15 Gotas de água
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— Mas você não disse que não tomaria concubinas?
As palavras surpreendentes de Xie Jiulang deixaram Luo Wanzhi atônita; ela se esqueceu completamente de afrouxar a pressão da mão. O pano medicinal espremeu um fio de líquido castanho-escuro, que se condensou numa pequena corrente e escorreu pelo pescoço branco como porcelana.
Que desastre!
A cena era tão chocante que pareceu partir-se, com um tinido, a corda esticada dentro da cabeça de Luo Wanzhi. Ela largou o pano e tentou deter o fluxo com as mãos, mas seus dedos macios e escorregadios não absorviam água alguma.
Em poucos instantes, sem que nem o próprio Xie Jiulang conseguisse reagir, Luo Wanzhi já havia passado as mãos pelo pescoço dele, apalpando e enxugando, até finalmente agarrar com firmeza as duas abas de sua veste.
Mas aquela fileira de gotas medicinais já havia desaparecido, sem remédio, pela borda do colarinho.
Os ruídos distantes e a respiração das pessoas ao redor silenciaram de repente.
Luo Wanzhi arregalou os olhos, inocente.
— Eu... eu não fiz de propósito.
Realmente não fizera.
Xie Yun: ...
As gotas frias deslizavam livremente por sua pele.
Luo Wanzhi inclinou o corpo para a frente, e o aroma intenso que emanava dela voltou a atingir-lhe o nariz. A garganta subitamente começou a coçar, e ele fechou os olhos com força para afastar aquela reação estranha.
— Ainda não vai soltar?
Luo Wanzhi soltou um “ah” e ergueu as duas mãos depressa. Uma parte da roupa de Xie Jiulang havia ficado molhada.
Um criado trouxe prontamente um lenço limpo e o entregou a Xie Yun. Ele o pressionou contra a lateral do pescoço, sem se mover. Na verdade, já não fazia muita diferença enxugar ou não, pois a água havia escorrido para baixo.
Luo Wanzhi limpou os dedos com o lenço, ousando apenas lançar olhares furtivos para Xie Jiulang.
Nem sabia onde, afinal, o líquido que entrara pelo colarinho havia ido parar.
Seu olhar desceu pelo pescoço de Jiulang: a cavidade entre as clavículas? O peito? Ou talvez o abdômen...
A pele de Jiulang brilhava como jade. Se nela restasse uma mancha castanha, não seria como uma imperfeição num jade branco?
O olhar perspicaz de Xie Yun desviou-se para os olhos dela, carregado de advertência.
Luo Wanzhi não se deixou intimidar. Pelo contrário, perguntou com doçura:
— Meu senhor, ainda está coçando?
Sua voz era mel, impregnada de lisonja.
Xie Jiulang não lhe respondeu. Virou-se e chamou o médico que os acompanhava para examinar o pé ferido de Luo Wanzhi. O diagnóstico foi o mesmo: não havia nada grave.
Sabendo que não ficaria aleijada, Luo Wanzhi tratou de partir antes que Jiulang se irritasse.
Quando todas as grandes famílias terminaram de arrumar as bagagens e retomaram a viagem, avançaram muitas vezes mais depressa do que na ida, como se as lâminas afiadas da cavalaria bárbara ainda os perseguissem.
* * *
O sol poente mergulhou no horizonte, e o Jardim da Cítara recebeu de volta seu senhor.
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Xie Yun estava acostumado ao calor úmido do sul e tomava banho todos os dias. Fora de casa, era compreensível não conseguir fazê-lo, mas, assim que regressava de uma viagem, a primeira coisa que fazia era lavar-se e mergulhar numa tina para aliviar o cansaço.
Ao ouvir uma agitação do lado de fora, abriu os olhos.
— Cang Huai.
Cang Huai empurrou a porta, entrou e deixou as roupas do lado de fora do biombo antes de informar:
— São algumas criadas que desejam entrar para servir ao senhor.
A gaze fina e branca como a neve separava a névoa do banho, deixando entrever sombras indistintas.
Cang Huai não sabia se o senhor adormecera, pois durante muito tempo não recebeu resposta.
— Vou mandá-las embora imediatamente.
Ia sair quando ouviu a ordem vinda de dentro:
— Transfira-as para o pátio externo. Não precisam mais entrar para me servir.
— ...Sim.
— O que foi? — Xie Yun percebeu a hesitação em sua resposta.
Cang Huai era o homem mais próximo de seu senhor e deveria compreender melhor do que ninguém seus pensamentos. Contudo, ultimamente Xie Yun vinha agindo de maneira tão inesperada que até ele já não sabia como proceder.
— ...Quando está com a senhorita Luo, o senhor não demonstra rejeição. Pensei que talvez pudesse, aos poucos, aceitá-la... — Cang Huai fez uma pausa e acrescentou em voz baixa: — Afinal, agora que o período de luto terminou, já seria hora de discutir seu casamento.
Não podia permanecer eternamente sem se aproximar de mulheres. Caso contrário, a futura senhora da casa acabaria entrando ali apenas para servir de enfeite, não?
— O que há entre mim e a senhorita Luo? — A voz de Xie Yun parecia ter sido amaciada pelo caldo quente do banho, preguiçosa como a névoa que se erguia no ar.
Cang Huai não conseguiu responder.
Só conseguia pensar na maneira como, durante o dia, o senhor fitara diretamente a senhorita Luo, com uma maré furiosa revolvendo-se no fundo dos olhos, como se estivesse prestes a engoli-la.
Também era verdade que a senhorita Luo havia passado dos limites naquele dia. Chegara a pôr as mãos no senhor!
Todos sabiam que ele detestava que outras pessoas o tocassem, sobretudo mulheres jovens.
Ainda assim, Cang Huai não ousava tirar conclusões precipitadas.
— Saia — disse Xie Yun.
Cang Huai sentiu-se como alguém perdoado de uma grande pena e retirou-se às pressas.
Xie Yun inclinou a cabeça para trás, apoiando-a na borda da tina, e fechou os olhos.
Gotas de água transbordavam pela borda e caíam no chão.
Ploc... ploc...
O eco vazio reverberava.
No pátio onde vivera na infância, diante do elegante bosque de bambus, havia rochedos empilhados e um tubo de bambu que gotejava sem cessar. Também ali se ouvia aquele som ritmado da água.
Ele sempre gostara de ler naquele lugar.
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Até o dia em que viu a concubina favorita de um ancião do clã junto de seu tio paterno.
Seu tio era um homem culto e talentoso, um cavalheiro refinado. Depois de seu pai e de seu tio mais velho, era o ancião e mestre que Xie Yun mais venerava.
Era educado, elegante e distinto. Muitos jovens eruditos admiravam sua pureza de espírito, seguiam seus ensinamentos e suspiravam por ele. Já a bela concubina era a mulher mais querida pelo pai de seu tio: uma senhora gentil, capaz de se agachar para conversar com uma criança. Não havia ninguém na casa que pudesse dizer uma palavra contra ela.
Aqueles dois, que deveriam tratar-se com toda a cortesia, haviam invadido seu bosque de bambus depois de uma discussão cuja causa ele desconhecia. Pouco depois, porém, enredaram-se um no outro com urgência, como se de repente tivessem sido possuídos por demônios. Rudes, violentos, duas feras que se rasgavam mutuamente, entregavam-se àquela indecência sob a luz clara do dia.
Indecência.
Era uma palavra que ouvira da avó. Ela dizia que aquilo era imundo.
Ele concordara profundamente.
Seu tio já não era, aos seus olhos, o homem elegante e imaculado de antes. Parecia um floco de neve que caíra na lama, derretendo-se em água suja.
E foi exatamente isso que aconteceu: seu tio perdeu tudo.
Um homem dominado pelo desejo não poderia ser seu mestre. Xie Yun expulsou aquela imagem do coração.
Talvez tivesse sido uma bênção disfarçada de desgraça. Ainda muito jovem, aprendera a conhecer os limites. Não gostava de criadas ao seu redor, muito menos de se entregar aos prazeres femininos. Por isso, mesmo depois de ler inúmeras pinturas eróticas, jamais se deixava levar por pensamentos desordenados e fantasias como os outros homens.
Ele não era como o tio.
Podia fazer melhor.
E deveria fazer melhor.
Depois que Cang Huai saiu e as criadas foram dispensadas, o ambiente voltou ao silêncio.
Xie Yun fechou os olhos e permitiu que seus pensamentos se dispersassem.
De repente, uma voz sussurrou junto ao seu ouvido:
— Meu senhor, ainda está coçando?
Sua garganta coçava como se tivesse engolido uma pena de ganso, enquanto as gotas de água em seu pescoço deslizavam de maneira insinuante...
Se tivessem forma.
Não eram gotas de água, mas mãos — as mãos macias e atrevidas de uma jovem.
Ele cerrou discretamente os dentes, pensando naquela mulher de Luo Wanzhi, ousada além de qualquer medida.
A mão dela deslizou pela lateral de seu pescoço e, curiosa, apertou de leve sua garganta. Incapaz de se conter, ele engoliu em seco, fazendo a garganta descer.
Os dedos continuaram a avançar, vagaram por algum tempo sobre seu peito e então escorregaram lentamente até o abdômen, descendo cada vez mais.
Ele se endireitou de repente e estendeu a mão.
A água chocou-se contra a tina com um grande estrondo, transbordou e caiu no chão.
Quando a superfície enfim voltou a ficar tranquila, ele baixou os olhos e viu:
havia agarrado a si mesmo.
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