Capítulo 1
A noite era silenciosa, a névoa branca se espalhava por toda parte.
O caminhão seguia por uma estrada costeira deserta, envolta em completa escuridão, apenas os faróis cortavam a noite, como se estivessem prestes a ser engolidos pela densa neblina.
O rádio do carro chiou, e uma melodia suave de instrumentos tradicionais inundou o ambiente.
O homem soltou uma baforada de fumaça, lançou um olhar para o jovem ao seu lado no banco do passageiro e sorriu: “O que foi, está com medo?”
“É só neblina, por que teria medo? Tio Zhang, eu não sou mais criança.”
Zhang Ming continuou a girar o botão do rádio, e com um clique, mudou para uma voz feminina e mecânica.
“Alerta de tempestade elétrica para o arquipélago de Yuxun.”
“Algumas ilhas já registram garoa. Previsão de aumento de chuva entre 21 horas e 2 da manhã, tornando-se tempestade severa com trovoadas. Evite sair durante tempestades.”
“Devido à influência das marés, o nível do mar aumentou nos últimos dias. O parque costeiro está fechado. Visitantes, por favor, mantenham-se afastados da orla e evitem passeios de barco para prevenir acidentes.”
Zhang Ming olhou através da janela embaçada, enxergando apenas a vastidão do mar negro.
“Tio Zhang, até a previsão do tempo fala em tempestade elétrica. Meu celular não tem sinal. A gente vai mesmo sair para o mar desse jeito?”
O homem chamado de tio Zhang apagou o cigarro, soltou um círculo de fumaça e o esmagou no cinzeiro.
“O patrão pediu. Gente rica está com pressa hoje, fazer o quê? Pagou uma fortuna, só essa viagem vale por dez anos de transporte.”
Zhang Ming procurava sinal pelo carro com o celular. A página do fórum continuava carregando sem sucesso. Por fim, desistiu e resmungou: “Que lugar é esse, nem um pontinho de sinal?”
Ele tinha acabado de ver um post interessante e esperava que o autor continuasse inventando suas histórias.
Pegou um pão, rasgou o pacote e deu uma mordida, olhando pelo retrovisor.
“Nem sei o que é essa carga. Só uma caixa, leve até, quando levantamos.”
“Não se mete nessas coisas. Quando chegarmos ao porto, desça,” disse o tio Zhang, saindo do carro.
O porto estava deserto, apenas um cargueiro os aguardava, conforme combinado.
A caixa não era pesada, o tio Zhang carregou sozinho. Zhang Ming, com o pão na boca, subiu para o convés, sentou-se ao lado da caixa e ficou de olho na carga enquanto o tio Zhang pilotava o barco.
Entediado, ele balançava o celular. De repente, o post do fórum finalmente atualizou.
[Fórum de Entusiastas do Sobrenatural]
“Flood”, “hot” [Segundo observações recentes, há sinais de ressurreição de uma divindade antiga em certa ilha. Deve acontecer esta noite.]
[Uau!]
[O quê, o quê!?]
[Aula de histórias de terror de novo!]
[Vendendo sementes, amendoim e pipoca na primeira fileira, corram que acaba!]
[Reservando lugar, volto depois.]
Autor do tópico: [No início de maio, percebi por meio de adivinhação uma anomalia no arquipélago. Fui investigar e notei que o clima tem estado especialmente estranho este mês. Num momento faz sol, no outro chove forte. Tanto de dia quanto de noite, há névoa espessa. As marés já não seguem a lua, tornando-se imprevisíveis. Ondas gigantes de dezenas de metros surgem ocasionalmente perto da costa, os barcos de pesca evitam sair ao mar e a área turística foi fechada.]
[Maio é época de chuvas, tempo instável é normal, não?]
[Sendo uma ilha costeira, ter neblina não é estranho.]
[Autor, pega leve, queremos algo mais emocionante.]
[Continua, continua. Só isso de estranho?]
Zhang Ming entrou por acaso nesse fórum e percebeu que muitos contavam histórias sobrenaturais sobre notícias recentes — deuses, fantasmas —, todos escreviam como se fosse verdade. Muitos, como ele, estavam ali só para se divertir.
Já reconhecia aquele autor, que em outras vezes tinha postado relatos detalhados de suas investigações, atraindo legiões de leitores em busca de emoções.
Ninguém levava a sério, muito menos Zhang Ming.
Ele continuou deslizando o dedo na tela.
Autor: [Alguns animais têm sentidos mais aguçados que os humanos. Observei os animais da ilha; gatos e cachorros domésticos ficaram inquietos, arrepiados, ansiosos, arranhando o chão, uivando e batendo nas paredes.]
Autor: [Alguns animais selvagens começaram a migrar. Uma ave migratória local, que normalmente só parte no inverno, já foi embora em maio.]
Autor: [Agora, todos os animais selvagens que podiam voar deixaram a ilha. Os que restaram estão em estado de estresse, e já houve vários incidentes de ataques a pessoas.]
De repente, o barco balançou. Zhang Ming guardou o celular, saiu para o convés e segurou no corrimão para olhar ao redor.
Por segurança, escolheram um cargueiro para navegar sob chuva. Mesmo assim, o potente farol da embarcação era incapaz de atravessar a escuridão adiante, havia apenas a espessa névoa branca.
Zhang Ming iluminou o mar com a lanterna. A embarcação fendia as águas, cortando ondas que vinham em sucessivas camadas, todas muito agitadas.
“Tio, está tudo bem?” — perguntou Zhang Ming, indo até o leme.
A bússola nas mãos do tio Zhang girava descontrolada. Ele lançou um olhar: “O que faz aqui fora? O mar está agitado, vai cuidar da carga. Se ela bater ou estragar, não temos como pagar.”
Zhang Ming franziu a testa olhando a bússola.
“Quebrou? Eu disse para não economizar, esses equipamentos nunca funcionam direito.”
O tio Zhang guardou a bússola: “Nada de quebrada. Em dia de tempestade elétrica, o campo magnético fica instável, é normal.”
“Eu navego há anos, nunca me perdi por aí. Para de se preocupar e volta pro seu lugar.”
“Tá bom, se precisar me chama.”
Zhang Ming foi empurrado de volta ao compartimento de carga. Ali dentro, parecia haver um som sibilante, mas quando entrou, tudo ficou em silêncio.
Talvez fosse só o barulho das ondas, pensou, sentando-se ao lado da caixa e voltando ao fórum.
Em pouco tempo, várias respostas apareceram. Alguém até descobriu a localização mencionada pelo autor.
[Normalmente, áreas turísticas em ilhas são bem fiscalizadas, ataques de animais selvagens não são comuns. Pesquisei notícias, e o arquipélago de Yuxun parece ser o local citado.]
[Também verifiquei as previsões do tempo. De maio até hoje, 10 de junho, o clima está exatamente como o autor descreveu. O parque e o porto estão fechados.]
Zhang Ming ficou surpreso. Arquipélago de Yuxun?
Era exatamente onde ele estava naquele momento!
De repente achou graça, curioso para ver até onde o autor levaria aquela história.
Autor: [O fechamento do porto não foi só por causa do clima. Navegar em neblina faz parte do ofício dos pescadores. O porto foi fechado pelo campo magnético.]
Autor: [Os mares ao redor da ilha, por milhas, estão com o campo magnético perturbado pela ressurreição da divindade antiga. A bússola não funciona. Todos os pescadores que saíram se perderam, e até os radares dos aviões de resgate foram afetados.]
O campo magnético afetando a bússola era verdade, mas o tio Zhang tinha dito que era por causa da tempestade.
Zhang Ming não resistiu e digitou:
[Autor, estou agora no mar próximo ao arquipélago de Yuxun. Meu celular tem sinal e consigo ver seu post. Como explica isso?]
[Uau!]
[Testemunho ao vivo?]
[Autor, responde logo!]
Depois de alguns minutos, o autor respondeu:
[Você saiu do porto Lingxue há duas horas, num cargueiro, certo?]
Zhang Ming ficou confuso. Era esse o nome do porto?
De qualquer forma, o autor alegava investigar in loco, podia ter visto eles partirem.
Zhang Ming ia responder de novo, mas o autor enviou outra mensagem.
[Calculei que há algo especial ao seu lado, interferindo no campo magnético. Afaste-se alguns passos e tente de novo, seu celular ficará sem sinal.]
Zhang Ming: ?
Calculei?
Que coisa absurda.
Cético, Zhang Ming levantou, saiu do compartimento e tentou postar novamente. O celular começou a girar e, de repente, ficou sem sinal.
Era verdade!
Ele andou pelo convés, tentou de tudo — atualizar, reiniciar —, nada funcionou. Voltou para o compartimento e, assim que se aproximou da caixa, a tela acendeu e o fórum atualizou.
A mensagem do autor estava lá, no topo.
[Imagino que já tentou e já tem a resposta.]
Zhang Ming encarou o autor, chamado “black”.
...Será mesmo possível algo assim?
Ele franziu o cenho, olhando para a caixa ao lado. O que havia ali dentro para afetar o campo magnético?
De repente, o barco balançou forte e parou devagar. Zhang Ming ouviu o som da âncora e correu para fora, vendo o tio Zhang atracar ao lado de um farol no mar.
As ondas ao redor, sem que percebesse, haviam cessado. O ambiente estava calmo e silencioso, uma paz que precede a tempestade.
“Chegamos?” — perguntou Zhang Ming.
Tio Zhang apagou o cigarro, com um tom de orgulho: “Pois é, não sabia? Depois de tantos anos no mar, nunca me perdi na neblina. Por isso me pagaram tão bem.”
Soltou uma baforada, olhando para a névoa densa: “Ainda bem que não era longe, senão não pegava esse serviço.”
“Vamos, temos que levar a caixa até o farol. Me ajuda aqui.”
Zhang Ming resmungou, guardou o celular e, junto com o tio, carregou a caixa para fora do barco, abrindo a porta do farol e subindo pela escada em espiral.
Subindo degrau por degrau, Zhang Ming comentou: “Esse farol parece novo. Tem até cheiro de tinta.”
O tio confirmou: “É, nem aparece no mapa. Deve ter sido o patrão que construiu.”
Zhang Ming assobiou: “Esse tem dinheiro mesmo.”
Chegando ao topo, marcas vermelhas intensas no chão surpreenderam Zhang Ming — caóticas, mas com traços que formavam um desenho estranho.
Ele estremeceu, sentindo um frio inexplicável no peito. Era junho, o calor deveria ser sufocante, mas ele sentiu o corpo gelar.
“...Tio, o que é isso?”
O tio não deu importância, colocou a caixa no lugar indicado pelo patrão: “Deve ser o estilo de decoração dele. No porto, os jovens vivem desenhando essas coisas nas paredes.”
“Isso é grafite.”
“Chame do que quiser. A caixa está danificada, abriu um rasgo. Eu te disse para cuidar melhor, se estragar, não recebemos.”
Zhang Ming nem ouviu, fixava o olhar no desenho no chão, sentindo a cabeça girar, como se fosse sugado para dentro.
Seu instinto gritava que aquilo não era simples grafite. Ele andava muito por aquele fórum, já tinha visto muitos desenhos parecidos — todos sinistros.
Suando frio, de súbito lembrou do fórum. Sacou o celular, tirou uma foto do desenho e postou.
[(foto) O que é isso?]
[Ei, não é você que acabou de perguntar ao autor?]
[O que é essa foto?]
[Não precisa nem do autor, eu sei. Isso é um círculo mágico. Já vi vários em outros tópicos, mas esse específico nunca apareceu.]
[@autor, explica aí, que magia é essa? Parece maneiro.]
Autor: [Consultei registros antigos, é um círculo ritualístico ancestral, usado para oferecer sacrifícios a deuses antigos.]
Autor: [Normalmente, desenha-se o mesmo símbolo sobre o próprio sacrifício, marcando-o para a divindade. O objeto é colocado bem no centro do círculo — como a caixa na sua foto — para a oferenda.]
Círculo ritualístico!?
Zhang Ming estremeceu. Por que havia um desses no farol?
Sacrifício, a caixa...
Será que o conteúdo da caixa era o sacrifício?
O olhar de Zhang Ming se voltou para a caixa. No instante seguinte, suas pupilas se contraíram: a caixa se abriu repentinamente e uma sombra negra saltou para fora.
A sombra, segurando uma corda, rapidamente laçou o pescoço do tio Zhang, puxando-o até o chão ao lado da caixa.
“Tio Zhang!”
“Ugh, ugh!”
O tio, pego de surpresa enquanto verificava a caixa, levou as mãos ao pescoço, lutando para se soltar.
Era forte e alto, e a sombra era pequena. Ele a arrastou com violência até bater na parede do farol, bem em cima do vidro.
“Bum!”
O vidro quebrou e caiu, e a sombra, com um gemido, apanhou um caco e o pressionou contra a garganta do homem, que se aquietou, sem ousar reagir.
A tempestade eclodiu, um raio iluminou o ambiente pelo vidro quebrado, permitindo a Zhang Ming enxergar claramente a figura.
Sob uma longa capa preta, um corpo pequeno e frágil; do capuz, um fio de cabelo comprido escapava, revelando parcialmente um rosto pálido, os lábios mordidos de dor pelo choque contra a parede.
Por entre a capa, via-se um braço fino e pálido, coberto de cicatrizes.
Dentro da caixa havia, afinal, uma jovem!