xinyi já não conseguiu conter-se e falou:
— É mesmo o Reino de Sashi!
Em meio ao medo e ao tremor, havia também uma excitação e um entusiasmo difíceis de descrever.
Qiao Dairan olhou para Ye Xinyi, indicando que continuasse.
O “medo” de Ye Xinyi desapareceu de repente, como uma diarreia que esvazia tudo, e ela declarou, tomada pela excitação:
— As últimas notícias sobre as relíquias encontradas na residência de Wan Shi dizem que descobriram documentos! Neles há menções ao fato de que o país daquela época era justamente o Reino de Sashi!
Era verdade.
Era Sashi.
O coração de Qiao Dairan foi imediatamente tomado por sentimentos contraditórios.
Ye Xinyi continuou:
— Ouvi dizer que, embora os documentos encontrados não sejam muitos, todos têm grande valor para a pesquisa. Pena que, por enquanto, só tenham divulgado que o país daquela época era o Reino de Sashi. O restante só poderá ser confirmado depois de mais estudos. Mas também, não é? Afinal, esses documentos têm mais de mil anos. Devem precisar de muito tempo para serem restaurados e traduzidos.
— Mil anos?
Entre abrir e fechar os olhos, um milênio havia passado.
— Sim...
Depois da excitação, Ye Xinyi voltou a sentir medo.
Encostou-se para trás no sofá, esforçando-se para aumentar a distância entre ela e Qiao Dairan, e murmurou:
— Você... você realmente veio do Reino de Sashi através do tempo?
Mil anos! Mil anos inteiros! Então... a Qiao Dairan diante dela... não seria o fantasma de uma mulher de mil anos atrás?!
— Já disse há muito tempo que sou uma princesa do Reino de Sashi.
— Mas...
Aquilo era absurdo demais!
Ye Xinyi de repente se lembrou de algo mais importante e esqueceu a questão de Qiao Dairan ser ou não um fantasma.
— Se você veio do Reino de Sashi através do tempo, então... e a minha prima?
Ye Xinyi olhou para Qiao Dairan, esperançosa e amedrontada ao mesmo tempo.
A tristeza voltou a dominar o corpo e a alma de Qiao Dairan.
Ela respondeu em voz baixa:
— Segundo o sonho que tive esta noite... é provável que Qiao Xinghua tenha trocado de corpo comigo.
— Minha prima foi para o Reino de Sashi e virou princesa?!
Ye Xinyi agarrou com as duas mãos o braço esquerdo de Qiao Dairan, tomada pela excitação.
— Conte-me mais sobre o Reino de Sashi! Ser princesa lá é algo muito glorioso?! Você era bonita antes?! Era como nos romances de viagem no tempo? Uma beleza capaz de arruinar reinos, cercada por milhares de formas de adoração?!
Qiao Dairan já havia mencionado aquilo antes, mas agora Ye Xinyi queria ouvir novamente — e queria saber muito mais.
— Hum.
Qiao Dairan puxou o braço de volta, sem olhar para Ye Xinyi. Virou a cabeça e contemplou em silêncio as sombras difusas projetadas no teto.
— Esta princesa tem dezesseis anos, é de uma beleza incomparável, pertence à nobreza de Manluomen do Reino de Sashi e, acima de tudo, é a única princesa Manluo de Manluomen...
Página (3/3)