Capítulo 1
O sol está maravilhoso.
A água também está fresca e agradável.
O corpo afunda lentamente, e a consciência começa a se turvar.
— Irmão! — Na margem, uma criança manhosa reclama sem parar, protestando: — O sol está forte hoje, levante-se logo!
O jovem, totalmente submerso na água, abriu os olhos. Seus cabelos negros, levemente ondulados, pareciam incrivelmente suaves sob a água; os olhos cor de íris, primeiro, olharam para o céu através da superfície, depois se voltaram para o “menino” que o acompanhava pela margem.
— Irmão, você está sempre brincando sozinho. Não disse que desta vez sairia comigo?
Dazai Osamu soltou algumas bolhas, suspirando sem som.
O jovem encharcado subiu pela margem do rio Tsurumi, as roupas molhadas ainda pingando gotas.
— Irmão! — O menino manhoso calou-se de repente, e seus traços delicados se abriram num sorriso radiante, aproximando-se com alegria.
Dazai Osamu baixou os olhos para ela e disse:
— Kogari.
Ela parou obedientemente a dois passos de distância e cumprimentou:
— Irmão, gostou da brincadeira de entrar na água hoje?
O boné marrom de jornaleiro escondia o cabelo negro na nuca, fios macios caíam sobre o pescoço, e o rostinho bonito, sob a aba do chapéu, se erguia.
— Se não fosse por certo alguém que não parou de me importunar — Dazai Osamu sorriu, meio sério, meio brincando —, a brincadeira teria sido perfeita.
Kogari Tokiyama sentiu-se um pouco culpada, mas logo se defendeu:
— A culpa é sua! Disse que hoje ia sair comigo, mas fugiu para brincar sozinho na água!
Um absurdo!
Promete e não cumpre!
A criança irritada era mais baixa que Dazai Osamu, mas seus olhos, de um vermelho profundo, brilhavam ainda mais, cheios de energia diferente do “irmão”.
Ele riu baixo:
— Você é mesmo uma pestinha.
Sempre o atrapalhando.
Tagarelando sem parar.
— Ei! — Kogari Tokiyama virou-se para os mafiosos à sua retaguarda e ordenou: — Não vão buscar roupas limpas para o meu irmão trocar?
O “menino” pequeno, de jardineiras, comandava os adultos sem cerimônia.
Os mafiosos altos se curvaram para obedecer.
— Senhor Dazai, por aqui, por favor.
Ele respondeu sem se importar, a água escorrendo continuamente do cabelo e das roupas.
O carro preto da Máfia do Porto, responsável por transportar Kogari, estava sempre pronto, com roupas de troca para Dazai Osamu e sua paixão pelas “brincadeiras na água”.
A porta do carro se abriu.
Quando Dazai Osamu ia entrar, viu pelo canto do olho Kogari pisando sorrateiramente em sua sombra e, sorrindo, sacudiu os cabelos com força.
— Ei! — Kogari, apanhada desprevenida pelas gotas, reclamou — Irmão!
Dazai Osamu inclinou a cabeça inocentemente:
— Cabelo molhado é tão desconfortável.
Kogari fez beicinho, limpando as gotas do rosto.
— Se continuar me provocando, vou ficar brava — ela ajeitou a aba do boné, certificando-se de que o disfarce estava intacto, e enfatizou: — Eu brava sou terrível! Você nunca viu, irmão!
Dazai Osamu prolongou a resposta, sorrindo:
— Gostaria de ver.
Kogari inflou as bochechas, descontente.
O celular do mafioso vibrou.
Ele deu dois passos para trás e atendeu em voz baixa:
— Sim, entendi.
— Senhor Dazai, é para o senhor.
Dazai Osamu pegou o telefone sem entusiasmo:
— Alô, doutor Mori?
A voz preguiçosa, zero motivação para o trabalho.
— Sim, sim... entendi — respondeu distraidamente, até que de repente se animou: — Oh?
O jovem sorriu de canto.
Kogari piscou, surpresa ao ver o irmão, sempre desinteressado pelo trabalho, sorrir ao telefone.
— Irmão?
— Kogari.
Dazai Osamu desligou, jogando o celular para trás sem olhar:
— Volte para a agência.
Deu um tapinha no boné de Kogari e a manga do casaco balançou nos ombros.
Virou-se e se foi!
Kogari Tokiyama ficou incrédula.
Ela fitou suas costas indignada e perguntou:
— O que tem ocupado tanto o irmão ultimamente?
— O senhor Dazai anda preocupado com os Carneiros.
O mafioso designado para protegê-la respondeu sinceramente.
— Carneiros? — A mascote-chefe, normalmente alheia aos inimigos da organização, estranhou: — Não parecem grande coisa, por que o irmão teria de lidar com eles pessoalmente?
— Ele colaborou com o Rei dos Carneiros recentemente.
Kogari suavizou o semblante:
— Ah? São amigos?
Maeno hesitou:
— Acho que não.
— Não?
Kogari já impaciente, ergueu o boné e pressionou:
— Então? É fornecedor da organização? Ou negociante?
Do contrário, não via motivo para o irmão cooperar.
— Não... — Maeno respondeu cauteloso: — Na verdade, o Rei dos Carneiros é nosso inimigo. O senhor Dazai só trabalhou com ele temporariamente para resolver uns problemas.
Kogari se espantou:
— Irmão teve problemas? Por que ninguém me contou?
Maeno, delicado:
— Talvez não quisesse preocupá-la.
A verdadeira razão envolvia o antigo chefe.
Melhor não comentar.
— Então o tal Rei dos Carneiros é nosso inimigo? O irmão também não gosta dele? — Kogari confirmou.
Maeno lembrou dos conflitos passados entre a Máfia do Porto e os Carneiros e assentiu com firmeza:
— Sim, ele é nosso inimigo.
— O inimigo do meu irmão é meu inimigo!
Kogari seguiu pela trilha à beira do rio.
Virando a cabeça, perguntou:
— Que tipo de pessoa é o Rei dos Carneiros?
Conhece o inimigo, vence cem batalhas.
Antes de agir, precisava saber com quem lidava.
— É um homem muito difícil! — Maeno ficou tenso. — Melhor deixar para o senhor Dazai!
Kogari lançou-lhe um olhar de reprovação:
— Covarde!
— Nem viu o sujeito e já está com medo?
Maeno quase chorou.
Não era medo do Rei dos Carneiros.
Era medo de Kogari enfrentar Nakahara Chuuya e eles não conseguirem protegê-la.
Aí, não só Dazai não os perdoaria, como o conselheiro Mori e a líder Ozaki também não.
— Medroso!
Kogari resmungou e continuou andando.
Mas antes que pudesse insultar de novo, trombou em alguém na esquina.
— Ai! Que dor!
A dor surda se espalhou pelo corpo.
Kogari segurou o nariz, os olhos ficando vermelhos e a voz entrecortada:
— Não olha por onde anda?
Deu dois passos atrás, furiosa, e olhou para frente —
O rapaz de cabelo ruivo e olhos azuis olhava para baixo, mãos nos bolsos da jaqueta.
Fitou Kogari, o semblante ligeiramente frio:
— Não foi você que se distraiu olhando para trás?
Kogari ficou sem resposta.
Com o nariz doendo, os olhos rubros e brilhantes, fixou-o com raiva.
— Você também não olhava por onde andava!
Respondeu, contrariada.
Nakahara Chuuya ia dizer algo, mas ao notar a expressão delicada, quase chorosa dela, conteve-se.
Se dissesse mais alguma coisa, ela choraria ali mesmo.
— Ficou sem palavras? — Kogari fungou e baixou a mão, tentando mostrar que não doía.
Mas com o nariz e os olhos vermelhos, não convencia ninguém.
Nakahara Chuuya hesitou.
Não sabia lidar com crianças manhosas.
Perguntou:
— O que você quer?
Kogari se surpreendeu, avaliando-o desconfiada.
Tão bravo um instante atrás, e de repente, tão calmo?
— Vai pedir desculpa? — arriscou ela.
Chuuya arqueou a sobrancelha, entre um sorriso e um deboche:
— Se eu pedir desculpa, você vai pedir também?
O coração de Kogari disparou e ela protestou alto:
— Por que eu pediria desculpa?
— Pirralha.
Chuuya estendeu a mão.
O corpo de Kogari enrijeceu; queria recuar, mas os pés não obedeciam. Gaguejou:
— Vai, vai me bater?
A mão do rapaz se aproximava.
Assustada, fechou os olhos e encolheu o pescoço.
Mas, de repente, sentiu um toque seco na testa, a dor se espalhando.
Kogari tremeu as pestanas, abrindo os olhos devagar.
Chuuya sorriu de modo travesso:
— Moleca, quando estiver pronta para me pedir desculpa, venha me procurar.
Kogari segurou a testa latejante, meio abobalhada.
Ele deu a volta e seguiu seu caminho.
— Vocês não vão fazer nada? — Kogari virou-se, incrédula, para os mafiosos que a protegiam.
Pisou forte, furiosa:
— Ele me agrediu! Eu! A chefe de vocês!
Que raiva!
Ele não só bateu nela, como ainda deu um peteleco!
Não iria perdoá-lo!
— Kogari, ele é o Rei dos Carneiros.
Maeno observou Chuuya ao longe, cauteloso:
— Ele odeia a Máfia do Porto. Se descobrir quem você é...
A expressão de Kogari mudou.
A voz fraquejou:
— O que... o que ele faria?
— Provavelmente nos mataria.
Maeno estava sério.
Kogari congelou.
— Melhor voltarmos para a agência? — sugeriu Maeno, sincero. — Lá, haverá mais gente para protegê-la.
Ela ficou em silêncio. Após um tempo, disse:
— Não... não vou voltar.
— Kogari? — Maeno se surpreendeu.
Temendo que ela desconhecesse o perigo de Chuuya, insistiu:
— O Rei dos Carneiros é um homem aterrorizante. Ele invade nossos portos sozinho, mata mafiosos que enfrentam os Carneiros e sai ileso.
— Não é um inimigo que possamos derrotar.
Kogari apertou os lábios, ajeitou o boné e disse, séria:
— Mas ele é inimigo do meu irmão!
— Se eu resolver o inimigo do meu irmão, estarei ajudando!
Determinada, apressou-se atrás de Chuuya.
— O quê? Mas... nós não conseguimos vencê-lo!
Nem com vários grupos dariam conta.
Kogari olhou para trás, impaciente:
— Você é burro? Quem disse que vou lutar com ele?
Seria tolice enfrentar alguém no que ele é melhor.
Nem os tolos fariam isso.
— É claro que vou usar a cabeça!