Capítulo 16
À noite, a névoa branca aguardava como de costume dentro da tenda.
Como sempre, o deus maligno apareceria alguns minutos antes das nove horas, mas naquela noite ele não veio.
O mais estranho era que ela não o havia visto desde o começo da manhã; mesmo quando levou comida para o lago no centro da ilha, não houve resposta.
... Seria verdade que o deus maligno tinha ido a algum outro lugar por algum motivo?
Depois de esperar mais meia hora, ele ainda não aparecia.
Névoa Branca desligou o tablet, planejando descansar cedo para reunir forças para o dia seguinte. Mal se deitou, ouviu um leve som de bolhas.
Misturado com o vento da noite, parecia o som de bolhas de água estourando, vindo da direção do lago no centro da ilha.
Pensando que fosse algum peixe soltando bolhas na superfície, Névoa Branca ignorou e fechou os olhos para descansar. Pouco depois, ouviu uma sequência de bolhas.
Após alguns segundos de silêncio, ela se sentou na cadeira de rodas e foi até lá.
O caminho até o lago era irregular e cheio de pedras, mas um esquilo havia limpado um caminho para evitar que ela caísse.
Há um mês, ela ainda andava normalmente, mas de repente suas pernas ficaram paralisadas e ela precisou da cadeira de rodas, o que causava desconforto físico e psicológico. Felizmente, desde pequena, Névoa Branca tinha grande capacidade de adaptação.
Olhando para a superfície calma, quase fria, do lago, ela repentinamente lembrou-se do passado distante.
Quando criança, não se recordava exatamente a idade, mas já havia vivido como uma criança de rua por um tempo.
Quando estava com fome, pegava pão meio comido que alguém jogava fora; quando estava com sede, bebia água da torneira; quando o shopping fechava e o aquecimento permanecia ligado, ela se encolhia em um canto atrás da vitrine para dormir.
Alguns transeuntes bondosos lhe davam comida, roupas e perguntavam de onde ela havia se perdido, tentando levá-la para encontrar os pais.
Sempre que isso acontecia, ela cobria o rosto com o capuz e corria para outro lugar para continuar vagando.
Uma manhã de inverno, ela abriu os olhos meio sonolenta e viu, através da vitrine, um par de olhos.
Eram olhos femininos, de cor âmbar, suaves, com um leve delineado na ponta; os lábios eram de um vermelho suave, e o cabelo preso num coque frouxo, radiante e gentil.
A mulher vestia o uniforme de uma loja de doces e parecia surpresa ao ver uma criança suja dormindo do lado de fora da vitrine a noite toda.
Logo depois, seu olhar suavizou, carregando uma compaixão indescritível.
Era o tipo de olhar que Névoa Branca mais conhecia.
Ela pensou que a mulher logo perguntaria por que ela estava ali, onde estavam seus pais, se estava perdida ou fugida do orfanato, e que provavelmente chamaria a polícia para levá-la embora.
Que incômodo.
Ela precisava fugir logo depois que recebesse comida.
Ela esfregou a manga suja, com voz infantil e tímida, e perguntou: “Moça, poderia me dar um pouco de comida?”
Atrás da vitrine, havia uma variedade de doces que exalavam um aroma irresistível, mesmo separados pelo vidro.
A mulher pegou o avental e agachou-se, olhando para ela com os olhos âmbar gentis, tentando fazer contato visual através da vitrine.
Névoa Branca desviou o rosto, escondendo os olhos sob a aba do capuz.
“Você está com fome?” perguntou.
Névoa Branca assentiu levemente.
“Eu não comi nada o dia todo.”
A mulher respondeu com voz suave: “Mas eu sou apenas uma funcionária da loja, os produtos são limitados, se eu te der algo escondido, posso ser punida.”
Névoa Branca apertou os lábios.
A mulher mudou o tom e disse de repente:
“Que tal assim: eu esqueci minha carteira de identificação em casa, que não fica longe daqui, mas estou ocupada e não posso sair. Se você for lá buscar antes do dono chegar, eu compro esse bolo para você, que tal?”
Ela apontou para um bonito bolo de chocolate trufado na vitrine, marcado por 128 yuans.
Névoa Branca piscou, olhou por um momento, e baixinho perguntou: “Posso escolher o bolo de morango ao lado?”
A mulher ficou surpresa e sorriu: “Escolha o que quiser.”
Ela abriu a porta e se aproximou de Névoa Branca, seu aroma doce parecia transbordar.
Agachou-se e entregou as chaves: “Vá para a direita daqui, conte até a placa 356 na rua, entre pelo portão, prédio 2, segundo andar, apartamento 201. O crachá está no armário do hall.”
As chaves na mão dela pareciam cheirosas também. Névoa Branca limpou a mão numa parte limpa do corpo e as pegou.
Ela seguiu as instruções da mulher, andando para a direita, saindo da rua movimentada e chegando a um bairro um tanto decadente, com o posto de segurança vazio.
Usou a chave para abrir o portão, pisou na neve fresca e achou o prédio 2, segundo andar, apartamento 201.
Ficou na ponta dos pés para abrir a porta. Um aroma agradável a recebeu; o apartamento era pequeno, com um quarto e uma sala, de disposição fácil de entender, mas muito organizado e acolhedor, como a mulher.
Os sapatos de Névoa Branca estavam sujos de neve e lama, e apesar de pular um pouco para tentar limpar, não adiantou muito. Cautelosamente, ela pisou no chão do hall, pegou o crachá no armário e trancou a porta.
No caminho de volta, ela examinou o crachá.
O primeiro caractere era “Bai” (Branco), mas os dois últimos caracteres ela não conseguiu entender.
Durante a volta, era horário de pico e as ruas estavam cheias de gente, com neve por toda parte. Névoa Branca acabou se perdendo e não conseguiu voltar para a rua certa.
Quando finalmente encontrou o caminho, já era quase meio-dia.
Através da vitrine coberta de neve, a luz dentro da loja era aconchegante. A mulher, com o cabelo meio desgrenhado, embala um bolo delicado para um cliente e de repente vê Névoa Branca do lado de fora.
A mulher trocou de turno com uma colega, tirou o avental, pegou o cachecol e abriu a porta para encontrá-la.
Envolta pelo aroma doce, Névoa Branca apertou os lábios e disse baixinho: “Desculpe.”
A mulher guardou as chaves e o crachá, ajeitou o cachecol e sorriu: “O dono descontou cinquenta yuans do meu salário, não dá para comprar esse bolo para você.”
Névoa Branca abaixou levemente a cabeça, a neve caía sobre seu pescoço.
Ela murmurou um “hum”.
“Mas...”
Os dedos quentes varreram a neve do pescoço dela. A macia echarpe foi colocada cuidadosamente em volta do pescoço da menina, e a mulher ajeitou o cachecol cor-de-rosa delicadamente.
“O dinheiro que sobrou dá para duas tigelas bem quentinhas de macarrão com carne bovina, grande e com bastante carne, na esquina da rua. Quer ir?”
Névoa Branca foi.
Comeu uma tigela enorme, como um adulto.
No vapor que subia, pensou que aquele era o melhor macarrão com carne que já havia comido.
Depois da refeição, a mulher não perguntou se ela estava perdida ou sobre seus pais. Acariciou sua cabeça e foi trabalhar normalmente.
Névoa Branca ficou do outro lado da rua, observando a mulher ocupada atrás da vitrine, envolvendo o cachecol macio, inalando o perfume que sobrava nele.
Nos dias seguintes, a mulher frequentemente dava pequenos “trabalhos” para Névoa Branca, ajudando-a a entregar ou pegar coisas em troca de comida.
Finalmente, numa noite de forte nevasca, Névoa Branca bateu à porta da casa dela.
Com o rosto escondido no cachecol, disse baixinho: “Posso ficar uma noite aqui?”
A mulher abriu a porta segurando uma cebolinha, encostada no batente, sorriu: “Claro, mas o que você sabe fazer para ajudar? Sabe cozinhar?”
Névoa Branca assentiu levemente.
Ela nunca tinha mexido na cozinha, nem sua altura chegava à pia, claro que não sabia.
Mas a mulher pareceu confiar em suas habilidades culinárias, deixou-a fazer o que quisesse e até trouxe um banquinho para ela subir.
Névoa Branca improvisou e preparou dois pratos desajeitados, feios e com gosto apenas tolerável.
A mulher criticava enquanto comia, reclamando que havia colocado sal demais e que o molho de soja estava salgado, mas comeu tudo.
Depois da refeição, a mulher a levou direto para o banheiro.
“Não suje minha cama, lave-se direito.”
Névoa Branca ficou num canto, segurando o capuz com a cabeça baixa, hesitou um pouco e finalmente tirou o capuz.
Seus cabelos levemente ondulados caíram, e mesmo sujos, a cor era incomum — um branco-prateado longo.
A mulher estranhou: “Quem pintou seu cabelo?”
Névoa Branca apertou os lábios: “Ninguém.”
A mulher ficou surpresa por um instante, riu e ligou o chuveiro, dizendo: “Sente-se, me avise se a água estiver quente demais, o controle de temperatura aqui vive dando problema.”
Névoa Branca sentou-se obediente como uma boneca, deixou que a mulher lavasse seu cabelo, que espumou abundantemente. Depois, ela enxaguou, escorreu a água e prendeu o cabelo com um pequeno elástico.
Depois do banho, a menina ficou em pé ao lado da cama, e a mulher sentou-se atrás dela, usando um secador para secar seu cabelo.
Deve fazer muito tempo que ela não cortava o cabelo, que chegava até a cintura. Parada ali, parecia uma boneca.
O secador zumbia, e o cabelo branco-prateado esvoaçava das pontas dos dedos, roçando suavemente como uma névoa etérea e fugidia.
“Você tem nome?”
A menina hesitou por alguns segundos e balançou levemente a cabeça.
A mulher sorriu: “Então tudo bem, você vai se chamar Névoa Branca. Branco de branco, névoa de neblina.”
“... Por quê?”
“Dá nome até para gatos e cachorros, se você vai morar na minha casa, eu não posso dar um nome?”
A mulher desligou o secador com uma mão e com a outra apertou a cabeça dela com carinho.
“Vai dormir agora, meu gatinho.”
...
“Bai.”
Parecia que havia algum som no ouvido, abafado, vindo de longe, inaudível.
Névoa Branca abriu os olhos levemente, a água do mar invadiu seus olhos e embaçou sua visão, restando apenas um escuro e oscilante.
Algo a prendia; mãos e pés estavam apertados por tentáculos que a puxavam para o fundo do mar.
Ela olhou para baixo. Há pouco estava na margem, mas de repente, sem saber como, havia afundado no fundo do lago.
Na água turbulenta, ela viu vagamente vários tentáculos negros apertando seus membros.
Seria o deus maligno...?
Esses tentáculos negros lhe causavam uma sensação estranha, pareciam o deus maligno, mas também não.
O único fato certo era que eles tinham o poder de iludir, pois ela só de ter se aproximado da margem do lago, caiu involuntariamente em lembranças do passado, sem saber quando foi puxada para baixo.
Os tentáculos a arrastavam para o fundo, e ela não conseguia resistir, começando a sufocar.
De repente, os tentáculos que a prendiam soltaram as mãos e os pés.
Uma força familiar, fria e pegajosa, envolveu sua cintura, segurando-a e levando-a para a margem.
Ela lançou um olhar e reconheceu os tentáculos escarlates familiares, enquanto os tentáculos negros recém-aparecidos pareciam cortados, misturados com água negra, afundando lentamente no fundo do mar.
Chegando à margem, a menina se abaixou sobre uma pedra, tossindo água engasgada, com o rosto pálido.
Wufu observou sua situação lamentável e achou necessário estabelecer algumas regras para ela.
Por exemplo: a burrinha do gatinho não pode brincar na água.
Ele só foi fazer um teste rápido e, ao se virar, viu que ela havia sido capturada por um experimento fugitivo no mar.
Se não tivesse percebido cedo, ela já teria se afogado.
“Diga, por que você veio ao lago em vez de dormir?”
O que eram aqueles tentáculos negros? Por que a puxaram para a água?
Névoa Branca estava cheia de dúvidas, mas sabia que não tinha direito de perguntar. Levantou os olhos levemente, seus olhos carmesins brilhando sob a luz da lua, puros e úmidos.
“Senhor, você não veio esta noite, então eu vim ver você.”
Para Névoa Branca, isso era apenas perguntar normalmente por que ele não apareceu na tenda.
Mas para Wufu, isso significava...
Que ela não conseguia dormir sem tê-lo por perto.
Wufu ficou em silêncio por alguns segundos, separou uma água-viva cor-de-rosa e, enrolando-a com seus tentáculos, a colocou no colo dela, falando impacientemente:
“Já chega, vá dormir.”
Dito isso, os tentáculos escarlates afundaram no mar, e a superfície do lago voltou à calmaria.
Névoa Branca ficou ali, perplexa...