Capítulo Um

Eu Me Tornei a Namorada Grávida do Jovem Instruído Riacho do Sino 4316 palavras 2026-07-31 05:04:31

A cabeça latejava e o estômago também não estava bem. Desde pequena, Lin Suxin era acometida por doenças, então aquela sensação já lhe era familiar. As pálpebras pesavam como chumbo e o corpo inteiro doía como se tivesse sido desmontado. Tudo ao redor era branco – será que fora levada ao hospital de novo?

Mas não fazia sentido, pois ela já estava internada devido ao agravamento de seu quadro. O médico já havia entregue o aviso de risco de morte, será que ali era mesmo o fim?

O instinto de sobrevivência a obrigou a abrir os olhos. Só via branco, ou melhor, paredes brancas e ligeiramente encardidas. Debaixo de si, uma cama de solteiro; o quarto era tão pequeno que, além da cama, só comportava uma mesinha, nem mesmo um guarda-roupa caberia ali.

Confusa, sentou-se e olhou ao redor. Definitivamente, não era sua casa nem qualquer lugar que conhecesse. Sobre a cadeira havia roupas e, ao lado dela, um grande volume de tecido. Curiosa, pegou o pano nas mãos: era apenas um trapo velho e comprido.

“Para que serve isso?”

Diante daquela situação, e sendo uma internauta experiente, ela logo deduziu estar numa daquelas histórias de atravessar para outra vida. Como estava gravemente doente e sem cura, renascer em outro corpo não lhe preocupava, mesmo em circunstâncias precárias. Só não tinha ainda as memórias da dona anterior daquele corpo e não sabia exatamente em que situação estava.

Viu um espelho sobre a mesa e o pegou. O reflexo mostrava um rosto jovem, com feições muito semelhantes às suas próprias. Isso a deixou contente — poder desfrutar da juventude era um privilégio.

Porém, havia tristeza no olhar daquela jovem. O que a afligiria? Enquanto pensava, sentiu um movimento estranho no ventre. Havia algo ali dentro — e estava se mexendo.

Esse reconhecimento quase a fez derrubar o espelho. Ao olhar para baixo, confirmou: sua barriga estava muito maior do que seria normal para seus braços e pernas tão magros.

Tocou o ventre e logo percebeu: eram movimentos fetais. Por sorte, já tinha lido muitos livros de medicina e aceitou a ideia rapidamente. A dona daquele corpo estava grávida, mas o quarto em nada lembrava o de uma jovem casada.

Olhando novamente para a tira de pano, subitamente entendeu: talvez aquela gravidez fosse um segredo, algo que não devia ser descoberto.

Mas por quê? Se não podia ter o bebê, por que não interrompeu logo no início? Agora, com esse tamanho, já parecia estar com cinco meses. Por que não resolveu antes, tendo esperado até sentir o bebê se mexer?

Sem as memórias da antiga dona, vasculhou as gavetas em busca de pistas. Encontrou um caderno e começou a folheá-lo atentamente.

A caligrafia delicada era de uma moça. Página após página, confirmou: estava mesmo grávida. A garota lamentava o fim do relacionamento com o pai da criança, que já tinha uma nova namorada. Para interromper a gravidez, precisava da assinatura da família, mas não tinha coragem de contar. Por isso, adiou até aquele momento.

O caderno não dizia quem era o homem, nem seu nome. Com uma barriga tão grande, como pôde se deixar chegar a esse ponto? Ou enfrentava a situação, ou pedia ajuda à família para interromper a gravidez. Não tomou nenhuma das decisões, apenas se deixou consumir pelo medo e pela preocupação.

Ficou sem palavras diante daquela indecisão. Pelo diário, calculava-se que a gestação já tivesse seis ou sete meses. Na noite anterior, a dona do corpo ficou na chuva e chorou metade da noite, o que talvez tivesse enfraquecido o corpo, permitindo a troca de almas.

“Susu, já acordou? Por que está tão tarde hoje?”

O som de batidas na porta e a voz do lado de fora a assustaram. Respirou fundo, tentando soar natural.

“Já acordei, já estou indo.”

“Apresse-se, senão vai se atrasar para o trabalho e perder o café.”

“Já vou.”

A antiga dona tinha voltado da zona rural, não passou no vestibular e agora trabalhava vendendo legumes numa loja. Anos atrás, esse emprego seria ótimo, mas para quem cursou o ensino médio, era apenas razoável. O ideal seria ir para a universidade.

Ainda bem que o diário explicava essas coisas. Enquanto respondia à porta, enrolava rapidamente a faixa em volta da barriga.

Com seis ou sete meses, a barriga já era bem visível, mas apertando bem talvez conseguisse disfarçar. Precisava procurar logo um hospital para entender melhor a situação e decidir o próximo passo.

Ao sair do quarto, encontrou uma pequena sala de refeições. Na mesa redonda, estavam três pessoas: um homem e uma mulher de meia-idade, e um rapaz de cerca de vinte anos.

A mulher olhou de soslaio para o homem ao lado e, timidamente, a chamou: “Venha comer.”

O homem levantou os olhos, o olhar duro e frio. “Arrume logo um marido e case-se, já está na hora de sair de casa. O Haohao vai estudar aqui perto, desocupe seu quarto para ele.”

Pelo que lera no diário, aquele era o pai. Céus, como podia um pai tratar a filha como se fosse um estorvo? A mulher falava baixo, cheia de pena nos olhos, mas não ousava contrariar o marido. O rapaz, provavelmente o irmão, comia como se nada estivesse acontecendo.

Comeu em silêncio mingau e pão, quase não tocando nos picles, enquanto pensava rápido. Mãe tímida, pai agressivo, irmão insensível — agora entendia por que a antiga dona não teve coragem de contar nada.

“Pai, o salário já saiu? Quando vai me dar o dinheiro prometido?”

O irmão perguntou, confirmando sua suspeita. Ainda pensava em como responder, quando o pai lançou um olhar fulminante.

“Tá parada por quê? Assim que receber, entregue tudo em casa. Vai ficar comendo de graça até quando?”

“Ainda não saiu.” Na verdade, já tinha recebido, mas pretendia guardar tudo — eram as únicas vinte e uma moedas da antiga dona, talvez nem suficiente para o procedimento.

“Inútil.” O homem resmungou e voltou-se para a esposa. “Arrume um pretendente pra ela, que se case logo.”

A mulher encolheu-se, resignada. “Estou procurando, já falei com algumas pessoas.”

Lin Suxin tomou meia tigela de mingau e não ficou satisfeita. Ao olhar para o prato de esmalte, o pai já ralhou: “Olha o que olha. Com esse barrigão ainda quer comer mais? Quer engordar feito porca?”

Assustada, largou a tigela e se levantou, curvando-se para disfarçar a barriga. Já tinham notado o volume, precisava resolver logo.

“Susu, com esse calor, por que ainda está usando esse casaco tão largo?” A mãe perguntou, preocupada.

O pai resmungou: “Vive vestida como uma velha, quem vai querer casar assim? Semana que vem faça uma roupa nova pra ela, que fique apresentável.”

Ela fez sinal negativo, apressada, e saiu para o trabalho. O dia realmente estava quente. Era primavera, as flores já desabrochavam, mas ela usava o casaco largo para esconder a barriga, mesmo apertada com a faixa. Se usasse só roupas leves, seria fácil perceber.

Ao sair do prédio, ficou confusa outra vez. Onde era mesmo o trabalho? Pediu em silêncio pelas memórias da antiga dona. E, como se os céus ouvissem, um formigamento na mente a fez compreender sua situação. Sem perder tempo, seguiu para o trabalho.

Vender legumes não era fácil, mas também não era exaustivo. Como não sabia usar o ábaco, fazia as contas de cabeça. Uma das senhoras elogiou seu desempenho várias vezes. Estava tudo bem até que tocaram num ponto sensível.

“Com esse calor, por que não tira esse casaco? Está suando tanto!”, disse uma senhora, estendendo a mão para ajudá-la. Lin Suxin desviou, sorrindo constrangida.

“Não precisa, estou bem.”

“As duas conversavam baixinho sobre ela, mas fingiu não ouvir. Ficou para o plantão do almoço e abriu a marmita da mãe: dois pães recheados de macarrão e tofu.”

Comia mecanicamente quando, de repente, sentiu outra presença dentro de si: a antiga dona do corpo. O rosto era só tristeza, à beira do colapso.

“Eu não queria essa segunda chance. Deixo este corpo para você, mas me prometa uma coisa.”

“Diga.”

Receber uma nova vida, após morrer doente, era algo que não podia recusar. Concordou com a cabeça.

“Cuide da minha mãe. Ela sofreu muito por minha causa. Não quero que, mesmo nessa nova oportunidade, ela continue sofrendo.”

“Agora que sou você, sua mãe é minha mãe.”

“Obrigada. Vou embora. Espero que você tenha uma boa vida.”

O outro espírito se dissipou, deixando todas as memórias com ela. Agora, Lin Suxin era uma só, compreendendo tudo — inclusive o motivo da gravidez fora do casamento.

Ela e o homem eram da mesma cidade e, ao chegarem à zona rural, começaram a se ajudar, apaixonando-se. Mas, após o retorno do vestibular, ela percebeu o abismo entre eles e, tomada pela insegurança, cometeu um erro.

No dia do aniversário dele, após o exame, ela se encontrou sozinha com outro rapaz. O namorado apareceu de surpresa e presenciou a cena. Furioso, ela não soube explicar. Depois, beberam e passaram a noite juntos. Ele deixou o local e voltou para a cidade.

Era um drama típico de novela, por isso a antiga dona hesitava em procurá-lo. Depois do rompimento, sentia-se culpada e insegura. Se ele desconfiasse dela, seria insuportável.

Quando ele foi aprovado na universidade e partiu, ela percebeu que havia algo errado. No ano seguinte, ao retornar, tentou encontrá-lo na escola várias vezes.

E se ele não aceitasse? O medo só aumentava ao vê-lo com a nova namorada. Quis interromper a gravidez, mas não conseguia. Ainda o amava, era o filho dele. Procurá-lo, no entanto, era impossível diante de tamanha timidez.

Nesse emaranhado de sentimentos, chegou à situação atual. Lin Suxin compreendia agora as angústias da antiga dona.

O amor pode tornar as pessoas tímidas, confusas e até burras. É realmente um problema. Tentou afastar esses pensamentos, mas logo percebeu que aquela história parecia saída de algum romance que já lera.

A menina não teve coragem de abrir mão da gravidez. Sentia-se inferior diante do ex-namorado universitário e chegou àquele ponto. Agora, Lin Suxin estava grávida e precisava resolver logo sua situação.

Não tinha sentimentos por aquele homem, então o mais sensato era interromper a gravidez. A antiga dona só pedira que cuidasse da mãe, não obrigou-a a criar os filhos.

Terminou o plantão às três da tarde. Quando as colegas chegaram, saiu direto para o hospital, levando todo o dinheiro que tinha. Não queria adiar nem mais um dia.

Pegou o ônibus, foi ao hospital e, após a consulta na obstetrícia, ouviu o sermão da médica. “Gêmeos, desenvolvimento deficiente. Você usou faixa para esconder porque não queria? Por que não veio antes? Pelos cálculos, está com cerca de vinte e sete semanas e são dois sacos amnióticos. Neste estágio, a indução ao parto é muito perigosa, alto risco de hemorragia e infertilidade. Não recomendamos. Volte para casa e converse com seu marido. Não podemos fazer esse procedimento sem a assinatura dele.”

Ao sair com o laudo, descobriu que, naquela época, mulheres só podiam fazer esse tipo de cirurgia acompanhadas e com o consentimento do marido. Além disso, era perigoso demais; sem a família, seria impossível.

Ou seja, não havia como resolver a situação sozinha. No romance, Lin Suxin também hesitou, nunca procurou o homem e acabou criando os filhos sozinha.

A mãe, a princípio, ficou furiosa, mas depois aceitou. O pai a expulsou de casa e nunca mais a reconheceu. Para sustentar os filhos, ela sofreu muito. E a mãe, por ajudá-la às escondidas, apanhou e foi humilhada inúmeras vezes. Ela causou sofrimento a si mesma e à mãe.

Eram gêmeos, um menino e uma menina, ambos muito promissores, que entraram na universidade. O filho, já adulto, foi trabalhar na empresa do pai biológico, e por se parecerem tanto, acabaram se reconhecendo.

A esposa do homem, por algum motivo — talvez carreira, talvez saúde —, nunca teve filhos. Assim, a empresa acabaria, quase certamente, herdada pelos filhos de Lin Suxin.

O homem nada fez e acabou ganhando dois filhos; os filhos herdaram a fortuna do pai. Para ambos os lados, pareceu um final feliz, com os filhos sendo carinhosos. Mas, como espectadora, Lin Suxin achou tudo estranho, tanto que largou o livro na época. Agora, ela estava no início de tudo.