Capítulo cinco

O Jovem Mestre Regrete Não Ter Agido Antes Vinte dias claros 4134 palavras 2026-07-31 05:08:54

Ao ouvir as palavras de seu pai, Yang Shuixi sentiu-se ainda mais arrasada. O que acabara de fazer fora mesmo vergonhoso, e não era de admirar que o pai estivesse tão zangado a ponto de nem querer falar com ela.

Ela se agarrou ao braço dele com manha.

— Pai! Não fique zangado, vai... Eu soube de tudo. O senhor da família Xiao é mesmo extraordinário; o tio Xiao escreveu muitas cartas a esse velho mestre antes de ele aceitar vir. Além do mais, o irmão já não assistiu às lições dele antes? Se eu for ouvi-las, talvez também possa tirar algum proveito, não acha?

Sua voz era doce e macia, e, quando fazia manha e tentava agradar alguém, vinha sempre carregada de uma ternura açucarada.

Yang Yi, afinal, não conseguiu endurecer o coração a ponto de afastar sua mão. Soltou um resmungo frio e ironizou:

— Eu nem sabia que você era tão aplicada assim. Você é burra de verdade ou só finge? A família Xiao já a desprezou desse jeito, e Xiao Yin nem um pingo de afeição tem por você. Para quê se humilhar assim? Há tantos homens no mundo que eu não acredito que não haja um sequer melhor do que ele! Eu nem queria lhe dizer isso; pensei que fosse apenas um capricho passageiro. Quem imaginaria que você pudesse ser tão sem-vergonha? Receber uma humilhação dessas e ainda correr atrás deles com tanta insistência.

Yang Yi estava furioso. Não era exatamente por Yang Shuixi correr atrás de Xiao Yin — desde o começo ele já consentira com isso. Contanto que a filha ficasse feliz, se gostava de um homem e quisesse persegui-lo, que perseguisse; o tempo, batendo de frente com a parede até se ferir, faria com que desistisse por conta própria.

Quem poderia imaginar que, desta vez, ela teria tamanha perseverança, a ponto de nem sequer se importar com a própria dignidade. Claramente fora difamada pela prima da família Xiao, e ainda havia a chance de desabafar e recuperar a honra; no entanto, ela pedira exatamente aquilo, correndo até a casa alheia sem um pingo de vergonha! Estaria louca?

Tinham-na humilhado até aquele ponto, e ainda assim ela oferecera o rosto com um sorriso!

A filha por quem Yang Yi sentia uma dor entranhada no coração fora tratada daquela maneira; como não se enfurecer? Ele estava tão zangado que quase ia chorar.

Quanto mais pensava, mais se afligia; o rosto gorducho se avermelhou por inteiro, e parecia até que fumaça estava prestes a sair-lhe da cabeça.

Yang Yi simplesmente não entendia: o que havia em Xiao Yin de tão bom assim?

Yang Shuixi olhou para o pai naquele estado e também sentiu o peito apertado. Disse, em voz abafada:

— O senhor mesmo já me disse que a gente vive só esta vida. Se quiser fazer alguma coisa, faça. Senão, vai acabar morrendo qualquer dia desses, e até debaixo da terra continuará se arrependendo.

Ela concordava plenamente com essas palavras, afinal a família Yang... era uma família de grandes malfeitores. Não se sabia quando poderiam ser exterminados até o último membro.

Por isso, o princípio de vida de Yang Shuixi era este: não se preocupar com o que viria depois da morte; se podia ser feliz por alguns dias, então que se fosse feliz primeiro.

Yang Yi disse:

— O que eu quero é que você viva contente, viva leve e satisfeita, não que vá se humilhar assim! Desse jeito, você acha que está feliz?

Yang Shuixi assentiu depressa.

— Fazer o que se quer, por si mesmo, já não traz humilhação. Eu gosto dele; ele me detesta; ele me olha de lado... isso também não está errado.

— Eu realmente não entendo em que ele é tão bom assim! Na sua cabeça não cabe mais nada além dele?!

Yang Shuixi pensou um pouco, tentando lembrar quando exatamente começara a olhar para Xiao Yin, a desejá-lo, a sentir que não podia prescindir dele.

Então se recordou.

Parecia ter sido há pouco mais de um mês.

— Eu já o havia visto antes, mas só achava que ele era demasiado frio, impiedoso, rígido demais com as regras, quase como um pedaço de madeira, sem nenhum traço de humanidade... Mas, há um mês, eu estava passeando pela rua e, por acaso, encontrei-o. Naquele dia eu caminhava com Xiao Chun pela rua e quase aconteceu uma tragédia.

Xiao Chun era a criada de confiança que a acompanhava de perto.

A voz de Yang Shuixi tornou-se lenta, como se rememorasse cada cena.

— Tragédia?! O que houve com você? Por que eu não soube de nada?

Ela explicou:

— Não, não fui eu; foi um pequeno mendigo. O menino caminhava sem cuidado, e um cavalo veloz vinha pela estrada oficial...

Yang Shuixi nem terminou a frase, e Yang Yi já sabia o que viria a seguir.

— Então foi assim: justamente Xiao Yin, como um deus descendo dos céus, apareceu do nada e salvou o pequeno mendigo? E foi isso que a fez se apaixonar à primeira vista? Ou talvez apaixonar-se à segunda? Yang Shuixi, até em romance de papelão isso já deixou de fazer sentido; que vulgaridade é essa? Além disso, a história do herói salvando a donzela — e ainda por cima o que ele salvou foi um mendigo, não você. O fato de ele sorrir bonito também não era para você, então por que esse afundamento no mar do amor?

Yang Shuixi levou outra bronca e enxugou a saliva que o pai lhe espirrara no rosto.

— Que palavras são essas? Ele é mesmo muito bonito. Você não viu: o cavalo já estava quase em cima da criança, e Xiao Yin nem se sabe de onde surgiu, pegou o menino de uma vez... Depois nem sei como foi que ele acabou no chão, mas foi lindo demais. Se o senhor tivesse visto, entenderia. E não é só isso. O senhor não sabe: aquela cara de gelo, diante da criança, não era gelo nenhum. Ele sorriu; o senhor não faz ideia de quão bonito foi o sorriso dele.

Ela nunca o vira sorrir antes.

Quando o viu sorrir, soube então que, neste mundo, havia gente capaz de sorrir de modo tão belo.

Desde então, passou a querer ver Xiao Yin sorrir novamente.

Infelizmente, ele não gostava de sorrir para ela, e jamais o fizera.

Yang Yi, furioso, bateu na própria testa.

— Está bem, está bem. Sua tola, que só enxerga a aparência das pessoas, eu realmente nem precisava lhe dizer nada.

Yang Shuixi disse:

— Pai, ele não é só aparência. Ele é um bom homem.

— Bom o quê! Igual ao pai dele, sempre assim, com essa pose solene. Nem os mestres da escola agem desse jeito.

Yang Shuixi não suportou ouvir o pai falar assim de Xiao Yin. Irritada, bateu o pé:

— É bom sim! Ele é um bom homem. Pode ser um pouco rígido, mas eu não me importo. Será que o senhor, naquela época, não perseguiu a mamãe? Por que comigo isso já não pode? Se eu quero algo, preciso abrir mão de alguma coisa. Curvar a cabeça pelo que desejo, eu não acho vergonhoso.

Yang Yi sabia que a filha tinha um gênio teimoso; quando decidia algo, nem dez bois a arrastariam de volta. Como já dissera aquilo, ele também nada podia fazer. Só quando ela mesma sofresse e provasse o amargor seria capaz de entender a dor.

Já perto do meio-dia, o sol ainda castigava com força. Yang Yi olhou para a garota à sua frente, o rosto corado pelo sol, e a fisionomia que em parte se assemelhava à da falecida esposa o arrastou irresistivelmente às lembranças.

Ele também fora assim quando jovem.

Lembrou-se da esposa morta e, ao pensar em seu próprio passado, de repente sentiu-se em paz.

Pois é. Quem, quando é jovem, não age assim? Nesse aspecto, Yang Shuixi se parecia com ele.

Yang Yi balançou a cabeça, resignado.

— Pois bem, pois bem. Você só vai aprender de verdade quando Xiao Yin feri-la uma vez; caso contrário, seus olhos não se desviarão nunca dele.

Se acabaria ou não esquecendo, Yang Yi não sabia. Mas, no passado, quando ele próprio se ferira, também deixara para trás.

Yang Shuixi, ao ouvi-lo, percebeu que ele já não estava zangado. Seu humor vinha e ia depressa, e logo ela saltou toda contente.

Mas então se lembrou de que tinha afugentado o irmão.

— Pai, o irmão também ficou com raiva de mim, não ficou?

Yang Yi soltou um resmungo.

— Ainda bem que você, como uma grande dama, lembra dele. Ele só aguentou você até agora porque vocês dois saíram do mesmo ventre.

Yang Fengsheng também tinha o temperamento de um jovem senhor. Vendo a princesa da casa humilhar-se daquele jeito na família Xiao, como poderia suportar? Preferiu não olhar, para não se irritar, e, furioso, nem mesmo voltou para casa; foi direto para a Casa de Danças Embriagadas.

Yang Shuixi, consciente da própria culpa, murmurou:

— Pai, o irmão está zangado... o que faço? Posso ir atrás dele?

Yang Yi entrou a passos largos, pois ainda tinha muito trabalho acumulado. Deixou apenas uma frase para ela:

— Fique quieta por enquanto. Deixe-o descarregar a raiva lá fora antes de ir atrás dele. Se for agora, você só vai acabar levando mais desdém dele.

*

Yang Shuixi esperou dois dias em casa, mas Yang Fengsheng ainda não tinha voltado. Antes, era comum ele passar a noite fora, e ela jamais se importara; só que, desta vez, sabia que fora ela quem o desagradara. Sentia o peito como se uma pedra enorme o esmagasse, e, enquanto Yang Fengsheng não voltasse, não encontrava paz.

Ao vê-la deitada na chaise longue, abatida, Xiao Chun colocou uma uva perto de sua boca.

— Senhorita, coma um pouco. É docinha.

A uva viera em tributo das regiões setentrionais, e o Imperador Jinghui presenteara Yang Yi com parte dela.

Como o humor de Yang Shuixi não estava bom, até a uva oferecida à boca lhe tirou a vontade de comer. Empurrou a mão de Xiao Chun e disse:

— Não quero comer, estou sem apetite. Come você.

Se fosse outra pessoa a ouvir aquilo, não ousaria tocar na fruta, por mais boa que fosse a relação entre servos e senhores; afinal, tratava-se de um presente imperial, e, mesmo concedido pelo amo, um criado deveria manter a medida.

Mas Xiao Chun era diferente de Yang Shuixi. As duas cresceram juntas; Xiao Chun a acompanhava desde os cinco anos, deixada por sua mãe.

A mãe de Xiao Chun fora a criada que acompanhara a mãe falecida de Yang Shuixi, a senhora Lin. Depois de casar-se e dar à luz Xiao Chun, morreu de parto. Quando Lin soube disso, Xiao Chun já tinha cinco anos. Naquela época, o pai sem coração queria vendê-la, mas, felizmente, Lin ficou sabendo e a trouxe para a residência Yang. Nesse tempo, Yang Shuixi mal havia completado um mês.

Depois, as duas cresceram juntas; embora senhorita e criada, eram mais parecidas com família.

Ao ouvir isso, Xiao Chun naturalmente colocou a uva na própria boca.

Sua boca se encheu de doçura, e até os lábios ficaram com um leve gosto de mel.

— É bem docinha. Tem certeza de que não quer provar?

Yang Shuixi apreciava o doce e, ao ouvir isso, conseguiu reunir um pouco de ânimo.

— Deixe-me provar.

Xiao Chun colocou a uva na boca dela.

— Realmente é doce.

Vendo que Yang Shuixi continuava com as sobrancelhas carregadas, Xiao Chun disse:

— Se a senhorita quer ver o senhor mais velho, basta ir procurá-lo. O senhor mais velho ficou zangado por dois dias; já deve estar se acalmando.

Ao ouvir isso, Yang Shuixi perguntou:

— Tem certeza? E se eu for atrás dele e ele não quiser me ver?

Os olhos de Xiao Chun se curvaram num sorriso; as duas tinham feições naturalmente afáveis, e ela pareceu ter ouvido uma piada.

— Como poderia? O jovem senhor sempre foi o que mais a estima. Imagino que agora ele já tenha passado a maior parte da raiva. Se a senhorita for chorar na frente dele, ele certamente amolecerá.

Yang Shuixi pensou um pouco e achou que fazia sentido. Ir procurá-lo era melhor do que ficar esperando em casa sem fazer nada.

— Está bem. Vá descobrir onde o irmão está agora; eu vou atrás dele.

Vendo que Yang Shuixi recuperara o ânimo e já não estava abatida, Xiao Chun respondeu sorridente e saiu correndo.

Só que saiu sorrindo e voltou de cara fechada. Xiao Chun parecia um pouco constrangida, e Yang Shuixi adivinhou o motivo, perguntando em voz alta:

— Ele ainda está na Casa de Danças Embriagadas?

A Casa de Danças Embriagadas era famosa por ser um lugar de prazer e dissipação.

Aquele Yang Fengsheng não queria morrer, era? Passar dois dias e duas noites lá dentro... e se estivesse morto?

Xiao Chun assentiu.

— O senhor mais velho esteve esses dois dias todos na Casa de Danças Embriagadas. Melhor deixar para lá. Esse lugar não é apropriado para a senhorita ir.

De fato, Yang Shuixi não queria ir a um bordel. Seria difícil justificar sua presença ali. Mas também temia que Yang Fengsheng continuasse naquele lugar e acabasse arranjando confusão sem necessidade.

Vai que um dia desses morria na cama de lá; então ela bem que podia bater a cabeça na parede e morrer junto.

Enquanto se levantava, Yang Shuixi resmungava:

— O irmão é mesmo nada limpo. O segundo irmão Xiao certamente jamais faria algo assim.

Xiao Yin era como uma flor de lótus sobre uma montanha de gelo, íntegro e correto; além disso, nunca se ouvira falar que tivesse mantido concubinas ou mulheres de câmara em seus aposentos. Em dezenove anos ao seu redor, a única pessoa com quem fora um pouco mais próximo era a prima.

Coisas como buscar prazer e diversão eram muito comuns entre os filhos de famílias ricas; sobretudo em lares de malfeitores como os Yang, cujo exemplo de cima inevitavelmente corrompia os de baixo. Se Yang Fengsheng não fosse um devasso, é que seria estranho.

Mas Yang Shuixi, como irmã mais nova, naturalmente não gostava do comportamento do irmão. Colocá-lo ao lado de Xiao Yin, tão puro quanto jade e gelo, tornava-o ainda mais detestável. Mas o que fazer? Afinal, fora ela quem o espantara. De todo modo, precisava chamá-lo de volta.