Capítulo Seis: Posso te conquistar?
O atendente do setor de controle e prevenção estava dizendo algo quando ele, com a voz rouca, pronunciou apenas três palavras.
Ele compreendia certas coisas dos humanos, mas outras lhe escapavam; por exemplo, achava que aquele número era o telefone de Pei Wenyang.
A voz do outro lado não era a de Pei Wenyang, e Xing Nan então silenciou.
Sua respiração tornara-se um pouco ofegante, um sintoma que as sereias apresentavam quando se afastavam de seu companheiro. Xing Nan puxou a roupa de Pei Wenyang para si e, escondendo a cabeça de leve nela, inspirou suavemente.
O aroma agridoce de tangerina misturado ao cigarro tinha algo estranhamente agradável.
Xing Nan ergueu o olhar para o céu.
A chuva lhe fustigava o rosto, e lhe dava vontade de dormir.
Por que tinha de ser Pei Wenyang?
Porque, ao sobreviver, tudo se tornaria muito difícil.
A rapidez do setor de controle e prevenção era grande; o comunicador trazia a localização. Não muito depois, Xing Nan sentiu a claridade à sua frente ser coberta por uma sombra. Sua respiração ofegante começou a melhorar aos poucos, envolvida por uma presença poderosa; ele ergueu os olhos.
Era Pei Wenyang.
Sem motivo aparente, o peito de Xing Nan se contraiu e tremeu.
Pei Wenyang sempre lhe barrava a luz; isso ele não gostava.
Mas ele também era alto demais, como se pudesse ocultar qualquer coisa.
Por exemplo, o perigo, por exemplo, a dor, por exemplo, conceder às sereias uma única saída para a vida; como controlava o poder no topo, estava condenado à frieza.
Como agora: o guarda-chuva preto que Pei Wenyang sustentava se inclinava inteiramente para Xing Nan, enquanto ele permanecia na chuva, exalando uma firmeza inabalável.
Pei Wenyang o fitava de cima, e, por suspeitar de algo, desta vez viera pessoalmente liderando a equipe.
Ao ver o estado de Xing Nan, o cenho de Pei Wenyang se franziu.
Xing Nan encolhia-se no chão, encharcado em quase todo o corpo; as roupas colavam-se à pele. A garoa no alto parecia penugem de ganso, soprada pelo vento em diagonal. Um pedra havia rasgado o pé de Xing Nan, e ele perdera muito sangue, ainda sem estancar, escorrendo pelo tornozelo, espalhando-se pelo solo e sendo logo dissolvido pela chuva. Também havia ferimentos na nuca.
Até o sangue, em alguém tão belo, parecia florir.
Mesmo assim, Xing Nan continuava a abraçar com força as roupas de Pei Wenyang, como se a dor em seu corpo não fosse tão importante quanto aquele único pedaço de tecido.
“Pei Wenyang...” Xing Nan ergueu o rosto. A chuva caía em seus olhos, e ele piscava com cílios encharcados. “Perdi muito sangue.”
“Pei Wenyang.”
“Por que saiu da zona segura?” O tom de Pei Wenyang era o mesmo de antes, sem emoção, sem a intenção de repreender.
Não tenha medo dele, disse Xing Nan em silêncio.
“Você suspeita que eu seja uma sereia. Quis vir ver como é uma sereia.”
Pei Wenyang pareceu achar a resposta desprovida de qualquer substância, a ponto de nem querer respondê-la.
Pei Wenyang não gostava de rotular a inteligência alheia em graus; os inteligentes podiam trocar mais ideias, bastava ir até certo ponto, e aos estúpidos bastava não dar atenção.
Mas, naquele momento, ele não se conteve.
“Você é realmente um caso de estupidez com grande criatividade.”
Xing Nan: “……”
Pei Wenyang lançou um olhar para trás, e as poucas pessoas que vinham atrás trouxeram uma maca. Xing Nan foi colocado sobre ela, e o sangue voltou a encharcar o pano branco de algodão.
No instante em que foi erguido, ele ainda agarrava as roupas de Pei Wenyang; o cheiro do tecido não chegava nem a um décimo do de seu próprio corpo.
O estado em que estivera antes estava muito aquém do conforto que sentia agora, com Pei Wenyang ao seu lado.
Aquela roupa bastava para ele aguentar por enquanto.
Mas e amanhã?
E depois de amanhã?
Ficar perto de Pei Wenyang fazia Xing Nan sentir-se bem, como se tivesse voltado ao mar; até o espírito se tornava leve.
“Pei Wenyang.” Xing Nan espiou para fora do tecido. “Estou com fome.”
“Tenho a obrigação de proteger a segurança da vida humana.”
“Mas isso não inclui cuidar de suas três refeições por dia.”
Xing Nan ouviu as palavras de Pei Wenyang e, sem saber por quê, sentiu-se em paz. O tom dele não era pesado; grave, morno, sedutor e contido. Se não se olhasse seu rosto, ele não parecia nem um pouco ríspido, e até soava muito gentil. Como a chuva de agora: tocava o rosto e se desfazia em nada, mas deixava a sensação gravada, como neblina.
“O leite que você me deu, eu terminei de beber”, disse Xing Nan.
Pei Wenyang acompanhava o grupo. “Isso não precisava me contar.”
Xing Nan fingiu não ouvir. “Tinha gosto de leite de coco.”
“Isso também não precisava me contar.”
“Eu gostei”, disse Xing Nan.
“Você é um pouco falador demais.” Pei Wenyang franziu o cenho.
“Estava muito gostoso.” Xing Nan, levado na maca, mantinha os olhos fixos em Pei Wenyang.
“Pei Wenyang.” Vendo que o outro não respondia, Xing Nan chamou seu nome outra vez.
Pei Wenyang: “……”
“Pei Wenyang.”
“Estou falando sério.”
A persistência de Xing Nan divertiu Pei Wenyang, que acabou sorrindo.
“Pei Wenyang.”
“Está ferido. Fique quieto.”
Xing Nan apertou os lábios, continuando a observá-lo, como se quisesse gravar cada traço de seu contorno. A maca era levada com muita firmeza, e seu olhar também permanecia estável.
De súbito, Xing Nan ergueu a mão e agarrou a manga de Pei Wenyang ao lado, apertando-a com cautela a ponta dos dedos. Quando falou, as palmas e as pontas dos dedos estavam coçando.
“Pei Wenyang, eu posso correr atrás de você?”