3 Mistérios Não Resolvidos do Campus
Quando Reiji Furuya chegou em casa, sua mente ainda estava presa às lembranças das habilidades ágeis de seu colega de carteira. Era raro, mas ele havia julgado mal a pessoa. Desde o jardim de infância, Reiji, que não tinha amigos e brincava sozinho, começou a observar as pessoas ao seu redor para passar o tempo entediante. Logo, aprendeu a discernir o caráter e habilidades alheias com facilidade.
Porém, seu colega de carteira fugia completamente dessas observações. Perguntava-se: um garoto frágil poderia realmente enfrentar quatro adversários ao mesmo tempo sem esforço? Na verdade, um pouco de esforço – algo que ele chamava de “fôlego soprando” – foi necessário. Em menos de uma semana, o impacto causado por aquele colega superou tudo que ele já havia presenciado antes.
Reiji franziu a testa, confuso. “O que foi, Reiji? Parece preocupado, aconteceu algo na escola?” A voz suave de sua mãe o fez relaxar. “Não, todos os colegas são ótimos,” respondeu, um sorriso se formando em seus lábios ao pensar que, apesar das preocupações dos pais sobre discriminação no novo ambiente, ele havia feito novos amigos.
“É mesmo? Qual o nome? Que tipo de pessoa é? Traga ele para casa qualquer dia!” A mãe animou-se. Reiji, que nunca trouxera amigos para casa e sabia que seus pais estavam preocupados, pensou um pouco e disse: “É meu colega de carteira, chama-se Sakamoto...”
Sakamoto...? Hum??!!
Reiji arregalou os olhos e vasculhou suas lembranças, mas não encontrou nada. Sakamoto o quê? Parecia que nem sabia o nome completo do colega de carteira! Ele apertou os lábios e disse: “...Enfim, Sakamoto é uma pessoa muito interessante.” Enquanto a mãe comentava, “Que bom que você fez amizade, Reiji,” ele já não tinha mais vontade de responder, pois só pensava: qual será o nome completo de Sakamoto?
*
Ter a pele escura tem suas vantagens. Reiji, que não dormira a noite toda tentando lembrar o nome do colega, pensou que ninguém poderia notar as olheiras escondidas pela cor da pele. Não, havia uma pessoa que podia perceber. “Reiji, seria melhor se você conseguisse dormir um pouco mais,” seu colega sugeriu delicadamente.
Bocejando e tentando manter os olhos abertos, Reiji respondeu: “Sei, mas nessa aula o professor pediu para anotar as notas.” Com o cérebro confuso pela falta de sono, ele não perguntou diretamente o nome completo de Sakamoto, para não revelar que há quase uma semana não lembrava o nome do colega – isso seria muito indelicado.
“Talvez,” Sakamoto pensou, “eu possa ajudar você a anotar.” Reiji, quase desmaiando, pensou que, ao pedir o caderno emprestado, veria o nome do colega e não recusou: “Então, obrigado...” E na sequência, caiu no sono.
Quando acordou, a aula já havia terminado. Esfregando os olhos, Reiji viu Sakamoto lhe entregar um caderno. Ele pegou e folheou, admirando a caligrafia clara e elegante. “As anotações do Sakamoto são muito organizadas,” comentou, “vou copiar direitinho.”
Então lembrou da dúvida que o atormentava a noite toda e rapidamente voltou à primeira página. Assim poderia saber o nome completo de Sakamoto sem se expor! Com um sorriso satisfeito, folheou até a primeira página e viu sua própria caligrafia: [Reiji Furuya].
Naquele momento, Sakamoto apontou para seu caderno: “Este é o meu caderno, aquele é o seu, Reiji.”
Reiji ficou em silêncio por dois segundos, olhou para o colega e, surpreso, perguntou: “...Você anotou minhas notas pra mim?”
Ele havia subestimado a situação.
*
As anotações eram muitas, ainda mais porque Sakamoto anotava duas vezes. Reiji passou os olhos pelo conteúdo e perguntou: “Isso não é muito trabalhoso para você?”
A garota sentada à sua frente virou-se para responder: “Fique tranquilo, Reiji, vi o Sakamoto anotando com as duas mãos ao mesmo tempo, e ele é mais rápido do que todo mundo!”
Deus sabe o quanto ela admirava Sakamoto quando viu ele escrevendo com as duas mãos enquanto pedia a borracha emprestada.
Anotar com as duas mãos? Reiji ficou em silêncio, olhou sua caligrafia no caderno e depois a do colega, idêntica, soltando um suspiro: “Obrigado, Sakamoto.”
Antes, teria achado essa pessoa incrível, mas agora só pensava: com Sakamoto, isso é normal.
*
Ainda assim, não conseguiu descobrir o nome completo do colega. Reiji apoiava o queixo na mão, pensativo.
Perguntar diretamente seria rude, então talvez perguntar às duas garotas à sua frente fosse uma boa ideia.
Durante esse tempo, elas não o olharam de forma estranha, o tratavam como alguém comum – provavelmente por causa de Sakamoto.
Qualquer pessoa comparada a Sakamoto parecia comum.
Ele esperou até que o colega saísse da sala e sussurrou para as garotas: “Com licença, posso fazer uma pergunta? Não conte para o Sakamoto.”
Elas acenaram: “Sem problema!”
“Qual o nome completo do Sakamoto? Não me lembro direito.” Reiji perguntou, envergonhado.
Ao ver a expressão séria e a testa franzida da garota, ele se encheu de culpa. Realmente, era estranho não saber o nome do colega após tanto tempo.
Enquanto Reiji refletia, a garota pensou por um momento e revelou uma expressão de culpa idêntica à dele: “Desculpe, Reiji, eu também não sei.”
Reiji: ?
Sua culpa virou dúvida: “Você também não sabe?!”
Se não estava enganado, ele era o único transferido na turma. A garota à sua frente deveria conhecer Sakamoto há pelo menos um semestre.
Ela abaixou a cabeça envergonhada e cutucou a colega ao lado: “Qual o nome completo do Sakamoto?”
Essa colega se dizia fã de Sakamoto, então deveria saber o nome.
Reiji olhou esperançoso.
A colega, imitando Sakamoto, empurrou uns óculos invisíveis e, com ar misterioso, apresentou: “Esse é um dos dez maiores mistérios não resolvidos da escola: [O nome do Sakamoto].”
Reiji: “...O quê?”
*
Com as palavras das garotas, Reiji entendeu rapidamente a situação: ninguém na turma sabia o nome completo de Sakamoto.
A situação era mais absurda do que imaginara.
Por mais que convivesse com ele, não era possível que ninguém soubesse o nome do colega, ainda mais sendo alguém tão presente e até popular.
Mas ninguém conseguia dizer o nome.
Reiji coçava a cabeça, cada vez mais confuso, enquanto o próprio Sakamoto retornava à sala com um pássaro pousado no ombro.
...Um pássaro?
Reiji fixou os olhos no passarinho e piscou, sem entender: “Sakamoto, esse pássaro é seu?”
Sakamoto, elegante como sempre, explicou: “Ele nasceu há pouco e ainda não aprendeu a voar, caiu do alto.”
Reiji compreendeu: “Mas por que ele não vai procurar os pais e fica grudado em você?”
O pássaro parecia ileso, talvez tivesse se perdido dos pais.
*
Enquanto caminhava de volta ao lugar, Sakamoto respondeu: “Talvez ele me veja como da mesma espécie.”
“?” Reiji ainda tentava entender o significado de “mesma espécie”, quando a garota à frente concordou:
“Ele deve ter visto o Sakamoto voando!”
Reiji sentiu seu cérebro encolher: “Como assim viu o Sakamoto voando?”
A garota não achava nada estranho: “É o sentido literal.”
Reiji nunca achara algo tão difícil de compreender. Olhou para o colega e depois para a garota, pensando: deve ser o filtro de fã.
*
Até o fim do dia, o pássaro ficou colado em Sakamoto. Felizmente, era calmo e não fez barulho durante a aula. Reiji deixou o mistério do nome de lado, arrumou a mochila e perguntou: “Sakamoto, o que vai fazer com esse pássaro?”
A escola era grande e era difícil achar os pais do pássaro em pouco tempo, mas deixá-lo sozinho poderia ser perigoso.
Reiji não conseguia pensar numa solução que agradasse a todos, quando ouviu Sakamoto dizer: “Ele confia tanto em mim que vou cuidar dele.”
“Vai levar para casa?” Reiji perguntou.
Sakamoto negou: “Vou ensiná-lo a voar.”
Depois dessa frase, ele saiu levando o pássaro.
Ensinar um pássaro a voar?
Reiji pensou um pouco e entendeu: Sakamoto devia estar se colocando no lugar da mãe do pássaro, querendo encorajá-lo a voar.
Imaginou a cena do calmo Sakamoto incentivando o passarinho e sorriu. Sakamoto era, na verdade, uma pessoa gentil.
*
Ao sair da sala, percebeu o vento forte lá fora. Lembrou-se da mãe, que pela manhã o alertara sobre os frequentes tufões e o pedido para que tomasse cuidado.
Ele caminhava contra o vento, observando as placas das lojas sendo derrubadas, levantando a cabeça de tempos em tempos para não ser atingido por objetos do céu.
Foi então que viu uma silhueta negra no ar.
Reiji pensou que algo havia sido levado pelo vento e, ao olhar melhor, percebeu que era uma pessoa.
Pela sombra, parecia ter a idade parecida com a dele. Seu coração apertou, achando que o garoto poderia ter sido levado pelo vento. Apressou-se a pegar o celular para ligar para a polícia.
Mas no segundo seguinte, viu o garoto abrir um guarda-chuva e descer lentamente.
Quando o garoto se aproximou do chão, Reiji reconheceu o rosto sob o guarda-chuva — era seu colega de carteira, visto quinze minutos antes.
Reiji ficou paralisado, duvidando que o vento não tivesse lhe causado uma alucinação: “Sa-Sakamoto??”
“Que coincidência, Reiji,” disse o rapaz, recolhendo o guarda-chuva com destreza e cumprimentando-o.
Ao se beliscar para ter certeza de que não estava alucinando, Reiji, com a voz trêmula, perguntou: “O que você está fazendo?”
Sakamoto apontou para o pássaro que voava ao seu redor: “Estou ensinando ele a voar. Veja, ele já aprendeu.”
“...” Reiji sentiu que o vento havia levado suas palavras. Abriu a boca, mas só conseguiu responder mecanicamente: “Isso é ótimo.”
A voz estava sem emoção, pois ele sabia que quando alguém fica muito surpreso, perde a capacidade de expressar sentimentos.
Ele não lembrava como conseguiu voltar para casa, só sabia que sua mente estava cheia da imagem de Sakamoto, o humano, que ensinara um pássaro a voar com seu próprio exemplo.