Capítulo 11
Naquela noite em que conversou com Black, Neblina, ao perceber que ele possuía habilidades especiais, não disse nenhuma mentira durante o diálogo, embora tenha habilidosamente omitido o fato de ter visto o Deus Maligno. Ela não sabia ao certo qual era a verdadeira identidade de Black, tampouco se ele era realmente uma pessoa boa, e não conseguia fazer tal julgamento. Quanto mais ele demonstrava interesse pelo Deus Maligno, mais ela precisava esconder que já houvera contato direto com ele.
Se fosse apenas um encontro casual com Black, ela teria várias maneiras de se esquivar. Mas, naquela situação — o próprio Deus Maligno estava em seu colo, aguardando para devorar os bolinhos de polvo que ela havia comprado; caso ficasse insatisfeito, poderia explodir em fúria. Black, por sua vez, sorria diante dela e perguntou: “Enviei uma mensagem para você, mas não respondeu. Não viu?”
Ela não podia deixar que o Deus Maligno soubesse que a conversa com Black estava ligada a ele, nem que Black percebesse algo estranho nela. ...Isso não seria um pouco demais para ela? Neblina apertou o saco com mais firmeza e disse: “Meu celular ficou sem bateria, não vi a mensagem.” Black sorriu: “Tudo bem, por acaso nos encontramos aqui. Minha mensagem era para saber se você estaria livre hoje para tomar um copo de leite no bar.”
Ao lado de Black estava um homem, cerca de vinte e sete ou vinte e oito anos, com uma aura madura e um pouco rebelde, vestido com o uniforme do bar e carregando uma caixa de cervejas. Black apresentou-o, colocando a mão no ombro do rapaz: “Este é o novo barman, chama-se Pequeno Mu.” O homem franziu levemente o rosto ao ouvir o apelido, mas não disse nada, apenas acenou para Neblina: “Olá.” Black comentou, rindo: “Ele é meio fechado, não fala muito, pode ignorá-lo.” Depois, virou-se para Neblina: “Ah, ainda não perguntei seu nome.”
Neblina não queria revelar sua verdadeira identidade para Black, mas com o Deus Maligno presente, se mentisse ou inventasse algo, a persona que ela havia cuidadosamente construído desmoronaria, o que traria suspeitas do Deus Maligno. Black e o Deus Maligno — este último era, sem dúvida, mais perigoso. Assim, Neblina respondeu suavemente: “Neblina.”
“Que nome especial, muito bonito.” Neblina permaneceu em silêncio. Ao seu lado, Pequeno Mu lançou um olhar indiferente para Black, que captou o sinal e, forçando uma conversa, perguntou: “Você gosta muito de bolinhos de polvo? Comprou tantos assim, vai conseguir comer tudo sozinha?”
Neblina apertou os lábios: “Consigo.” Black continuou: “Aquele sabor de durião é gostoso, você comprou...” A fala do rapaz foi interrompida abruptamente; um zumbido suave soou em seus ouvidos e tudo que restou foi a música da rua e o murmúrio das pessoas passando. Os dois à sua frente mantinham os lábios em movimento, mas haviam parado de falar. As pessoas ao redor passavam sem perceber nada.
A voz do Deus Maligno não demonstrava emoção. “Vamos.” Neblina não sabia por que ele agira de repente, mas podia supor que ele estava impaciente. Sem ousar irritá-lo mais, virou-se e saiu apressadamente. Depois que ela se afastou, Black retornou à realidade, piscando surpreso: “Ei? Por que estou aqui?”
“Ah, certo, acho que vim comprar bolinhos de polvo.” Meio confuso, Black sentia que havia esquecido algo, mas não conseguia se lembrar. Ele sacudiu a cabeça, foi até a loja, pediu duas porções de bolinhos de polvo e, ao voltar com as caixas nas mãos, viu Pequeno Mu parado, olhando para o relógio.
“O que aconteceu?” “Quando chegamos, a música tocava o sinal das oito horas, e agora são oito e dez, contando o tempo que você ficou comprando.” “Isso quer dizer que...” Pequeno Mu abaixou o relógio e seus olhos brilharam de excitação. “Ficamos aqui parados por pelo menos cinco minutos.”
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Neblina caminhava cuidadosamente pela rua, carregando as dezenas de caixas de bolinhos que pesavam um pouco, trocando a mão que as segurava. Perguntou com cautela: “Senhor, está bravo comigo?” Tentáculos úmidos envolveram seu pulso, escorregaram pela mão, tocaram suas costas e tiraram uma caixa de bolinhos do saco.
O Deus Maligno enrolou um bolinho com seus tentáculos e perguntou: “Por quê?” Neblina não entendeu se ele questionava por que ela parou para conversar ou por que ele estava bravo. Ela respondeu baixinho: “Você...” “Ruim.” Ele provou apenas um bolinho e deu aquela avaliação. Tendo comido algo ruim e gastado energia, parecia cansado, fechando os olhos sem vontade de falar mais. Neblina não insistiu.
Ao voltar para o hotel, passou o cartão e cuidadosamente colocou o Deus Maligno, que se assemelhava a uma água-viva, sobre a cama macia. “Senhor, espere um pouco.” Ele examinou o quarto, que tinha um sofá branco puro, molduras de ferro pretas nas paredes e muitos vidros que refletiam a luz branca intensa.
“Este é o seu ninho?” Neblina, que estava enchendo a banheira, parou por um momento: “Este é um lugar temporário para humanos ficarem, alugado mediante pagamento, é um ninho provisório.” Depois de encher a banheira, ela colocou a água-viva dentro. Ele parecia interessado na pequena banheira, batendo os tentáculos ao redor.
De repente, enrolou uma bolinha rosa clara e perguntou: “O que é isso?” Neblina olhou e viu uma bola efervescente de sais de banho que o hotel fornecia, explicando casualmente: “Serve para tomar banho, ajuda a relaxar e melhora o sono.” Depois, saiu do banheiro para pegar uma seringa, pensando que seria melhor usar para coletar sangue ao invés de cortar toda vez.
Ela extraiu o sangue e injetou em cada caixa de bolinhos. Levou uma porção de sabor original de volta ao banheiro e viu a cena: a banheira transbordava espuma leitosa que inundava quase metade do cômodo, perfumada com aroma de rosas. Entre a espuma densa, só era possível ver uma leve cor rosa, como se algo tentasse se libertar.
Mas o esforço era em vão; ao afastar uma parte da espuma, outra mais espessa a cobria, enterrando-o completamente. Neblina entrou rapidamente, pisando na espuma, e o retirou. Como havia muita espuma, precisou se curvar por um tempo para encontrá-lo.
Ao tirá-lo, seu corpo ficou coberto de espuma, mas não se importou. Abriu o chuveiro e lavou o Deus Maligno. Ele perguntou: “...É assim que os humanos relaxam?” Enterrar-se em espuma? A garota ficou surpresa, seus olhos lindos e úmidos, com uma pequena bolha no nariz. “Você colocou espuma demais.” Apenas uma bola de sais de banho era suficiente, e as cinco ou seis do balcão haviam desaparecido.
Depois disso, o banheiro ficou inutilizável para banho. Neblina pensava em desligar a água, quando ele falou: “Não preciso ficar dentro d’água o tempo todo.” Neblina piscou levemente. Ele passava o dia no mar, e ela pensava que ele não podia ficar longe da água. Mas já que ele disse isso, ela o colocou de volta na cama e distribuiu as porções de bolinhos.
Os tentáculos cor-de-rosa enrolaram um bolinho, e, aparentemente por precaução, examinou-o por dois segundos antes de comer. Parecia gostar, pois pegou outro em seguida. Neblina não sentia apetite, afinal cada bolinho continha seu sangue, transformando-os em uma espécie de bolinho recheado, o que lhe causava um leve nojo.
Enquanto o Deus Maligno comia, ela falou sobre limpar o banheiro e trocar a roupa molhada, levando roupas limpas para dentro. Porém, ao abrir o chuveiro, não trocou de roupa; encostada na parede, limpou todas as mensagens trocadas com Black no celular e o adicionou aos contatos privados.
Neblina estava um pouco cansada e confusa, sentando-se no canto da parede. Não sabia o que o Deus Maligno havia feito, se Black havia visto ela desaparecer diante dos olhos dele. Mesmo que sua memória tenha sido apagada como a do par de tio e sobrinho na torre do farol, Black não era uma pessoa comum e poderia perceber algo estranho.
Pensamentos confusos a distraíram até que ela viu uma mensagem da mãe:
“Querida, o importante é que você esteja feliz, não se preocupe, aproveite sem medo.”
“Ah, e tem aquele garoto da sua turma? Ele sempre ajuda no hospital, parece gente boa. Você já está na universidade, pode começar a pensar em namorar e aproveitar a vida.”
Neblina sorriu levemente, achando graça, e respondeu:
“Sei disso, mãe, mas não estou interessada em ninguém agora.”
Terminada a mensagem, apoiou-se na parede para se levantar, mas de repente sentiu tontura, tudo escureceu. “Ploc”— a garota caiu inconsciente no chão frio, o celular caiu ao lado emitindo um som de “bip bip bip...”.
Alguns segundos depois, a chamada foi atendida, e uma voz feminina suave disse: “Oi, querida, ainda acordada tão tarde?” Do outro lado, só se ouvia o som da água. “Alô?” “Querida?” “Querida, o que aconteceu? Por que não responde? Está tudo bem?” A mãe de Neblina estava preocupada, até que ouviu um clique e a porta sendo aberta.
Entre o barulho da água, uma voz jovem e firme, um pouco desconfiada, chamou: “Neblina?” A mãe ficou tensa e perguntou com voz ríspida: “Quem é você?” “O que você fez? Seja quem for, fique longe dela! Já chamei a polícia!”
O Deus Maligno percebeu o celular no chão, talvez satisfeito após comer, não se incomodou com o tom agressivo e, enrolando o aparelho com os tentáculos, respondeu calmamente: “Sou o dono dela.”
“Além disso, ela adormeceu na espuma do banheiro, vou carregá-la para fora.”
Após desligar, olhou para a garota imóvel entre as bolhas e encontrou seus olhos úmidos abertos. A menina abriu a boca sem forças: “...”