6 Poderes Sobrenaturais
Faltava um minuto para o início da competição.
Naquela disputa de campeonato com oito participantes, apenas sete haviam comparecido; um ainda não dera as caras.
E, justamente quando todos contavam os sessenta segundos finais e já achavam que aquele competidor havia desistido—
Bang!
A porta do recinto se abriu, e uma silhueta disparou para dentro.
A velocidade era tão absurda que nem o rosto se podia distinguir.
A figura de negro saltou, apoiou-se na borda do skate, deu uma volta no ar e pisou no tail para frear o tablado, parando exatamente diante do funcionário do credenciamento. Em seguida, apontou para trás, para o rapaz que ainda se equilibrava tonto sobre o skate.
“Olá. O competidor Jotaro Matsuda chegou.”
“Eh...” o responsável pelo credenciamento hesitou ao falar. “O local da competição de skate é na sala ao lado.”
Jotaro Matsuda enfim reagiu e correu à frente para explicar, apressado: “Eu sou competidor de boxe! Olha, esta é a minha credencial!”
“De fato”, disse o responsável, depois de conferir várias vezes e finalmente confirmar. “Se se atrasasse mais um minuto, não poderia competir. Vá logo aquecer para a disputa.”
Os olhos de Matsuda brilharam, e ele assentiu depressa.
“Certo!”
Mal deu alguns passos, lembrou-se de algo, virou-se para o rapaz e inclinou-se num cumprimento:
“Obrigado!”
Então voltou a se lançar ao seu campo de batalha, com o coração em chamas.
Sakamoto ajustou os óculos. Ao notar o olhar ardente de alguém ao lado, virou a cabeça; a pessoa lhe enfiou um cartão de visita na mão e, com sinceridade, disse:
“Jovem, tem interesse em se tornar um skatista?”
*
“Então...” Fujimiya Zero olhou repetidas vezes para o contato da Associação Japonesa de Skate em sua mão. “Numa única aula, você foi até Kanagawa para testemunhar um caso, depois foi a uma academia de boxe e, lá, recebeu um convite da Associação Nacional de Skate... e ainda comprou aquela sobremesa para a qual a fila demora horrores?”
A cada palavra, aquilo lhe parecia mais inacreditável.
Antes de tudo, como alguém conseguia fazer tanta coisa em uma só aula? E por que um convite da associação de skate teria sido recebido numa academia de boxe?
Mas o cartão de visita em sua mão claramente não era falso, e Sakamoto também não parecia o tipo de pessoa que brincasse com isso.
“Sim. A sobremesa para você”, disse Sakamoto, imperturbável, estendendo a caixa de doces que tinha nas mãos para Zero.
Zero piscou, atônito, e então entendeu que a sobremesa era um agradecimento por ele ter ajudado a justificar a falta. Como jamais recebera um presente, piscou os olhos rapidamente.
“Foi só uma coisinha, eu só ajudei de passagem.”
Sakamoto respondeu:
“Foi apenas por acaso que passei por lá.”
...Mas aquela confeitaria ficava absurdamente longe! Que caminho era esse, afinal?
Vendo que Sakamoto insistia, Zero aceitou a sobremesa.
“Falando nisso, Sakamoto, você também anda de skate?”
Depois que Sakamoto assentiu, Zero registrou imediatamente a informação em seu caderno de dados.
— O caderno de dados, a princípio, servia para reunir informações sobre todos, mas, como o colega ao lado era insondável, o Diário de Dados Cotidianos de Zero acabou virando um Caderno de Informações Sobre o Colega de Carteira.
Depois de anotar o novo dado, ergueu a cabeça e perguntou:
“E o resultado da competição?”
Sakamoto não respondeu; a garota sentada à frente respondeu por ele:
“Ele ganhou!”
Zero ficou muito curioso.
“Como você sabe qual pessoa foi?”
Mesmo sendo fã de Sakamoto, não era possível saber com tanta precisão assim; havia muitos competidores japoneses no torneio de boxe.
A garota balançou o celular.
“Olhem esta notícia.”
Zero se inclinou para ver.
[Campeão! O boxeador que veio sobre um skate! A história por trás do campeão que você não conhece!]
Faltava um minuto para o início da competição.
*
“Ouvi dizer que o tio Matsuda foi campeão”, disse Hajime Hagiwara, que tinha ido até o amigo assim que soube da notícia. “Então o pequeno Jõho não vai me pagar o jantar hoje?”
Shinji Matsuda baixou o olhar.
“Outro dia.”
Vendo que o amigo não estava tão empolgado quanto o esperado, Hagiwara o observou, intrigado.
Em tese, se o pai de Matsuda havia conquistado o título, pela personalidade do amigo ele deveria estar anunciando isso ao mundo inteiro.
Mas o outro nem sequer compartilhara a boa notícia com ele de imediato; ao contrário, parecia... aliviado por pouco? Ou até assustado?
“O que aconteceu?” Hagiwara não pôde deixar de perguntar. “Seu pai ganhou o campeonato; não era para você estar feliz?”
Shinji fechou o punho mais uma vez. Sabia bem o quanto o título do pai fora conquistado com esforço. Se aquele rapaz não tivesse aparecido a tempo...
Shinji não conseguia imaginar as consequências.
E, por ter sido levado pela polícia, ainda que o pai não fosse assassino nenhum, os vizinhos continuariam a falar pelas costas; e, para piorar, a polícia sequer quis se pronunciar para esclarecer que seu pai era inocente.
Inspirou fundo e, com um ar extraordinariamente sério, disse a Hagiwara:
“Reni, eu vou virar policial!”
“?” Sem entender como o assunto tinha ido parar ali, Hagiwara conferiu com atenção se o amigo não havia sido trocado por outra pessoa, e só então se tranquilizou. “Policial é uma profissão boa, mas por quê?”
Ainda outro dia, quando o professor mandara a turma escrever sobre “meu sonho”, aquele sujeito ao lado escrevera que queria se tornar o Rei dos Piratas.
“Porque...” Shinji lembrou-se dos policiais dizendo algo sobre ser uma determinação do chefe da polícia, e bufou com desdém. “Eu vou bater no chefe da polícia!”
“...” Um motivo bem singular.
Hagiwara até quis ironizar, mas, como era a primeira vez que via o amigo preguiçoso tão sério e resoluto, em vez disso o encorajou:
“Certo, eu apoio você virar policial para depois espancá-lo!”
Satisfeito com o apoio, Shinji relaxou. Pensou um pouco e acrescentou, de modo misterioso:
“Tem mais uma coisa. Só vou contar para você, hein.”
Hagiwara aguçou os ouvidos.
“O quê? O quê?”
“Hoje eu...” Mesmo sussurrando, a excitação ainda transbordava em sua voz.
“Encontrei um deus de coração mole!”
Hagiwara: ...Hã?
*
Shinji Matsuda exagerou com gosto ao descrever tudo o que acontecera naquele dia.
Enfatizou várias vezes que, no momento de seu desespero, a divindade desceu dos céus sobre um skate.
Hagiwara não conseguiu deixar de interrompê-lo:
“...Espere aí. Por que um deus usa skate?”
Shinji pensou por um segundo e concluiu sem hesitar:
“Porque era o deus do skate!”
Hagiwara: ...
*
[A probabilidade de o colega de carteira ser um deus é de 30%; a de ser um super-homem é de 70%.]
Depois de anotar essa linha no caderno, Zero virou-se para o colega de carteira e fez um convite:
“Sakamoto, eu e Mitsu vamos ao novo fliperama. Quer ir conosco?”
No dia anterior, ao passar por lá, vira gente indo brincar em grupos, e sentira certa inveja.
Como não tinha amigos, nunca entrara num fliperama; no passado, depois das aulas, sempre voltava para casa sozinho.
Sakamoto encontrou o olhar expectante dos olhos violáceos do colega ao lado e assentiu:
“Certo.”
*
Assim, os três caminharam lado a lado até o fliperama.
Antes mesmo de decidirem qual brinquedo experimentar, uma garotinha de duas marias-chiquinhas, ali perto, fazia manha:
“Eu quero aquele coelhinho!”
Ela apontava para um boneco de coelho fofinho dentro da máquina de pelúcia.
A pessoa que a acompanhava suspirou, um tanto impotente:
“Não tem jeito. Não consigo pegar.”
A menina fez beicinho, virou-se e então avistou os três rapazes na entrada. Correu até eles, ofegante.
Estendeu a palma da mão e, segurando algumas fichas de jogo, ergueu-as diante de Hiroki:
“Maninho, você pode me ajudar a pegar o coelhinho?”
Diante do pedido da garotinha, Hiroki não conseguiu recusar e apenas assentiu. Zero, confiante como sempre, disse:
“Deixa com a gente. Vamos conseguir esse coelho para você!”
Então os três ficaram diante da máquina de pelúcia.
“Um pouquinho para a esquerda, passou, passou, volta um pouco!” Zero ajudou medindo com os olhos. “Pronto, essa posição é perfeita!”
Falando com segurança, Hiroki apertou o botão. Os nervos à flor da pele, observou a garra descer. Ela agarrou o coelho, mas, antes de três segundos passarem, soltou-se rapidamente.
Zero coçou a cabeça.
“...Não foi bem como eu imaginei.”
Hiroki explicou baixinho em seu ouvido:
“Na verdade, existe uma taxa de captura.”
A máquina de pelúcia depende muito mais da sorte; por mais técnica que se tenha, ainda é preciso encontrar o agarrão forte aleatório para segurar o boneco com firmeza.
Zero entendeu logo, mas a garotinha atrás deles olhava o coelho com olhos cheios de expectativa. Um minuto antes ele havia se gabado; recuar agora seria realmente vergonhoso.
Além disso, Zero jamais recuava.
Então respirou fundo e avançou com duas fichas na mão.
Inseriu a moeda, moveu a garra, alinhou-a.
Depois de confirmar que a posição da garra certamente levantaria o boneco, apertou com calma.
Alguns segundos depois, o boneco de coelho caiu de novo, e o sorriso em seu rosto parecia zombar dele.
Depois de mais duas tentativas fracassadas, Zero virou-se para Hiroki e perguntou:
“Quanto custa quebrar essa máquina?”
Hiroki: “...C-calma!”
Enquanto os dois discutiam uma forma violenta de obter o brinquedo, a máquina foi acionada mais uma vez.
Zero olhou, e seu colega de carteira estava diante da máquina, movendo a garra com toda a seriedade.
“Sakamoto, isso é difícil”, avisou Zero de antemão. “A garra é frouxa demais, não vai pegar de jeito nenhum!”
Ainda nem terminara de reclamar, e Sakamoto já apertara o botão. Zero esperou a repetição da história, o boneco caindo... mas a garra não soltou.
Não só isso: ela levantou dois coelhos de pelúcia de uma vez.
Zero e Hiroki se entreolharam, ambos com a mesma expressão de choque, enquanto Sakamoto já retirava os dois bonecos e os entregava à menina.
“Maninho, você é incrível!”
Ao finalmente receber o coelho que tanto desejava, a garotinha abriu um sorriso.
Zero, ao lado, questionava a própria existência.
“Hiroki, por que isso aconteceu?”
Hiroki balançou a cabeça, dizendo que também não sabia.
*
Ao ver Sakamoto conseguir pegar o boneco, Zero renovou o ânimo e voltou a se postar diante da máquina de pelúcia. Tentou algumas vezes, mas o resultado continuou sendo o mesmo: fracasso.
Sakamoto, ao mesmo tempo, acionou duas máquinas de pelúcia, operando as duas mãos de uma vez, e chegou até a pegar um boneco de olhos fechados.
Zero: ...
Poderes sobrenaturais! Só pode ser poder sobrenatural!!!