Colega de carteira
Esta era a terceira vez que Reiji Furukawa mudava de escola.
Seu cabelo naturalmente dourado o fazia viver desde pequeno sob olhares estranhos; toda vez que entrava em um novo ambiente, Reiji já estava acostumado a ser isolado por causa da cor de seus fios.
Desta vez não foi diferente.
No instante em que pisou na nova sala de aula, olhares de surpresa ou desprezo vieram de todos os lados, pousando em seu rosto; Reiji já não se incomodava mais. Mas logo, todos desviaram a atenção para a janela.
Reiji ficou um pouco confuso, acompanhou o olhar da turma.
O vidro se abriu, a cortina dançou ao vento, e em meio a um murmúrio de espanto, um rapaz impecavelmente arrumado atravessou agilmente a janela. Apesar do vento, seu cabelo não se moveu nem um pouco.
Ao soar o sinal de início de aula, o rapaz sentou-se com elegância.
Imediatamente, o ambiente explodiu em aplausos calorosos.
Reiji, ainda atônito, ouviu o professor ao seu lado apontar calmamente para o lugar junto à janela: “Ótimo, Furukawa, sente-se ao lado de Sakamoto.”
*
No momento em que se sentou, Reiji lembrou: sua sala ficava no terceiro andar.
... Não importa quão habilidoso seja, alguém comum jamais conseguiria entrar pela janela sem nenhum auxílio, certo?
Ele olhou curioso para o colega ao lado: pele ainda mais clara que a maioria das garotas, óculos, cabelo perfeitamente arrumado, cabeça baixa, lendo com dedicação — parecia o tipo mais pacato possível.
Com um estalo, o livro foi fechado. Reiji se recompôs: “Desculpe, te atrapalhei?”
O colega ajustou os óculos e respondeu serenamente: “Não, apenas terminei de ler.”
... Mas cinco minutos atrás, ele tinha visto o outro apenas folheando o índice e começando o primeiro capítulo!
Reiji encarou o livro fechado, hesitou, e por fim desviou o olhar.
Provavelmente, já estava sendo rejeitado novamente.
*
Antes de iniciar na nova escola, Reiji já tinha se preparado psicologicamente para ser excluído por sua cor de cabelo e pele.
Durante as aulas, captava olhares e ouvia, de longe, comentários como “estrangeiro”.
Como esperado, após o fim das aulas, alguns rapazes começaram a se aproximar dos seus lugares; Reiji parou de arrumar a mochila, alerta.
Eram muitos, talvez não conseguisse lidar sozinho.
Vendo o colega ao lado ainda olhando pela janela, Reiji franziu o cenho: “Eles vão me arranjar problemas. Saia daqui, e se puder, avise o professor ao passar.”
Não queria envolver alguém inocente, então só pensava em pedir ajuda ao professor.
O colega levantou o olhar, passou o olhar tranquilo sobre ele, levantou-se, ajeitou a roupa e saiu calmamente por trás de Reiji.
Após um instante, Reiji suspirou e alongou os músculos, resignado.
Tudo bem, ele já tinha lutado bastante, era experiente — só que agora não tinha mais ninguém para cuidar dos seus ferimentos.
“Ei, você aí, tão chamativo—”
Já ouvira essa frase de início muitas vezes; Reiji assumiu uma expressão fria, pronto para reagir, mas então ouviu os rapazes gritarem:
“Sakamoto, estamos falando com você! Pare aí!”
...?
A expressão de Reiji ficou completamente confusa.
Eles... não vieram brigar com ele?!
Os rapazes correram atrás do colega, deixando a sala vazia, só com Reiji parado, experimentando pela primeira vez na vida uma sensação de total insignificância.
Por fim, ele se recompôs, pegou a mochila e foi atrás deles.
*
Depois de ouvir os rapazes reclamando que “ele sumiu como um foguete”, Reiji respirou aliviado, preocupado com o colega, sem perceber a estranheza das palavras deles.
Embora surpreso por não ter sido discriminado, Reiji começou a se perguntar:
Será que seu colega sofre bullying há muito tempo? Parecia tão frágil, incapaz de reagir.
Talvez aquela atitude distante fosse só para esconder sua dor!
Reiji teve uma súbita iluminação.
*
No dia seguinte, saudou o colega pontualmente ao chegar na sala, um pouco antes do sinal: “Bom dia, Sakamoto.”
O outro limpava os óculos com calma, voz estável: “Bom dia.”
Definitivamente, era do tipo frio por fora, caloroso por dentro!
Reiji ficou ainda mais certo de sua teoria, decidindo aos poucos conquistar a confiança do colega:
“Sakamoto, eu também já fui alvo de discriminação na escola.”
Compartilhou sua experiência para criar empatia, esperando que Sakamoto não fosse tão defensivo.
O outro colocou os óculos e olhou para ele; Reiji insistiu: “Se precisar de ajuda, pode me contar.”
O colega desviou o olhar, abriu elegantemente um livro novo: “Obrigado, não preciso.”
Mesmo rejeitado, Reiji não desanimou, brincou:
“As meninas dizem que ao sentar ao lado do pálido Sakamoto pareço mais escuro.”
O ritmo das páginas mudou, Sakamoto inclinou ligeiramente a cabeça e fixou o olhar no rosto de Reiji, deixando-o desconfortável; só depois de um tempo ouviu a resposta séria:
“Creio que sua pele é saudável, Furukawa. Além disso, aparência e cor não devem ser definidos.”
Reiji demonstrou surpresa: “Mas, para todos, eu ainda sou um estranho, não?”
Por ser raro e diferente, não se encaixava nos padrões. Durante muito tempo, Reiji se sentiu deprimido, reclamando aos pais por ser diferente dos colegas.
“Ser diferente não é ruim, pelo contrário, é motivo de orgulho,” ouviu a voz gentil e firme.
Pela primeira vez, Reiji escutou que “ser diferente é motivo de orgulho”.
Já fora consolado antes, mas ninguém lhe dissera que sua aparência diferenciada era algo a se orgulhar.
“De qualquer forma,” Reiji sorriu, “Sakamoto está me confortando, obrigado.”
O colega ajustou os óculos, imperturbável: “Não estou confortando.”
Reiji deu de ombros, sorrindo: “Entendi.”
Então, Sakamoto era um pouco orgulhoso.
*
Logo, Reiji teve de abandonar todas as impressões que tinha sobre o colega.
Sempre pensou que Sakamoto parecia frágil, pouco atlético; então, quando na aula de educação física os rapazes formaram duplas para competir em flexões, Reiji se colocou ao lado de Sakamoto, confiante: “Não se preocupe, pode deixar comigo.”
Desde pequeno, era muito bom de física, sempre foi premiado nos esportes.
“Ouvi dizer que o Itadori da turma ao lado é incrível!” captou uma conversa entre meninas.
“Sim! Na última vez fez 90 flexões em um minuto, bateu o recorde mundial juvenil!”
... Recorde mundial?!
Reiji ficou boquiaberto, lembrando que seu melhor era apenas 40 em um minuto.
“Mas,” continuaram as meninas, “na última vez o campeão faltou, então não sabemos quem será o primeiro hoje.”
“Verdade, com ele na disputa, Itadori pode não ganhar.”
*
Quem mais poderia superar um recorde mundial? Reiji respirou fundo, sua confiança virou ansiedade. Então, sentiu uma mão sobre o ombro; ao virar, viu Sakamoto dobrando as mangas com seriedade: “Segundo as regras, flexão com uma mão conta o dobro.”
Ou seja, cada flexão com uma mão vale por duas, mas consome energia mais rápido.
Reiji elaborou estratégias: para vencer, precisava manter velocidade e usar a mão única sempre que possível; virou-se para discutir com Sakamoto: “O melhor é começar rápido com uma mão.”
O colega não respondeu; Reiji notou o braço fino: “Mas não precisa se esforçar tanto, eu vou fazer o máximo.”
Aquecimento terminado, o apito soou.
A competição começou.
Reiji manteve a respiração regular, ouvindo as garotas incentivarem e se espantarem.
Concentrado, viu o rapaz de cabelo rosado à frente fazer flexões numa velocidade inigualável.
Surpreso com o ritmo do outro, Reiji perdeu o compasso, diminuiu a velocidade, suor escorrendo pelo rosto; insistiu com uma mão, lutando até o último segundo, quando tombou ofegante sobre o tapete.
Ao lado, Sakamoto estava impecável, cabelo intacto, nem uma gota de suor, o que fez Reiji suspeitar que ele nem tinha feito flexões.
Embora não exigisse grande esforço do colega, esperava ao menos alguma dedicação; todos os rapazes estavam exaustos no chão, mas Sakamoto permaneceu em pé, elegante, bebendo água.
Desde pequeno, Reiji era competitivo, e sentiu um leve incômodo.
Ao ouvir a pontuação de Itadori, calculou a diferença: só venceriam se o colega conseguisse 63 pontos.
Reiji encarou o chão, viu Sakamoto cercado pelas garotas, elegante e admirado, apertou os punhos, descontente.
Um rapaz o abraçou pelos ombros, invejoso: “Furukawa, fazer dupla com Sakamoto é muita sorte.”
“Como assim, sorte?” Reiji mastigou a ideia.
“Claro,” outro se aproximou, “graças a ele, vocês venceram.”
... Venceram?
Espere, venceram?!
Reiji arregalou os olhos, perguntou ao lado: “Sakamoto fez só algumas flexões, não foi?”
Lembrava que o colega levantou antes da metade, não foi até o fim.
Mesmo sendo habilidoso, era impossível marcar 63 pontos em tão pouco tempo.
“Fez 30,” respondeu o colega.
Reiji franziu o cenho: “Mesmo que fossem todas com uma mão, o dobro seria só 60, não passa do Itadori, certo?”
“Quem disse que foi com uma mão,” explicou o rapaz, “Sakamoto nem usou as mãos, então valeu triplo.”
Ah, então não usou—espere!!
Não usou as mãos?!
Reiji ficou paralisado, repetiu mentalmente para garantir que não ouvira errado; sua pequena cabeça se encheu de grandes questões:
Como se faz flexão sem mãos?! Como é possível?! Sem mãos, ainda é flexão?! O que estão falando?!
“Não sei como ele faz isso,” ao contrário de sua perplexidade, o colega ao lado estava calmo, “mas, sendo Sakamoto, com certeza consegue.”
Outro assentiu: “Exato, ele é Sakamoto.”
...
Reiji não compreendia; virou-se e encontrou o olhar brilhante de Itadori, ouvindo a voz inocente: “Eu vi! Ele fez flexões com os pés! Impressionante!”
Reiji: ... Você acha que está falando algo sensato?!
Com o rosto inexpressivo, recebeu a medalha de primeiro lugar, e olhando para o colega, admirado e confiante, pensou:
Será que todos estão loucos, ou sou eu?