Capítulo 4: Resgatar a esposa é muito importante
Na parte norte da cidade, havia uma casa de apostas, o maior local de jogos do país. Essa casa era propriedade da família Ouyang, e foi ali que Lin Jiu quase perdeu tudo, inclusive suas roupas íntimas.
Lin Jiu ficou parado na porta, hesitando em entrar. Hoje ele estava sozinho; havia deixado o gordo em casa para que não o acompanhasse.
— Lingdang, o que você disse agora? Você pode sair? Ontem não disse que não podia? — perguntou Lin Jiu, confuso.
— Em princípio, é assim, mas sinto que há algo nesta casa de apostas que me atrai. Essa coisa consegue ocultar o fato de eu ser um espírito. Não sei exatamente o que é — respondeu Lingdang, transmitindo sua voz da consciência de Lin Jiu.
— Certo, quando entrarmos, use sua percepção espiritual para localizar essa coisa. Hoje vou te ajudar a ganhar de volta; será seu presente de boas-vindas atrasado — Lin Jiu esfregou as mãos animado. — Já faz tempo que não jogo, espero ainda ter a mesma habilidade de antes.
— Ora, ora, se não é Lin Jiu! Veio apostar de novo? Quanto trouxe desta vez? Já decidiu como vai perder tudo? Hahaha... — uma voz veio de trás.
Lin Jiu olhou para trás e viu um homem magro vestido com roupas douradas. Era ele quem, junto com Ouyang Bo, havia trapaceado e feito Lin Jiu perder todo o seu dinheiro.
— Sima Xuanjin, você ainda tem coragem de aparecer — Lin Jiu perguntou, indignado. — Prometeu me ajudar a ganhar, mas no fim me fez perder até minha esposa. De que lado está você? O que realmente deseja?
— Nada de especial. Coincidentemente, você apareceu. Que tal fazermos uma aposta alta? — Sima Xuanjin abanava o leque nas mãos.
— Apostar o quê? — perguntou Lin Jiu.
— Lá dentro — respondeu ele.
O grupo entrou na casa de apostas, onde o cheiro do dinheiro pairava no ar. Gritos e clamores ecoavam; alguns saíam felizes com o dinheiro ganho, outros choravam por terem perdido, e alguns, endividados, eram levados à força para terem as mãos cortadas.
De longe, Ouyang Bo viu-os e sorriu ao se aproximar.
— Ei, irmão Sima.
Ele abraçou o ombro de Sima Xuanjin.
— E não esqueça daquele outro, ele é o cliente importante — lembrou Sima.
— Ah, claro, claro, jovem mestre Lin, quanto tempo! — disse Ouyang Bo, tentando também abraçar Lin Jiu, que desviou habilmente.
— Que desprezo — resmungou Lin Jiu.
— Já que estamos os três reunidos, que tal uma aposta alta? — sugeriu Sima Xuanjin.
— Por mim, tudo bem. Faz tempo que não jogo, vai ser divertido — respondeu Lin Jiu. — E você, Ouyang Bo?
— Também não tenho problema — disse Ouyang Bo, ordenando aos servos: — Levem o chá especial de anos para cá.
Os três caminharam lado a lado até uma sala privada no terceiro andar, local onde Ouyang Bo recebia seus convidados, o lugar ideal para apostas.
Assim que se sentaram, os servos trouxeram o chá. Lin Jiu apenas cheirou a bebida e a deixou de lado; segundo sua experiência, havia algo suspeito ali.
Os outros dois não tiravam os olhos dele, então ele bebeu simbolicamente um gole e limpou a boca com um lenço.
Ao ver Lin Jiu beber, o olhar astuto de Sima Xuanjin se fechou um pouco.
De fato, aquele chá parecia envenenado; quem o bebesse seria uma presa fácil.
— Como querem apostar? — perguntou Lin Jiu.
— Simples: se perder, deixa a vida — disse Ouyang Bo.
— E se eu ganhar? — indagou Lin Jiu.
— Você decide — respondeu Ouyang Bo.
— Certo. Se eu ganhar, quero o contrato da minha esposa de volta.
— Combinado.
— Vamos começar, melhor de cinco. Cada rodada será diferente e quem perder escolhe o jogo — explicou Sima Xuanjin. — Primeira rodada: jogo de cartas "Dominação".
A criada começou a distribuir as cartas e, quando terminou, ficou atrás de Lin Jiu.
Ele era o "dono da terra", começaria a jogar. Sentia algo o observando, mas ao olhar para trás, a criada estava tranquila, sem nada estranho.
— Três com um — disse Sima Xuanjin.
— Passo — respondeu Lin Jiu.
— Sequência — Sima continuou.
— Passo.
— Três — Sima falou. — Só me resta uma carta.
Lin Jiu, vendo que ele tinha só uma carta, jogou um dois com firmeza. Para ele, os "reis" já tinham sido jogados, nada poderia superar seu lance, estava confiante.
— Quadra — Ouyang Bo surpreendeu ao jogar, pegando Lin Jiu de surpresa.
— Passo.
— Um três — Ouyang Bo jogou.
— Haha, um curinga, acabou — Sima Xuanjin lançou sua última carta e abriu o leque, onde estava escrito "Talento".
Lin Jiu fingiu surpresa, mas estava calmo. Ele já sabia que os dois trapaceavam; não tinha pressa, deixaria que eles comemorassem a vitória final.
Primeira rodada, vitória de Ouyang Bo e Sima Xuanjin.
— Segunda rodada: jogo de dardos, vence quem tiver melhor pontaria — propôs Lin Jiu.
— Muito bem, jovem mestre Lin, não subestime, sou o melhor arqueiro do país — disse Sima Xuanjin. — Tragam os equipamentos. Quero usar um humano como alvo.
Assim, com tudo preparado, Ouyang Bo foi o alvo. Sima Xuanjin colocou uma maçã na cabeça de Ouyang e, a dez metros, lançou o dardo que caiu, derrubando a maçã.
A plateia aplaudiu Sima Xuanjin.
— Até com o pé eu acerto melhor. Vamos ver se hoje o título de melhor arqueiro muda de dono — disse Lin Jiu, colocando uma pequena uva na cabeça de Ouyang Bo.
Um pressentimento ruim tomou conta de Ouyang.
— Cuidado, irmão, não precisa forçar se não acertar — disse ele, tremendo.
— Se você continuar tremendo, não sei onde meu dardo vai acertar — Lin Jiu fechou os olhos com um pano e virou-se.
Ouyang Bo se endireitou, rezando para sobreviver.
Três dardos voaram e destruíram completamente a uva.
Lin Jiu tirou o pano e viu Sima Xuanjin boquiaberto, enquanto Ouyang Bo já estava no chão, ofegante.
— Segunda rodada, ganhei. Alguma objeção? — perguntou Lin Jiu.
— Não, quase perdi a vida. Você é demais. Preciso de um tempo, alguém me ajude — disse Ouyang Bo, enquanto era amparado pelas criadas.
— E você? — indagou Lin Jiu a Sima.
— Você... você venceu — respondeu Sima, abatido.
Ele precisava se recompor; nunca imaginara que o jovem considerado inútil tivesse tanta habilidade. Agora teria que levar o adversário a sério.
Segunda rodada, vitória de Lin Jiu. Empate, cada um com uma vitória.
A terceira rodada começou logo.
— Preparados? Vocês escolhem — disse Lin Jiu.
— Vamos jogar dados, seis dados, quem tirar a menor soma vence — propôs Ouyang Bo, enquanto os servos traziam os dados.
Sima já havia jogado para a equipe dos trapaceiros; para ser justo, Ouyang Bo jogaria agora.
— Tudo bem, mas não fuja da aposta se perder.
— Sem enrolação, começo eu — disse Ouyang Bo, batendo na mesa. Os dados voaram e ele os agitava num recipiente especial, enquanto Lin Jiu escutava atentamente.
Quando pararam, viram que todos os seis dados mostravam um ponto, totalizando seis.
— Não precisa competir, seis é o menor número. Ganhei — declarou Ouyang Bo confiante. — Entregue sua vida.
— Calma, ainda não joguei. Vamos ver — disse Lin Jiu, batendo na mesa. Os dados voaram e ele os recebeu, sacudindo-os poucas vezes antes de lançar na mesa.
— Hum, isso é grosseiro, nada de padrão, parece que desistiu — disse Ouyang Bo.
— Está enganado. Já ouviu dizer que o jogo mais complexo pode se resolver da forma mais simples? Cinco pontos e meio, ligeiramente melhor. Aceito a derrota — respondeu Lin Jiu, abrindo o recipiente e mostrando os dados alinhados: todos com um ponto para cima, exceto um quebrado pela metade.
— Isso é impossível! Você trapaceou! Chame os guardas! — gritou Ouyang Bo.
De repente, todos os guardas cercaram Lin Jiu.
— Ah, desesperado, hein? — Lin Jiu balançou a cabeça e aumentou o tom: — Quem disse que o menor número vence? Quem disse que eu trapaceio? O verdadeiro trapaceiro é esse cara que não aceita perder! Venham todos ver! O proprietário Ouyang é um trapaceiro! O maior cassino do país é cheio de golpistas! Venham ver!
Sua voz era tão alta que podia ser ouvida no andar térreo. A multidão começou a murmurar, a maioria criticando Ouyang Bo, que ficou verde de raiva.
— Chega! Tragam o contrato da esposa dele e devolvam! Capitão dos guardas, controlem essa multidão, está muito barulhenta! Saiam todos daqui! — ordenou Ouyang Bo.
— Irmão Ouyang, não se irrite por causa de um palhaço — disse Sima Xuanjin, tentando acalmá-lo.
A raiva de Ouyang diminuiu gradualmente.
As criadas entregaram o contrato a Lin Jiu, que queimou o papel diante de todos. As cinzas caíram ao chão.
— Vamos, não precisam me acompanhar — disse Lin Jiu, virando-se para sair.
— Lin Jiu, não vá. Eu senti. É o cheiro da flor Qi Yin, ela pode ocultar minha presença. Para os outros, pareço apenas uma pessoa — chamou Lingdang.
— Espere aqui — respondeu Lin Jiu e voltou.
— Por que voltou? Pegou o contrato, é melhor ir embora — disse Sima Xuanjin.
— Não vou. Ouvi dizer que vocês têm a flor Qi Yin. Quero ela. O que vocês propõem?
— Lin Jiu, não se atreva a ser arrogante. Quer a flor? Nem pensar. Saia daqui agora!
— Então, o que preciso fazer para consegui-la?
— Hmph. Não é impossível, mas tem que aceitar uma condição.
— Diga.
— Lutar contra meu melhor guarda. Se vencer, fica com a flor. Se perder, deixa a vida.
Lin Jiu pensou: “Esse idiota só quer me matar. Estou roubando a esposa dele ou o quê?”
— Tudo bem, aceito.
— Heh, Lin Jiu, logo você vai se arrepender desta decisão — disse Ouyang Bo. — Quem mandou roubar Qin Qingyun? Ela era minha, mas escolheu você.
Lin Jiu sorriu por dentro: “Então era mesmo roubar a esposa. Impressionante, o antigo dono.”
O jogo foi suspenso, e os apostadores se reuniram para torcer. Todos os equipamentos foram afastados para abrir espaço no centro.
Lin Jiu e o guarda mais forte ficaram frente a frente, prontos para lutar.
Ouyang Bo e Sima Xuanjin ficaram de lado, sorrindo maliciosamente. Mas logo não teriam motivos para rir.
— Apostem dez para um, façam suas apostas! — gritaram os espectadores. Sabiam que Lin Jiu não podia se aprimorar, sem poder espiritual despertado, e não venceria o guarda. Apostavam todas as fichas nele.
— Lingdang, prepare uma barreira para bloquear a visão de fora. Não posso mostrar meu uso da arma — disse Lin Jiu, assumindo posição de combate.
— Ok, tudo pronto! — respondeu Lingdang, animada.
O guarda também ficou em alerta.
Ouyang Bo levantou a mão e a abaixou com força.
— Preparar... começar!
A luta começou, e uma barreira negra surgiu, bloqueando a visão de todos.
Dentro da barreira, Lin Jiu sacou sua arma e atirou na cabeça do guarda que avançava.
— Bang! A bala atravessou a cabeça e o homem caiu.
— A morte foi justa. Na memória do antigo dono, esse sujeito era um canalha, cruel e perverso. Que pena minha bala ter acabado, só restam catorze. Mas tudo bem, ao menos você, Lingdang, não precisou gastar uma — disse Lin Jiu, recolhendo a arma.
— Obrigada — disse Lingdang, retirando a barreira.
Lin Jiu reapareceu à vista de todos.
— O que aconteceu? Como isso foi possível?
— Lin Jiu não era um inútil? Como venceu um guarda de quatro estrelas?
— E aquele guarda parece ter morrido!
— Ah!
A multidão murmurava, pois só tinha ouvido um único disparo desde a barreira.
Ninguém sabia o que havia ocorrido ali dentro.
Ouyang Bo ficou atônito, sem falar.
— Ouyang Bo, cadê o prêmio? Traga logo!
— Acabou, perdi tudo hoje. Nunca devia ter deixado você assinar o contrato. Aqui está — disse ele, desmaiando.
Sima Xuanjin tentou acordá-lo enquanto Lin Jiu saía com a flor. Atrás deles, o som de lamentos; os apostadores que tinham apostado no guarda perderam tudo.
— Vamos, Lingdang, vamos para um quarto. Quero que você possa sair para jogar sempre que quiser! — disse Lin Jiu, correndo para encontrar uma hospedaria.
— Como está? Melhorou? — perguntou Lin Jiu.
— Sim, muito melhor. No começo a absorção foi dolorosa, mas depois passou — respondeu Lingdang.
Eles estavam na hospedaria. Lingdang havia sofrido dores intensas ao absorver a flor Qi Yin, mas agora podia falar.
— Então, agora você pode sair do meu corpo na forma espiritual? — perguntou Lin Jiu.
— Sim, mas não por muito tempo. Só absorvendo tesouros e crescendo em força poderei assumir forma humana verdadeira. Agora ainda sou apenas um falso humano.
— Ninguém vai perceber?
— Não — respondeu Lingdang, descendo da cama. Lin Jiu se endireitou. Por causa do peso, ele era um pouco mais baixo que ela, que já era baixa, quase meio palmo mais baixa que Qin Qingyun.
— Lin Jiu, vou te dizer a verdade. Qin Qingyun gosta muito de você, posso sentir isso, mesmo estando na sua consciência. O olhar dela é cheio de amor; talvez ela goste não da sua aparência, mas do seu interior.
— Uma garotinha, o que entende? — Lin Jiu tocou a cabeça de Lingdang. — Eu também gosto dela, mas veja como estou agora. Não mereço isso. Quanto mais bonita e forte ela é, mais me sinto inútil. Não quero ser um fardo para ela. Quero me fortalecer para protegê-la. Só assim sentirei que mereço.
— Quem disse que sou pequena? Já vivi por centenas de anos, só pareço ingênua — retrucou Lingdang. — Se quer mudar, por que não emagrece?
— Justamente essa minha intenção! — respondeu Lin Jiu, com um sorriso malicioso.
— Espera! — de repente ele gritou. — Por que tem cinco dados a mais? Que significado é esse?
— Não está certo — Lingdang voltou à consciência dele. — Por que de repente...