Xie Lang

Ramos de Primavera Entrelaçados A montanha verde me pergunta. 4713 palavras 2026-07-31 05:13:01

A chuva primaveril caía em fios, desenhando linhas tênues no pátio, onde as pinturas murais já se desbotavam suavemente. Alguns tufos de bananeiras inclinavam-se preguiçosos junto às colunas do corredor, o verde intenso quase a verter orvalho.

Uma senhora e sua criada carregavam pesadas caixas de comida, afastando as folhas úmidas enquanto subiam os degraus. Não esperavam encontrar alguém ali aguardando; ao vê-las de cabeça baixa, a jovem no corredor lançou um sorriso sarcástico e estendeu a mão.

Yingliu ergueu o olhar bem a tempo de ver o gesto, e um susto percorreu-lhe o corpo. Ela se apressou para proteger sua senhora, mas foi empurrada pela moça e deslizou pelos degraus cobertos de musgo, as caixas entreabertas caindo pesadamente ao chão. Os pratos, ainda mornos, misturaram-se aos cacos de louça, espalhando-se por todo lado.

A jovem agressora, ao perceber que empurrara a pessoa errada, não demonstrou qualquer arrependimento; deu um passo à frente, pôs as mãos na cintura e, furiosa, dirigiu-se àquela que pretendia atingir:

— Não pense que só porque nosso pai quer te dar em casamento ao terceiro filho dos Xie, você pode se achar superior e nos desprezar! Amásia é amásia, tal como tua mãe foi: um brinquedo descartável! A família Xie é poderosa demais; nem para ser criada do terceiro filho você serviria!

— Luo Weishan. — A jovem largou a caixa de comida que trazia e ergueu o rosto, a voz suave ao chamar o nome da outra, com uma advertência sutil.

O chamado fez Luo Weishan estremecer e sentir o rosto queimar de constrangimento.

Não era a grosseria do tom que a incomodava, mas sim o fato de o rosto agora voltado para ela ser de uma beleza de tirar o fôlego. Tinham idades próximas, mas enquanto ela se preocupava com a pele sensível e avermelhada, Luo Wanzhi exibia diariamente aquele rosto delicado, suave como seda.

A pele alva e perfeita já bastaria, mas os traços ainda eram de uma graça surpreendente: sobrancelhas arqueadas como salgueiros, olhos como água límpida, um nariz pequeno e uma boca rosada e sedutora. Fosse qual fosse sua expressão, atraía todos os olhares. Quem a via dizia, sem dúvida, que era a mais bela entre as filhas dos Luo — talvez até de toda a província.

Luo Wanzhi, ignorando-a, desceu os degraus em poucos passos, ajudou a criada Yingliu a se levantar, certificou-se de que não havia ferimentos graves e só então relaxou a expressão preocupada.

— Estou falando com você! — Luo Weishan, pouco acostumada a ser ignorada, ficou prestes a descer para discutir, mas hesitou ao lembrar-se da chuva fina que, se molhasse seu vestido novo, estragaria o efeito.

Ela fitava Luo Wanzhi com raiva, mas a jovem parecia fundir-se com o verde delicado do jardim, vestida com uma saia de tons suaves quase igual ao cenário. Apenas o cinto bordado em volta da cintura se destacava, ressaltando a silhueta fina e o busto cheio.

Nem o porte era o de uma jovem inexperiente; como poderia ser assim?

Luo Wanzhi, alheia aos pensamentos da meia-irmã, respondeu calmamente:

— Como a quinta irmã disse, sou apenas um brinquedo. Se fui escolhida para ser dada ao terceiro filho como tal, por que você se irrita?

Os lábios de Luo Weishan tremeram, mas ela não quis contradizer-se. Ainda assim, seus olhos brilhavam de indignação: era o terceiro filho dos Xie!

Todas as moças de Jiankang suspiravam só de ouvir o nome dele.

Como descendente principal da família Xie, ele era de posição elevada e aparência impecável; até o renomado Xiao, famoso por sua beleza, exclamara: “Jóias e jade ao lado dele, sinto-me indigno”. Que aura extraordinária deveria possuir!

Luo Wanzhi percebeu o que a irmã não ousava dizer e, com um olhar enviesado, provocou:

— Ou será que a quinta irmã considera uma benção tão grande que gostaria de ocupar meu lugar?

— Quem quer ser amásia? Que vergonha! — Luo Weishan corou, sem saber se de raiva ou de humilhação.

Luo Wanzhi não insistiu. Ao ver um grupo se aproximando, baixou o olhar.

Luo Weishan interpretou o silêncio como concordância e, furiosa, ameaçou:

— Pois bem! Vou contar ao nosso pai que você ousou me insultar!

Mal terminara de falar, uma voz masculina, grave e firme, soou do corredor ao lado do jardim:

— Vai me contar o quê?

O patriarca da família Luo de Goyang aproximava-se, acompanhado do intendente. Era um homem sério, de presença imponente.

Luo Weishan não ousou dizer a verdade e culpou Luo Wanzhi por não querer obedecer à vontade da família.

O patriarca franziu o cenho, visivelmente insatisfeito, e voltou-se para Luo Wanzhi:

— Nona filha, não desaponte a família que tanto se esforçou por você. O terceiro filho dos Xie é um homem quase divino; muitos dariam tudo para servi-lo. Se ele não tivesse pedido por você, tal oportunidade jamais lhe seria dada. Entende isso?

Pedida pessoalmente por ele?

Luo Wanzhi se surpreendeu e ergueu o rosto para aquele homem a quem deveria chamar de pai.

Luo Weishan ficou incrédula, ainda mais ansiosa que a irmã:

— Pai, como pode ser? Como o terceiro filho saberia da existência de Luo Wanzhi, essa...

— Vocês duvidam do que digo? — O patriarca, impaciente, repreendeu ambas.

— Não, pai... — murmurou Luo Weishan, os olhos marejados.

Luo Wanzhi manteve-se calada, os cílios espessos baixados, postura dócil.

Mesmo sem nada fazer de especial, era impossível não notar sua presença.

O patriarca a observou, assentindo consigo mesmo.

Ainda tão jovem, quando crescesse, certamente brilharia ainda mais. Não haveria em toda a província beleza igual àquela.

Por isso, ao buscar uma aliança com os Xie, só podia contar com ela.

Perdido em pensamentos, o patriarca pigarreou, olhou de soslaio para a bagunça no chão e, fingindo desagrado, disse ao intendente:

— Estes criados são todos preguiçosos! Como deixam a nona filha buscar a comida sozinha?

O intendente logo compartilhou a indignação:

— O senhor tem razão! Irei investigar e punir os responsáveis!

O patriarca assentiu, voltando-se para Luo Wanzhi com uma expressão branda:

— Pronto. Não discuta mais com sua irmã. Vá descansar. Em breve o nono filho dos Xie virá a Goyang; mostre-se à altura. Se ele a levar para Jiankang, melhor ainda!

Luo Wanzhi ficou abalada com o descaramento do pai. A família Luo já não poupava esforços para se aproximar dos poderosos, abandonando até a própria dignidade. Esperar compreensão dele era inútil.

Ao vê-la perplexa, o patriarca suspirou. Era uma jovem ingênua, tímida diante de tamanha oportunidade — consequência do descaso da esposa principal, que nunca a instruíra. Mas agora, não havia tempo para lamentações.

Abrandando o tom, declarou generoso:

— Sua mãe está doente há tempos. Vou pedir ao intendente que chame um médico para atendê-la.

Desta vez, Luo Wanzhi não pôde conter o espanto; os olhos se arregalaram e logo se tornaram gratos e comovidos, a voz embargada:

— Sim, obrigada, pai.

Parecia tão tocada que não sabia como agir, desejosa de se aproximar, mas sem jeito para isso.

Apenas tímida e ingênua, não rebelde; ainda poderia ser educada.

O patriarca, satisfeito, acariciou a barba:

— Boa menina. Seja obediente e terá o que deseja.

Luo Wanzhi assentiu, submissa, enquanto Luo Weishan se consumia em fúria.

O pai jamais fora tão gentil com Luo Wanzhi; logo ela seria ofuscada.

Enquanto a olhava com despeito, Luo Wanzhi ergueu os olhos, lançou-lhe um olhar rápido e logo se escondeu junto ao pai.

O patriarca, intrigado, notou o medo nos olhos úmidos da filha, temendo ser repreendida:

— Pai...

Acompanhando o olhar dela, viu a expressão dura de Luo Weishan e entendeu tudo.

Ele próprio sempre negligenciara Luo Wanzhi; não era de estranhar que os filhos a maltratassem.

— Quinta filha, como irmã mais velha, deveria zelar pela caçula. Sua mãe a mimou demais! Está de castigo: um mês sem sair de casa. Alguma objeção?

Luo Weishan sentiu-se fulminada:

— Pai, não fiz nada, por que me punir?

O patriarca apenas a olhou, em silêncio.

Por mais mimada, não ousava desafiar o pai. Rapidamente se rendeu, fungando de olhos vermelhos:

— Sim...

Luo Wanzhi lançou-lhe um olhar discreto e recolheu sua expressão.

Luo Weishan adorava festas, sempre rodeada de amigas e desfiles; um mês de reclusão seria torturante.

Resignada, foi punida, enquanto Luo Wanzhi, acompanhada do intendente e dos criados, voltou ao pequeno pavilhão junto de Yingliu.

Ela e sua mãe, Yueniang, viviam no canto noroeste da mansão Luo, junto aos aposentos dos criados — o local mais modesto e esquecido.

Como concubina que dera filhos, Yueniang deveria ter melhor posição, ainda mais por ter sido a musicista mais famosa de Jingzhou, exímia no pipa, louvada ao lado da cantora Xue como as duas maravilhas de Jingzhou.

Anos atrás, também buscara o favor do senhor, mas, após ferir a mão e não mais conseguir tocar, tornou-se uma sombra, isolada dia após dia.

Se não fosse pela beleza crescente de Luo Wanzhi, mãe e filha jamais teriam outra sorte.

— A senhora principal te chamou, demorou tanto por quê? — Yueniang, ansiosa com o que o patriarca poderia ter decidido, queria ouvir da filha as novidades.

— Sim. — Luo Wanzhi, sem ânimo, evitou detalhar o assunto, e silenciosamente pôs os pratos sobre a pequena mesa laqueada. Mãe e filha sentaram-se frente a frente sobre tapetes de seda, para a refeição.

Yueniang observava a filha, hesitante. Luo Wanzhi, percebendo, largou os talheres e olhou-a com seriedade:

— Mãe, todos esses anos na mansão, a senhora já esqueceu as mágoas e humilhações que sofreu?

O semblante de Yueniang mudou, triste. Apesar de não esperar mais nada, no fundo ainda guardava ressentimentos.

Luo Wanzhi sussurrou:

— Sendo assim, como pode querer que eu me torne concubina de outro?

— Mas é a família Xie... — Yueniang sabia das dificuldades, mas o nome Xie ofuscava todas as desventuras.

A família Xie era mais poderosa que muitos nobres, um clã de prestígio, repleto de jovens admiráveis; qualquer um deles seria um marido invejável.

Tais famílias jamais se casariam com pessoas de origem humilde; ser escolhida como concubina já era sorte dos céus.

Diante dessa tentação, Yueniang argumentava:

— Até a filha da senhora principal não conseguiria tal casamento; seu pai te enviar é uma bênção...

Luo Wanzhi respirou fundo, mas a angústia não a deixava; os cílios úmidos pestanejaram, quase chorando, o que só acentuava seu ar de fragilidade.

Vendo-a assim, Yueniang não conseguiu prosseguir.

Luo Wanzhi falou baixo:

— Também sou filha do patriarca, mas, exceto pelo segundo irmão, quem me vê como pessoa? A senhora principal me impede de estudar, e até a senhora só me ensina música e dança, quer que eu aprenda a agradar aos outros...

A reação de recusa surpreendeu Yueniang, que demorou a responder:

— Mãe só quer o seu bem.

Vinda de origem humilde, Yueniang sabia que a filha era desprezada; só podia transmitir-lhe habilidades, desejando que, no futuro, pudesse ter escolhas.

— Eu sei.

Luo Wanzhi enxugou os cantos dos olhos e logo recuperou a compostura, como se nada tivesse acontecido.

— ...Mas seu pai está decidido; se você não obedecer, ele se irritará.

Yueniang conhecia o patriarca: por fora, gentil; por dentro, frio e calculista. Se contrariada, Luo Wanzhi só sofreria.

— Vai recorrer ao décimo primeiro filho da família Yu?

Luo Wanzhi cortou-a:

— Não se pode mudar a decisão dele facilmente. Só uma solução radical pode funcionar. O nono filho dos Xie vem a Goyang em breve; se ele, tão querido pela matriarca Xie, recusar, nem meu pai poderá insistir.

Yueniang percebeu a convicção da filha, mas ainda a advertiu:

— E se ele não te ajudar? Dizem que é muito próximo do irmão; quem o desagrada, ele repreende sem piedade. São irmãos muito unidos.

Luo Wanzhi não estava lançando-se ao acaso; escolheu o nono filho por ter chances sólidas. Contou um fato:

— Um ano atrás, o rico comerciante Yan Zhou ofereceu um banquete aos irmãos Xie. Para forçá-los a beber, ameaçou cortar as mãos e matar quem recusasse. O terceiro filho, impassível como ferro, não se abalou; o nono, de coração bondoso, saiu bêbado. Se ele tem compaixão até por criadas desconhecidas, por que não me salvaria?

— Mas a água e o fogo a que você se refere é o irmão a quem ele tanto ama — ponderou Yueniang. — Vai pensar que és tola...

— Sei disso, mãe. Tenho meus planos. — Luo Wanzhi estava decidida, o olhar firme.

Yueniang entendeu o que a filha pretendia:

— Os filhos Xie não são meninos inocentes como aquele rapaz da família Yu, que se apaixonou só de te ver... Se o nono filho...

Ela não concluiu, mas Luo Wanzhi compreendeu.

Se, ao tentar aproximar-se do nono filho, ele se apaixonasse, o que faria?

Yueniang se calou para não alertar a filha, querendo que, se não fosse amásia do terceiro filho, ao menos se tornasse do nono.

Mas não sabia que o nono filho dos Xie prometera em público nunca tomar uma concubina, mantendo apenas uma esposa legítima.

Em famílias nobres, a palavra é lei. Se ele a descumprisse, seria alvo de escárnio.

/

Após vários dias de chuva fina, o tempo finalmente clareou.

Nos portões de Goyang, uma comitiva de mais de cem criados chegava com estrondo.

A bandeira dos Xie tremulava ao vento, o brasão da família brilhava nas carruagens.

A primavera de Goyang jamais fora tão radiante.

O aguardado nono filho da família Xie havia chegado.