Capítulo 6: O Peruquinho Nervoso
Página 1 de 3
— Roubado? O desjejum?
Cada palavra, isoladamente, era fácil de entender; juntas, porém, soavam absurdas.
O imperador franziu o cenho.
— O que quer dizer com “desjejum roubado”? O palácio do quinto príncipe não lhes deu o desjejum? Precisavam roubá-lo?
— Yuan Tang, és ainda criança; não fales sem pensar — disse a imperatriz, pigarreando de repente.
Xie Yuan Tang já ia responder quando a imperatriz acrescentou, num tom de aparente brandura:
— Não passa de o fato de, ontem, a doença de Yan’er ter sido grave e, hoje, vocês terem acordado tarde, perdendo a hora da refeição. Como podes dizer que lhes negaram comida?
— Eu não falei sem pensar — disse Xie Yuan Tang, piscando os grandes olhos límpidos e respondendo com voz infantil: — Não comemos, mesmo. Nem água havia no quarto. Se Vossa Majestade não acreditar, pode perguntar ao meu esposo. Faz muito tempo que nossos estômagos roncam!
Como se para confirmar suas palavras, o ventre de Situ Yan emitiu de súbito um alto ronco.
Agora já não havia necessidade de perguntar: era certo que nenhum dos dois tinha comido.
— Insolência! Afinal, como estão servindo esses criados?
O rosto do imperador escureceu. Situ Yan era seu filho; ainda que não lhe agradasse, não permitiria que os de baixo o humilhassem.
Além disso, naquele dia também viera o preceptor imperial.
Isso não seria, diante do preceptor, dizer que ele não soubera cuidar do próprio filho, envergonhando-o em público?
— Vossa Majestade, pão frio fere o estômago. Yan’er é frágil e, por natureza, não lhe convém comer isso. Os servos apenas queriam aquecê-lo de novo antes de servir — disse a imperatriz, fazendo uma pausa antes de voltar-se para Xie Yuan Tang e, com ar de grande impotência, balançar a cabeça: — Yuan Tang, ouvi do primeiro-ministro que, na infância, não foste criada pela família Xie, mas por uma camponesa. Suponho, por isso, que teu caráter possa ter sido comprometido. Nunca imaginei, contudo, que, tão nova, fosses capaz de distorcer tão descaradamente o certo e o errado.
Que disparate!
Quem tem o caráter comprometido és tu! Toda a tua família tem caráter comprometido!
Xie Yuan Tang se enfureceu.
Fechou os pequenos punhos com força, o rosto infantil tenso, os olhos bem abertos.
Como Xie Yuan Tang via a si mesma: furiosa, altiva, imune ao desprezo.
Como o imperador e o preceptor a viam: ora, a menina ficou zangada! Hm... parece um filhote de galinha eriçado.
Filhote de galinha eriçado... não, Xie Yuan Tang ergueu o queixo e disse, friamente:
— E daí se fui criada por uma camponesa? Isso é culpa minha? A culpa é de Xie Zhaoqing, por ser um pai inútil!
Seu rosto pequeno, pálido e magro, trazia marcas de chicote por toda parte; além disso, o caso do matrimônio forçado do dia anterior fora tão escandaloso que bastava um olhar atento para perceber o que ocorrera.
Ao pousar os olhos sobre o rostinho dela, o olhar do imperador vacilou por um instante.
Abriu a boca como se quisesse dizer algo, mas acabou soltando apenas um suspiro.
O casamento forçado era uma dívida não só da família Xie, mas também da casa imperial para com aquela pequena galinha eriçada... quer dizer, com a menininha.
— O que passou, passou. Não vale mais ser mencionado. Já que Yuan Tang é nora da família imperial, ninguém poderá usar seu passado contra ela.
Página 2 de 3
O soberano falou com indiferença.
Com isso, calou a imperatriz e todos os presentes no palácio, reconhecendo abertamente o status de Xie Yuan Tang como esposa do quinto príncipe.
Xie Yuan Tang ficou levemente surpresa. Não esperava que o imperador a defendesse. Em seguida, ouviu-o perguntar:
— Yuan Tang, o que disseste há pouco é verdade?
— Naturalmente. Tang Tang não ousaria enganar o soberano.
Xie Yuan Tang assentiu vigorosamente; o movimento foi um pouco exagerado, e os enfeites de pérolas e jade em sua cabeça tilintaram com nitidez, dando-lhe um ar travesso e vivo.
A pequena galinha eriçada assentira!
Sem perceber, o imperador deixou escapar uma risada baixa.
Todos estranharam. Até a imperatriz achou aquilo incomum: o imperador sempre fora solene e severo; por que hoje estava tão dado ao riso?
Ela não pôde deixar de olhar para Xie Yuan Tang. Seria por causa daquela menina?
Xie Yuan Tang fez biquinho.
— Que estranho. A imperatriz prefere acreditar na palavra de um servo a ouvir os sons dos estômagos ronronando de mim e do meu esposo.
Com sua “franqueza infantil”, como se apenas dissesse o que pensava, ela, de modo leve e sem esforço, fez a confiança do imperador na imperatriz despencar.
A expressão da imperatriz endureceu; no fundo, odiou Xie Yuan Tang por falar demais, mas no rosto manteve, no momento oportuno, o semblante de uma mãe aflita:
— Os servos agiram por bondade. Foram atrás de vocês para pedir os pãezinhos de volta, aquecê-los e então trazê-los novamente. E, no fim, vocês ainda os espancaram. Isso não basta?
Seu tom era tão insistente que faltou pouco para colar as palavras “sem razão” na testa de Xie Yuan Tang e de Situ Yan.
Com os cílios abaixados, Xie Yuan Tang percebeu que a imperatriz não era fácil de lidar.
Ela tampouco pretendia derrubá-la apenas naquele dia. Porém, Du Wei e aqueles servos tinham de ser eliminados; caso contrário, ela e Situ Yan jamais teriam paz na residência, para não falar em resgatar a mãe e se vingar da família Xie.
Enquanto seus pensamentos corriam depressa, o imperador voltou-se para Situ Yan e perguntou, com voz fria:
— Yan’er, bateste em alguém?
Situ Yan o temia de verdade; ao ouvir sua voz, estremeceu e, com o rosto pálido, murmurou:
— ...Bati.
— Que disparate!
De imediato, Situ Yan enrijeceu e, por reflexo, ajoelhou-se com um baque.
Era hábito. Só depois de se ajoelhar é que pareceu lembrar de algo; então ergueu a cabeça às pressas, nervoso, olhando para Xie Yuan Tang.
Seus olhos de flor de pêssego eram límpidos e temerosos, trazendo ainda um traço de confusão:
— Esposa, você me disse que eu não posso me ajoelhar diante de eunucos... então posso me ajoelhar diante de meu pai?
Silêncio absoluto.
Desde que vira o imperador até aquele momento, fora a fala mais longa de Situ Yan.
E conseguiu tornar ainda mais silencioso o salão, que já estava calado.
Nesse instante, mesmo que uma agulha caísse no chão, seria possível ouvi-la.
— Ajoelhar-se diante de eunucos?
O rosto de Situ Qing tornou-se sombrio.
Página 3 de 3
Seu filho, Situ Qing, ajoelhar-se diante de eunucos!
— Quem lhe disse para se ajoelhar diante de eunucos?
O imperador estava de feição carregada; ao lado, Yan Guanqing ergueu levemente as pálpebras, o olhar escurecido.
Ambos olhavam para Situ Yan, mas Situ Yan olhava para Xie Yuan Tang.
Ele ainda esperava a resposta dela.
— Não tenhas medo, esposo.
Xie Yuan Tang segurou-lhe a mão e sorriu, dizendo com doçura:
— Meu pai não é como aqueles eunucos; não vai bater em ti.
A mãozinha delicada sempre transmitia uma temperatura reconfortante. A expressão de Situ Yan suavizou um pouco; ele assentiu e apertou de volta a pequena mão dela:
— A esposa também não precisa ter medo. Mesmo que alguém vá bater, baterá em mim. Eu não deixarei que batam na esposa.
As figuras, uma alta e uma pequena, ajoelhadas com obediência ali, pareciam ao mesmo tempo lamentáveis e indefesas.
De repente, no salão silencioso, soou uma voz clara e fria.
— Os servos da residência já bateram em ti?
Quem falou não foi nem o imperador nem a imperatriz, mas o preceptor imperial — Yan Guanqing — que estivera sentado em silêncio todo esse tempo.
Vestia uma ampla veste cerimonial de tom púrpura-escuro; o rosto, claro e magro, tinha linhas frias, e os olhos e sobrancelhas de austeridade davam a impressão de uma distância impossível de medir, tornando impossível saber se era aliado ou inimigo.
Situ Yan claramente temia aquele tio materno; hesitava, sem saber se devia assentir ou negar.
Xie Yuan Tang não ligou para isso.
Aliado ou inimigo, já que lhe estendiam uma escada, ela não tinha motivo para não subir.
— Tio materno, não foi bem bater, não~
— Foi dar um tapa, um só. Com um estalo, bem alto!
— Vou mostrar ao tio materno.
Ela ergueu a mãozinha e segurou o queixo de Situ Yan.
— Esposo, levanta a cabeça para o tio materno ver teu rosto.
— Ah.
Situ Yan piscou e, obediente, ergueu o rosto, virando-o de lado.
— Tio materno, veja aqui. A marca do tapa ainda está!
Assim que Situ Yan levantou a cabeça, a vermelhidão no rosto ficou claramente visível; a marca nítida dos cinco dedos aparecia sem disfarce.
Antes, como ele estivera sempre de cabeça baixa, ninguém havia notado.
Ao fitar a marca do tapa, o olhar de Yan Guanqing escureceu de súbito.
— Os homens que a imperatriz encontrou são realmente ferozes!
— Não sabia, por minha vez, que em minha própria família alguém ousasse, sequer, ser pisado na cabeça por um simples eunuco.