Capítulo Dois: Você está mentindo

Mordendo as Escamas Um peixe entra no barco. 2316 palavras 2026-07-31 05:07:31

O brilho das escamas cintilava como ondas na água, reluzente e hipnótico, tal qual um veneno sedutor. Era a primeira vez que uma sereia selava amizade, oferecendo uma escama de seu próprio coração, um gesto para seu povo repleto de pureza e amor, destinado apenas ao único companheiro de toda a vida.

Estrela Sul fitava Pei Wenyang diante de si.

Aquela escama pertencia a Pei Wenyang.

Estrela Sul recuou de lado, tentando fugir.

Clac.

De repente, as algemas na cintura de Pei Wenyang prenderam-se ao pulso de Estrela Sul, e o olhar cortante dele fez a cabeça de Estrela Sul girar.

Pei Wenyang tomou a escama da mão de Estrela Sul.

"Levem-no!"

Estrela Sul foi conduzido até a sala de interrogatórios, sob a luz forte e ofuscante que pendia acima de sua cabeça.

O cômodo mergulhava na escuridão, à sua frente estavam Pei Wenyang e mais dois interrogadores uniformizados.

"Nome."

"Estrela Sul."

"Quantos anos?"

"2... 20 anos." Estrela Sul respondeu, ponderando cuidadosamente.

"Tem certeza de que não viu nenhuma sereia, senhor?" perguntou o interrogador, com expressão grave.

"Não vi." Estrela Sul remexeu as mãos.

"Com quem esteve no quarto ontem?" indagou o interrogador.

"Com um senhor."

"E o que fizeram?"

Estrela Sul engoliu em seco: "Amor."

O interrogador silenciou.

Estrela Sul não tinha a noção de vergonha dos humanos; sua sinceridade nua e crua era assustadoramente ingênua.

Pei Wenyang não tinha paciência para escutar palavras lascivas; queria apenas o resultado, sem interesse por assuntos íntimos alheios: "Que relação tinham? Notou algo estranho nele? Qual o nome dele? Onde mora?"

Estrela Sul percebeu que as suspeitas haviam mudado de alvo.

Fitou Pei Wenyang, sentado à mesa do interrogatório: "Não sei quem ele é."

Estrela Sul estava apavorado.

Depois de copular com um humano, uma sereia precisava sentir o cheiro do parceiro; caso ficasse muito tempo sem, podia ter dificuldade para respirar. Se não copulasse... a cauda de peixe acabaria surgindo.

Mas o outro era o comandante superior dali.

Ele não ousava se aproximar.

Ele sabia que um dia dependeria daquele humano para sobreviver, esse pensamento fazia o couro cabeludo de Estrela Sul formigar.

"...Não sei sua identidade, nem seu nome", disse Estrela Sul.

"Bebi álcool."

"Fui forçado." Estrela Sul olhou para Pei Wenyang. "Por isso ele me deu oito mil moedas, o comandante também viu isso agora há pouco."

"Considerando a quantia... seria o pagamento."

"...A escama de sereia... também foi ele quem me deu." Estrela Sul tentou ao máximo afastar as suspeitas de si.

Pela própria vida, poderia até mentir.

Pei Wenyang levantou-se e aproximou-se de Estrela Sul, seu corpo imponente bloqueando a luz diante dele, como uma fera encurralando a presa, aguardando o momento certo para atacar. Apesar de sua aparente gentileza, era assustador.

"A escama de sereia foi ele quem te deu?"

"...Sim."

O peito de Estrela Sul subia e descia levemente.

Pei Wenyang sondou-o, apoiando as mãos na mesa do interrogatório, as sombras dos dois se sobrepondo, o lobo sanguinário encurralando a caça, pronto para o golpe fatal.

"Por que não chamou a polícia?"

"Ele era muito agressivo."

"Não teve coragem?" Pei Wenyang tamborilou levemente na mesa à frente de Estrela Sul.

"Não tive." Estrela Sul agarrou a borda da mesa, lutando para não sucumbir à pressão esmagadora de Pei Wenyang.

"Por quê?"

"...Ele disse que, se eu chamasse a polícia, voltaria para me fazer mal."

"Está mentindo." Um tapa ecoou!

"Não estou!"

"Por medo não chamou a polícia?"

"Não, porque ele estava armado."

Os olhares de Estrela Sul e Pei Wenyang se cruzaram; a mão de Estrela Sul formigava. "...Eu quero viver."

O interrogatório de Pei Wenyang era veloz, sua presença invisível pressionava tudo ao redor.

A conversa entre eles durou menos de meio minuto.

Estrela Sul sentia-se à beira do colapso.

Com os punhos cerrados, pensava que, já que o outro era comandante, certamente descobriria facilmente quem esteve no hotel na noite anterior. Estrela Sul queria se colocar em vantagem; afinal, não se lembrava de nada, e se conseguisse despertar algum remorso no outro, consideraria uma pequena vitória.

Pei Wenyang pegou a mão de Estrela Sul e tirou-lhe uma amostra de sangue.

"Mande fazer um teste genético." Pei Wenyang entregou o sangue ao técnico ao lado. "Quero o resultado em cinco minutos."

"Sim, comandante Pei."

Pei Wenyang prosseguiu: "Descubra com quem ele esteve no hotel ontem."

"O resultado sairá logo, comandante Pei." O funcionário levou a amostra com deferência e se retirou.

Quando o cômodo se aquietou novamente, Estrela Sul, sentado à bancada, já tinha as mãos avermelhadas de tanto apertá-las.

Pei Wenyang o observava: "Sabe qual é a pena por enganar um comandante?"

"...Sei", respondeu Estrela Sul, a voz trêmula.

"Segundo o que relatou, você foi coagido. Se encontrarmos o culpado, pretende denunciá-lo?" perguntou Pei Wenyang.

"...Se eu denunciar... o que acontece?" Os dedos de Estrela Sul tremiam, sondando a resposta.

Pei Wenyang olhou-o de cima. Em público, jamais exibia um olhar cruel, nunca fingia frieza ou intimidação; era, até, bastante amável. Sua austeridade era reputada pelos outros, não por si mesmo.

Ainda assim, a maioria o temia, inclusive Estrela Sul.

"Em toda a Cidade de Po Hai, só o pessoal do Departamento de Controle pode portar armas. Se alguém do departamento agisse assim, as consequências seriam graves."

Pei Wenyang disse: "Na melhor das hipóteses, prisão; na pior, execução."

Os olhos de Estrela Sul brilharam.

"E se o outro for alguém de cargo elevado?"

Pei Wenyang respondeu: "Ninguém é mais alto do que eu."

Antes que Estrela Sul pudesse responder, um funcionário bateu à porta da sala de interrogatório.

"Comandante Pei, de... de... descobrimos..."

O olhar do funcionário era inquieto, a voz hesitante, como se tivesse algo inconfessável, incapaz de falar claramente diante de Pei Wenyang.

Mas suas pernas tremiam de fato.

"Por que essa hesitação?" Pei Wenyang não suportava ver seus subordinados envergonhados, a voz grave: "Fale."

Estrela Sul observava atentamente os dois.

O subordinado, com os resultados em mãos, aproximou-se de Pei Wenyang com o claro intuito de cochichar.

Pei Wenyang o deteve.

Seu olhar frio era um aviso: esse era o limite de sua paciência.

Poucas palavras bastavam; todo o Departamento de Controle temia aquele olhar mais do que a mira de uma arma, era torturante.

"De... descobrimos... on... ontem à noite..." O funcionário, com olhos fechados, gaguejou.

"Chefe, quem esteve com ele no hotel ontem à noite... foi o senhor!"